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Por que os Pensamentos Negativos Crônicos estão tão Presentes em nosso Dia a Dia?

Ganho é toda conquista imaterial positiva que é acrescentada à nossa experiência de vida, e não todas essas outras, que são jogadas dentro do nosso depósito de tralhas e bugigangas com o propósito apenas de acumular poeira e lixo consciencial.
"A boa obra contempla um projeto sólido e viável, organização, bons materiais e principalmente a determinação e qualidade do perfil ético do obreiro..."
Por que os Pensamentos Negativos Crônicos estão tão Presentes em nosso Dia a Dia?

Numa tragédia social, enquanto os prejuízos materiais recebem uma maior atenção, raramente se enfatiza o valor das perdas em relação à qualidade de vida...

Examinando as raízes da Questão...

Quando as religiões foram criadas pelos homens, o medo foi o principal baluarte que o porta-bandeira promotor da boa nova carregava com orgulho à frente. Sempre é bom lembrar que as religiões organizadas não foram oficialmente criadas por nenhum dos ícones sobre as quais as mesmas se ergueram. E, de fato, pelo que sabemos, nenhum desses personagens era favorável ao culto ritualístico ou idolatria, nos moldes das sólidas corporações eufemisticamente chamadas Doutrinas Reformadoras ou Religiões, como hoje as conhecemos.

E os primeiros ministros religiosos, como forma de controlar seus indisciplinados e supersticiosos trogloditas, que, evolutivamente, ao contrário dos demais animais irracionais tinham acabado de ganhar um cérebro capaz de pensar racionalmente, instituíram que a reverência ao medo seria a mais eficaz forma de domesticá-los.

Por isso que a presença de deuses implacáveis, entidades extrafísicas, cuja única função existencial aparentemente era bisbilhotar a intimidade daqueles homens primitivos para depois castigá-los, tornou-se uma pedagogia imprescindível. Ocorre que eles viviam um grande conflito: Estavam em dúvida se continuariam como animais irracionais ou se viravam gente. E embora brutos, sabiam obedecer, pelo menos diante do chicote dos mais poderosos, e sempre por medo de retaliações.

E estranhamente as tais divindades não pensavam noutra coisa senão em também colocá-los no quartinho dos castigos, caso desobedecessem às regras recém criadas para organizar o santo ofício. Entretanto, no caso de submissão cega, pelo menos em promessa, uma compensação exemplar existia como possibilidade.

Mas ainda assim, para que aquele comportamento idólatra se firmasse como tradição, mostrar o que deveriam temer se tornou o magistério de todos os catequistas de plantão. Daí o fortalecimento da doutrina do medo como modelo didático, eixo e principal engrenagem da espiritualidade religiosa ortodoxa que chegou até nossos dias.

Ali não se aprendia sobre a busca espiritual, mas, ao invés disso, como se tornar medroso, e cada vez mais cativo dos grilhões da superstição, assim como da ideologia para domesticar bárbaros. Essa pedagogia do medo, além de nunca ter a intenção de esclarecer suas questões existenciais mais simples, cuidava para que aquele indivíduo perdesse de vez o natural dom da dúvida, impedindo cada vez mais o acesso voluntário à informação e ao esclarecimento.

Assim nascia o estrabismo mental, onde pecado era duvidar, enquanto que aceitar os mais absurdos comportamentos e pensamentos, não. Imagine duvidar que a terra não fosse o centro do universo; ou ainda que os eclesiásticos ou gurus não fossem as autoridades encarregadas, pelos próprios deuses, de representá-los sobre a terra?

Por que será que é tão difícil desfazer um velho equívoco e tão fácil criar um novo?

Certa vez um senhor, já cansado de tanto explicar em vão para os filhos capetas do vizinho que sua garagem de tralhas era um local proibido para brincadeiras, teve uma ideia. Primeiro contou a história de uma barata gigante; uma entidade que vivia em ambientes como aquele. Impressionados, os pirralhos traquinos foram para casa dormir. Mas, como era de se esperar, no dia seguinte já não se lembravam do bizarro conto. E nesse dia, fingindo que saíra para o trabalho, o senhor se escondeu dentro da garagem, e vestido com uma fantasia de barata gigante, ficou à espera do óbvio: a invasão dos indisciplinados. E quando eles viram aquele monstro enorme vindo em sua direção, nunca mais retornaram ao local.

A pedagogia do medo se utilizava dos mesmos princípios: primeiro eram as histórias, os contos, as fábulas e parábolas, toda uma literatura oral e escrita, que fora criada especialmente para fertilizar o terreno onde uma mentalidade adubada pelo temor seria cultivada.

Depois viriam os testemunhos, normalmente a palavra das autoridades eclesiásticas, ou nobres, das quais era proibido duvidar, assim como ainda é nos dias atuais. E, como medida extrema, os exemplos públicos de castigos para os infratores ou discordantes, completava o eficiente processo didático.

Desse modo, um mundo dominado pelo terror e caos precisava ser criado, e o mais importante, conservado e eventualmente aperfeiçoado. Era até uma forma lógica de promover e consolidar aquele modelo opressor, assim como justificar a existência dos complacentes deuses protetores dos justos, mas implacáveis contra os injustos.

E mostrar apenas o lado negativo desse mundo se tornou uma cruzada santa para esses ministros religiosos, e também dos nobres dominantes, assim como de todas as classes políticas interessadas em se fixar no poder. E o medo se tornou a mais eficaz forma de controle daquele rebanho de ovelhas impedidas de pensar por força da preguiça e da acomodação. E a doutrina daqueles senhores, quer dizer, o sistema educacional daqueles dias, este, aparentemente prosperou e continua a ser aplicado ainda hoje.

Por isso a negatividade se tornou uma liturgia, um verdadeiro princípio existencial. E como efeito, transformou-se no alicerce estrutural da sociedade como hoje a conhecemos. Daí o costume social moderno de enfatizar apenas as coisas negativas. E o pior de tudo, por desconhecer outro modo de vida, as tragédias se tornaram diversão, um componente natural dentro de nossa rotina, tradição e cultura.

E ali, falar que existe a possibilidade de ser feliz sem cultuar nada disso, até parece coisa de herege. Afirmar que podemos ser felizes sem as muletas das corporações religiosas, dos gurus e homens santos, dos sábios, políticos, entidades filantrópicas ou ideológicas, ou de qualquer outra coisa que faça o papel de arrimo psicológico, pode ser classificado como uma psicopatologia infecciosa, digna de degredo perpétuo nas masmorras da ignorância.

Será que somos capazes de enxergar com lucidez tudo isso?

Parece que voltamos à idade das trevas, seguindo um padrão de conduta, onde, um sujeito disposto a pensar por conta própria, a trilhar seu caminho pessoal a partir do autoconhecimento e guiado pela dúvida sensata, será considerado inimigo do estado.

E do outro lado, ser burro e dotado do mais elevado grau de estupidez, e o mais importante, publicamente praticar atos insanos patrocinado pela ignorância e a absoluta falta de bom senso, tudo isso pode ser considerado exemplo de virtude, integridade e inteligência.

Aparentemente, desde aqueles tempos, as únicas mudanças que ocorreram, quando nos comparamos com nossos ancestrais, foi na indumentária e na sofisticação para guerrear e destruir o oponente à distância. Entretanto, quando voltamos nossos olhos para o indivíduo, este, psicologicamente, não dá indícios de que tenha dado um passo à frente sequer.

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