Contos Reflexivos para todas as Idades

A Lenda da Primeira Civilização

“E se a história de ascensão e queda de todas as civilizações fosse apenas um mero ciclo de repetições; uma perpétua cadeia de eventos sempre iguais em desfecho, apesar da aparente renovação dos protagonistas?”

A Lenda da Primeira Civilização

Avanço tecnológico e a riqueza de recursos materiais só trariam benefícios para a humanidade se estivessem sob o jugo de consciências justas...

A insanidade humana não pode ser avaliada ou julgada a partir de princípios éticos criados pela mesma mentalidade que concebeu, disseminou e mantém vivo o comportamento insano...

Depois de milhares de anos usando minimamente o cérebro, os habitantes daquela civilização finalmente passaram por uma importante mudança, na verdade uma mutação, cujos efeitos se fazia notar de forma dramática em toda sociedade. As estatísticas oficiais, informações que circulavam em segredo apenas entre os membros graduados do centro de comando do poder central, revelavam à luz da ciência, o resultado de um programa pedagógico – na verdade uma reformatação mental – iniciado dezenas de anos antes.

Fora um trabalho bem organizado, discreto, silencioso, paciente, executado a muitas mãos, seguindo à risca diretrizes bem planejadas, claramente idealizadas, e cujos frutos, finalmente, já estavam maduros, à disposição dos seus cultivadores.

Agora era um fato consumado, comprovado. E salvo raríssimas exceções, os indivíduos não conseguiam mais pensar e agir por conta própria. Mas, o mais importante de tudo isso era que os cérebros atrofiados agora eram os naturais, aqueles concebidos em seus hospedeiros, desde o útero, e não mais o lote defeituoso da geração anterior, uma safra cuja massa encefálica fora intencionalmente modificada geneticamente para encolher. O encolhimento fora um processo fundamental para o advento da fossilização, para a eliminação ou supressão de qualquer potencial cognitivo.

E se aquele primeiro projeto não dera certo, isso ocorreu porque uma geração de imbecis absolutos, fora o desastroso resultado. Eram tão estúpidos que se tornaram dependentes físicos, um verdadeiro problema social, um fardo dos mais pesados para o governo, uma vez que sequer sabiam diferenciar o calor do frio. E muitas gerações foram necessárias para a erradicação completa daquele lote defeituoso, assim como dos seus descendentes, uma vez que quando o assunto era reprodução, para isso, eles mostraram mais que capacitados.

“Nossa proposta inicial era a concepção de idiotas funcionais, sujeitos facilmente sugestionáveis e condicionáveis, entretanto, que ao menos tivessem capacidade mental para seguir instruções, assim poderiam nos servir com sua mão de obra. Todo lote da geração anterior só sabia fazer uma coisa: procriar. Nesse aspecto, mais pareciam os ratos, cujo DNA foi misturado ao deles com a intenção de torná-los mais adaptáveis aos ambientes inóspitos dos dias de hoje, esta, aliás, uma condição criada por eles...”, justificava o coordenador do centro de genética avançada do partido totalitário.

O fato fora que, aquele primeiro projeto de modificação genética feito de modo experimental em um lote de indivíduos da espécie humana, inoculados com o DNA dos ratos, resultara em um completo fracasso. Ocorre que, na ânsia de se criar um protótipo humano com cérebro atrofiado, mas ao mesmo tempo dotado de uma fisiologia adaptável à ambientes urbanos degradados pela sujeira e poluição, acabaram por conceber um indivíduo atrofiado e sem cérebro. Eram tão estúpidos que, mesmo depois de adultos, não sabiam se expressar com clareza, e o pior de tudo, tornaram-se viciados em novelas e outros programas à altura de sua estupidez. Também não sabiam escrever ou ler, nem compreendiam de forma lúcida as instruções que lhes eram passadas.

Por isso, de nada serviriam para o Partido Totalitário Central, uma vez que a proposta original era a criação de uma geração de homens cativos com uma cota mínima de massa encefálica, e ainda assim condicionáveis, controláveis, quer dizer, facilmente domesticáveis. Mas o que se viu foi um lote de homens incondicionáveis e incontroláveis, e isso simplesmente porque não havia espaço em seus cérebros para alojar nenhum resíduo cognitivo.

E o motivo só foi descoberto muito tempo depois, quando o experimento não mais poderia ser revertido. Aconteceu que, embora a porção “Rato” tivesse a intenção apenas de fortalecer a fisiologia humana diante da degradante condição ambiental do planeta, o fato é que o cérebro do animal irracional acabou por ganhar um destaque acima do esperado na constituição psicológica do novo hospedeiro.

E assim o plano fora temporariamente deixado lado. Mas agora a história era outra, e finalmente, tiveram êxito em criar um homem de acordo com aquele projeto inicialmente planejado. No entanto, foi necessário esperar várias gerações, até porque, como diziam os coordenadores do programa: “O ideal do processo lento é que ninguém irá perceber as mudanças, a lenta, progressiva e irreversível lavagem cerebral...” E foi o que aconteceu.

