Dicas para Autorreciclagem

Como Conhecer a Si Mesmo, o mais importante estado da Arte Existencial

Não é a quantidade de Conhecimento que fará a diferença, e sim a qualidade...
"Se temos a intenção de descobrir tudo aquilo que somos, primeiro precisamos examinar tudo aquilo que não somos..."
Como Conhecer a Si Mesmo, o mais importante estado da Arte Existencial

Imperfeito não é um estado que se presta a ser corrigido, mas, antes disso, uma evidência clara de que existimos apenas para nos transformar em algo mais...

O que significa Conhecer a Si Mesmo, e o mais importante, qual poderia ser a verdadeira utilidade dessa qualificação?

Em primeiro lugar, como benefício imediato, de posse desse conhecimento estaríamos aptos, qualificados, a promover os ajustes, reformar, modificar ou descartar os nossos traços fracos e, na mesma empreitada, potencializar, maximizar, os pontos fortes ou virtudes, atributos que são partes integrantes da nossa atual personalidade.

Caso fosse possível a conquista desse objetivo, uma melhor qualidade de vida seria o resultado mais óbvio a ser considerado. Não poderia ser diferente, uma vez que os ganhos seriam evidentes a partir da eliminação da maioria dos nossos conflitos pessoais, assim como da erradicação de grande parte dos fantasmas mentais que teimam em transformar nossos dias, em verdadeiras cruzadas no tenebroso campo de batalha das contradições humanas.

O natural em nossa caminhada diária seria a estabilidade mental, sem oscilações emocionais negativas, e salvo as perturbações dos imprevisíveis problemas somáticos ou transtornos involuntários do meio social, uma sensação de bem estar e alegria motivacional deveria nos acompanhar desde o acordar até o recolhimento ao fim do dia. Por que não existe tal condição, eis a patologia na qual precisamos trabalhar. E isso só será possível estudando, investigando as causas e contingências, avaliando tudo aquilo que não nos serve, para enfim, promovermos o respectivo descarte ou reciclagem.

Mas, como fazer isso? Ou melhor, por onde começar? Afinal de contas, como podemos conhecer a nós mesmos?

As memórias, nossa experiencia de vida teórica e prática, todo repositório de lembranças da vida presente, eis a base dos nossos pensamentos e padrão comportamental. E a lógica é bastante simples: Pensar é um exercício de memória; sem memórias não há pensamentos.

Somos nossas experiências, todo nosso aprendizado, aquilo que assimilamos e acumulamos desde a infância até os dias atuais. Nossas contradições, medos, crenças, empatias, inveja, cobiça, angústias e nossa postura diante da vida. Enfim, todas as nuances, variações e contingências de nossa personalidade, está tudo lá.

E nosso maior problema está na multiplicidade de personalidades que, ao longo da vida, mesclamos em nós mesmos. Somos muitos fragmentos de muitas outras personalidades e nenhuma delas ao mesmo tempo. Alternamos comportamentos ao longo dos estágios etários do nosso desenvolvimento somático e psicológico. E também no decorrer de um só dia incorporamos muitos personagens, sem, entretanto, nos fixarmos em nenhum deles.

E há a entidade que diz: “Preciso conhecer a mim mesmo”. Seria ela uma espécie de observador virtual vivendo fora do indivíduo, ou ambos, personagem e indivíduo, são uma coisa só?

Sim, porque ao afirmar que deseja se conhecer, isso sugere que está do lado de fora observando o alvo de sua curiosidade. Quem irá conhecer o que? Existiria de fato esse observador que se imagina separado de si mesmo?

Quando se refere ao querer conhecer-se isso envolve duas questões. De quem trata a entidade que diz: "Tenho que me conhecer?", e quem existirá separado dela para poder ser conhecido? Desse modo isso torna-se uma questão verdadeiramente absurda. Não seria então esse observador a própria coisa observada?

Conhecer nossos limites poderá não ser um empreendimento tão simples, mas tudo deve começar por aí.

No entanto, ao final de tudo, o que mais importa é conhecermos, senão a todos, a maioria dos traços de nossa personalidade que julgamos relevantes, sejam eles negativos ou positivos. E todas essas coisas estão contidas dentro do universo de comportamentos, que são as frações do personagem com o qual, nesse momento, nos identificamos.

E para aprender sobre isso precisamos de uma mente imparcial, flexível, minimamente alienada, não contaminada por crenças, vícios e costumes doutrinários, ideológicos, políticos e sociais. Uma mente emancipada dos idealismos que ocupam nosso universo das tradições, e que ainda regem e controlam, induzem, condicionam, direcionam nossas aspirações e objetivos de vida.

Por onde começar? Duvidando de tudo. Para que isso seja possível, os dogmas e rituais, o legado até então intocável das tradições religiosas ou doutrinárias, os medos, tudo isso, precisa ser colocado na pauta de nossas dúvidas. É preciso separar o inútil do útil. Sem um senso crítico imparcial não teremos chance alguma de nos conhecer, tampouco de mudar. Mudar é a palavra chave. Mudar para melhor, descartando os entulhos psicológicos, reciclando o que pode ser reciclado, e qualificando tudo que merece ser potencializado.

E qual o caminho para isso? Podemos começar fazendo uma relação por escrito dos nossos pontos fracos e fortes. Isso requer a identificação dos traços relevantes de nossa personalidade. Mas, nesse caso, não importa a qualidade do seu status, se de natureza negativa ou positiva. De posse desse material, o que conseguiremos com algum estudo, na verdade uma autoavaliação, vamos ter em mãos os recursos básicos necessários para empreendermos a viagem do autoconhecimento.

Quais são os nossos defeitos aparentes, aqueles que percebemos, sem ressalvas, sem desculpas ou sem eufemismos. E tudo isso de um modo crítico, objetivo, prático e sem rodeios; de forma inquestionável, indiscutível, irrefutável. Devemos começar por aí. Se tivermos êxito nesse primeiro passo, podemos avançar e investigar as falhas não evidentes. Mas, vamos com calma.

Em contrapartida devemos estudar, investigar, conhecer, quais são os nossos traços fortes ou virtudes. Estas são as qualidades ou atributos de nossa personalidade que farão a diferença. São os traços produtivos, profícuos, positivos; tudo aquilo que merece ser atualizado, reciclado, redimensionado, requalificado ou amplificado.

Por isso a observação do nosso modo de agir rotineiramente, a exemplo da nossa relação com medos, aspirações e pessoas, torna-se fundamental. Mas não será uma tarefa fácil. Trata-se de uma luta contra nosso próprio ego, que teimará em não reconhecer de imediato seus pontos fracos ou falhas. E também negará os vícios, manias, autocorrupções, assim como os traços desabonadores do caráter, itens que fazem parte do seu imenso repertório de hábitos patológicos.

E nossa maior dificuldade será a luta contra nós mesmos. Por isso uma mente flexível e imparcial, centrada no princípio da dúvida, alheia aos pragmatismos seculares, e disposta a promover em si mesma uma reforma, é coisa imprescindível.

Só uma mente com essa qualidade poderá olhar de forma não fragmentária, não se focando apenas no detalhe. Deixar de lado o detalhe significa dar-se conta do conjunto. Afinal de contas, é o conjunto que interessa, e não apenas a pequena parte que está nele contida.


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