Artigos para Autorreciclagem

A Falta de Respeito na Sociedade na Civilização Moderna

Um estudo objetivo que examina as causas e efeitos por trás da falta de respeito na sociedade patológica onde vivemos.
"Uma mesologia doente é como uma colônia de bactérias resistentes, cujo efeito é a criação de patologias cada vez mais difíceis de tratar..."
A Falta de Respeito na Sociedade na Civilização Moderna

O sábio se autorrecicla a partir dos seus pontos fracos, firmemente amparado pelos seus pontos fortes...

Examinando a Questão...

O instinto nunca é racional, tem raiz emocional. Faz parte da psicogenética do animal irracional que ainda somos. Mas, ao contrário dos nossos amigos selvagens, somos capazes de construir memórias a partir das nossas experiências, e em cima disso elaborar cadeias lógicas chamadas de pensamentos, o que nos faculta a reflexão, a ponderação e a escolha voluntária.

A Intolerância é a chave que regula todas as relações humanas e ela se apóia em cima de apenas um pilar: o Egocentrismo. O Egocentrismo é o mesmo princípio que regulamentou de uma forma singular o modo de vida e a mentalidade medieval. Ali a Terra era o centro do Universo, e também possuía um mar plano com abismos nas bordas; além disso, o ente humano era visto como um clone do criador desse mesmo Universo.

Eis a máxima que deu origem ao excêntrico modo de pensar daqueles tempos remotos. E exceto pelo processo da higiene pessoal que de lá para cá progrediu um pouco, nos demais aspectos, psicologicamente falando, aparentemente não houve mudanças significativas.

E há uma coisa em comum entre todos nós, tanto para aqueles da classe dos racionais, quanto dos irracionais. E isso é o fato de vivermos, como inquilinos temporários, em um mesmo planeta. E não há uma condição, o direito instituído por leis naturais, onde fica estabelecido que uma espécie ou grupo fosse denominado como arrendador e o outro como locatário.

Uma tradição patológica que apesar de antiga, continua a recrutar novos adeptos...

Voltando aos princípios dos pensamentos medievais que circulavam na parte ocidental do mundo pré-colombiano, a crença era de que os animais não possuíam existência independente, mas antes disso, foram concebidos pelos deuses para nos servir; ora como força de trabalho, ora como alimento.

Nesse mesmo tempo, a espécie humana, já autodenominada como dominante, numa extrapolação do seu próprio egocentrismo, estabeleceu que essa entidade divina, o planificador e arquiteto, o mestre de obras e pedreiro, o gestor do Universo, só poderia ostentar todos esses atributos e qualidades por ser análogo em aparência e potencialidades à sua cria terrena.

E de posse dessa carta de apresentação, o clone divino poderia então justificar sua condição de domínio diante dos irracionais; sobre aqueles protótipos de vida cuja função exclusiva era servir a esse homem, ora como veículo de carga, ora como iguaria comestível, uma vez que foram criados à semelhança de ninguém.

No entanto, essa entidade celestial suprema, em alguns aspectos, seria ligeiramente diferente de sua cria terrena. Tratar-se-ia de um super-homem, com poderes extraordinários, capaz de vigiar a todos dia e noite, com um único propósito: recompensar os bons com prendas maravilhosas, e punir os maus com terríveis castigos; punições que iriam variar de acordo com o senso de humor ou estado de espírito dos ministros eclesiásticos, quer dizer, seus profanos representantes legais.

E a existência daquele ícone cósmico se limitava a isso, afinal de contas, fora uma entidade concebida em nosso ideário exatamente para desempenhar esse papel, sem contar que a terra era o centro do universo. Na verdade era mais que isso, já que representava a própria totalidade do universo.

Isso nos faz relembrar do primeiro preceito: animais não tinham existência independente, foram criados para nos servir ou para serem degustados como alimentos depois de um sacrifício humanizado, se é que é possível considerar a matança como gesto humanitário.

Por que será que as mudanças são tão resistentes ao tempo?

Parece que não mudou muita coisa desde então, uma vez que ainda consideramos nossos amigos irracionais como fonte preferida para satisfazer nossos caprichos alimentares, num claro e consciente decreto de que somos a espécie dominante. E nossa arrogância assentida se afirma no menosprezo absoluto pela vida desses indefesos companheiros de confinamento, e tamanha insensatez se tornou um preceito existencial, um atributo característico, exclusivo da nossa espécie.

Paradoxalmente, a despeito da proclamação de respeito à vida que publicamente insinuamos ter, de forma deliberada, continuamos a nos alimentar dessas inofensivas criaturas, a partir do seu sacrifício intencional, ignorando completamente o primeiro preceito, que na retórica fingimos respeitar.

E entre nós, afinal de contas, como nos relacionamos uns com os outros?

Quem não deseja chegar primeiro? Quem não se considera merecedor de atenção e de méritos, detentor de uma condição exclusiva que o coloque à frente dos demais concorrentes, nossos congêneres, que também reivindicam dos mesmos direitos?

Pela ordem, eis o que as escolas, os nacionalistas, os comunistas ou socialistas, e as religiões organizadas nos ensinam desde sempre: Competir para conquistar; segregar para nacionalizar; doutrinar para escravizar.

E se todos foram orientados pela mesma cartilha, como será possível a existência de uma mente social livre de conflitos, capaz de criar um estado sem fronteiras sociais e antagônicas? Seria o mesmo que alimentar uma barata com naftalina e esperar que ela, ao invés de adoecer, se curasse de todos os males.

E num mundo social com esse perfil a lei que foi criada exatamente porque não existe ordem só tem valor quando o indivíduo é a vítima. Por isso ninguém a respeita, e de forma bizarra, enquanto os deveres são desprezados, ostensivamente ignorados, os direitos são reivindicados. Fazendo uma analogia, é com se estivéssemos diante de um empregado que, além de se recusar a trabalhar, reclama da falta de salário, a um patrão que não existe.

Mas a maior evidência desse comportamento patológico não está contida nos casos onde a lei é convocada para resolver delitos conflituosos, e sim nos desdobramentos dos próprios delitos, uma vez que demonstram e atestam nosso delírio e insanidade existencial.

No entanto, dotado de pensamento lógico, o homem sabe o que faz, e quando pratica um delito, ele nunca assume seu erro como uma falha, nem se reconhece como intencionalmente culpado. E assim, tentará a todo custo, fugir das leis que ele mesmo criou para regulamentar sua vida. Entretanto, quando se encontra no papel de vítima, logo cuidará de exigir seus direitos.

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