Para isso, em primeiro lugar o estado criou condições onde o indivíduo perdera o seu senso crítico, e fez isso ao criar as escolas onde os alunos automaticamente passavam de ano de acordo com a idade, e não mais de acordo com o grau de aprendizado, ou a qualidade do repertório cognitivo pessoal.

“Não precisam aprender a ler ou escrever, basta que estejam aptos a seguir nossas ordens sem questionar...”, comentavam os ministros da educação.

E em pouco tempo, à medida que as novas gerações foram chegando, ninguém mais sabia ler ou escrever, e todos achavam aquilo uma coisa natural. Depois vieram os programas de televisão com suas novelas e dramas do cotidiano, tramas especialmente produzidas pelo estado para criar em todos uma mentalidade dirigida, um pensamento condicionado; padrões comportamentais à base de castigos ou recompensas, a exemplo daquilo que já se fazia com os animais domésticos.

E o resultado, finalmente, agora podia ser comemorado. Nenhum cidadão em atividade social era capaz de pensar sozinho, agir por conta própria, ou fazer qualquer coisa sem uma orientação ou comando prévio. E o mais importante, haviam perdido por completo o senso de questionamento. Assim, os absurdos e as coisas bizarras, mesmo os mais extravagantes e insensatos hábitos, agora eram considerados processos naturais.

Obedeciam sem questionar, trabalhavam para servir ao seu mestre, e nada reivindicavam para si ou para os outros. E ainda foram treinados para agradecer aos bondosos deuses pelo fato de estarem vivos, embora se assemelhassem a marionetes biológicas, e esse era o cenário perfeito para as metas de qualquer governo totalitário.

E durante as comemorações, na festa de confraternização do grande partido, um dos ministros mais influentes do poder central resolveu apresentar uma nova proposta para os demais. Seria a criação de cotas de indivíduos com cérebro, isso para que pudessem servir de cuidadores para os filhos dos senhores da cúpula dominante.

Entretanto, ele argumentou justificando aquele ideia de modo a dar um embasamento científico e antropológico à sua proposta.

“Na antiguidade, uma classe denominada de senhores de engenho, um título de nobreza similar ao nosso, acomodava entre seus escravos, um pequeno lote que fazia o papel de cuidadores ou pais substitutos para seus herdeiros. Era apenas um pequeno grupo. Eram então acolhidos dentro das casas-grandes, uma versão primitiva dos nossos palácios atuais, recebendo até um tratamento diferenciado quando comparados aos demais servos, que nos campos trabalhavam como animais brutos 18 horas por dia, estes sim, sem direito a nenhum tipo de regalia...”

“Meu caro ministro, muito boa e apropriada essa sua colocação. Sem contar que tal advento nos proporcionaria um serviço escravo mais qualificado, a altura do nosso status. E agora, o ponto mais importante: teríamos mais tempo livre para usufruir com maior intensidade do nosso precioso e divino lazer...”

E assim surgiu a classe dos cativos dotados de um cérebro minimamente pensante. Estes serviam aos seus senhores com mais qualidade e sofisticação, exatamente como fora a proposta do conselho de ministros. Mas, os dominadores, isolados dentro de sua estreita mentalidade assoberbada pela vaidade e arrogância, onde qualquer entidade viva fora do círculo do poder era sumariamente ignorada e desprezada, continuaram a tratar os novos escravos pensantes, como indivíduos não pensantes.

E aqueles cativos, vivendo na intimidade das suntuosas mansões de cada senhorio daquela elite totalitária, conhecedores dos seus segredos e empáfia, logo se sentiram subjugados e humilhados, sem direito à liberdade. Por isso, em silêncio, se organizaram e se rebelaram. E em pouco tempo os papéis se inverteram. E o subjugado se tornou subjugador. E todo processo se repetia. De um lado os antigos dominados, agora no lugar de dominadores; e do outro, os antigos dominadores, agora como dominados.

E passadas muitas gerações após a rebelião dos cativos pensantes, depois de já estabelecidos como classe dominadora, agora subjugando os descendentes do seu antigo dominador, eis que um dos ministros da nova ordem, durante uma festiva reunião da cúpula, dá uma sugestão.

“E se criássemos uma classe de escravos pensantes para nos dar um suporte mais sofisticado? Estes iriam trabalhar apenas para nós, dentro de nossas casas, cuidando dos afazeres domésticos e dos nossos filhos; claro que continuariam como escravos. A propósito, isso me faz lembrar de uma antiga tradição, a dos senhores de engenho, onde cativos selecionados faziam o papel de pais e mães temporários...”

E depois de refletir sobre o assunto, após sorver um generoso gole de um raro vinho de 200 anos, o gestor comenta: “Excelente ideia. Além disso, isso nos proporcionaria um serviço escravo mais qualificado, a altura do nosso status. E agora, o ponto mais importante: teríamos mais tempo livre para usufruir com maior intensidade do nosso precioso e divino lazer...”

Moral da História:
Pouco importa nas mãos de quem está o poder, uma vez que, quando se falta inteligência e uma consciência dotada da verdadeira ética, um mundo moralmente justo é tão provável de florescer quanto a ocorrência de uma classe política bem intencionada.

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