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A Questão da Disciplina Dentro e Fora de Casa

Educar é a arte de não Cometer Erros a partir dos Acertos...
"Educação não é a simples transferência do conteúdo de um livro para o cérebro do educando..."
A Questão da Disciplina Dentro e Fora de Casa

Será que que toda inutilidade que sabemos para nada servir, isso também precisamos ensinar para nossas crianças?

Introdução...

Se o conhecimento conceitual adquirido se presta a ampliar nossa base teórica sobre todas as coisas, o empírico qualifica nosso acervo experimental, e ambos se complementam quando o assunto é o incremento do nosso repertório cognitivo.

Por isso agora somos capazes de interpretar a leitura dos nossos sentidos. E desse ponto em diante fica cada vez mais claro entender como interagimos com objetos, sensações, emoções e pessoas. Isso é uma resposta racional ao animal irracional que habita dentro de cada um de nós.

Seria de grande utilidade que aprendêssemos sobre nós mesmos antes de tentar ensinar alguma coisa aos nossos filhos e alunos. No entanto, fazê-los repetir de maneira involuntária aquilo que também já repetimos, consensualmente, essa parece ser a regra pedagógica em vigor.

Só um leigo ou ignorante poderia categorizar esse processo como educação. De fato, trata-se de um sistema de condicionamento mecanizado, o mesmo ao qual já fomos submetidos antes. É desse modo que as antigas condutas ou costumes serão integrados ao acervo comportamental dos nossos descendentes, formando todo seu perfil psicológico. E desse repositório de procedimentos milenares, extraímos tudo aquilo que ajuda a formar nossa personalidade, os caracteres que nos identifica como indivíduos. São informações que apesar de não educar, ajuda o indivíduo a escolher uma profissão, mesmo que não seja sua vocação; ou ainda a torná-lo um exímio imitador de gestos, expressões e posturas alheias.

Poderíamos começar do básico, examinando nossos medos. O que são eles, e por que, a despeito da nossa especialização que atinge o mais elevado nível tecnológico, ainda não fomos capazes de superá-los? Por que, essa entidade abstrata conhecida como medo persiste em nos atormentar, apesar de todo poderio intelectual e técnico acumulado pela civilização humana até agora?

Não começamos hoje. Na verdade representamos o resultado de milênios de cultura e tradição. Somos herdeiros do poder das autoridades doutrinárias, dos reformadores, das centenas de homens de "boa vontade", profetas e eruditos que já povoaram nosso planeta em todos os tempos. Nossos problemas, ao contrário de nós, não são coisas novas. Somos recentes sobre a terra, nossos problemas não o são.

Arrastam-se como pragas virais há milhares de anos, resistindo às mudanças e guerras sociais, e a despeito do progresso material alcançado, psicologicamente parece que não progredimos muita coisa.

Ainda somos tão medrosos quanto nossos ancestrais trogloditas. E apesar cultos e esclarecidos, ainda somos reféns dos nossos estados emocionais mais primitivos. Nunca aprendemos a lidar com isso, e considerando a abordagem educacional tradicional, não há solução à vista. E quanto mais avançamos na linha do tempo, mais patológico se torna nosso padrão de comportamento. Por que as instituições autodenominadas educacionais insistem em manter seus modelos e metodologias estúpidas, cujo foco nunca foi construir um homem sensato e consciente, isso representa um dos maiores mistérios da humanidade.

Não Há o que discutir, se nossa casa não se torna um exemplo edificante para nossos filhos, caberá ao mundo patológico que existe lá fora preencher essa lacuna...

Observando com imparcialidade nossas escolas, fica claro que a manutenção e potencialização do homem conflituoso e infeliz é seu principal objetivo. E isso inclui a continuidade do homem medroso, violento e cruel. Ensinar modelos éticos pautados na erradicação de conflitos e respeito mútuo, para essa indústria educacional, parece ter a mesma conformação de um ato herético.

Observando a ordem interna de nossas casas, fica claro que quando buscamos bom senso lá fora, evidencia-se o fato de que algo está errado. Na maioria das vezes, os melhores amigos das crianças e dos jovens não são seus pais, mas pessoas de fora. Esse comportamento é quase uma regra geral, um costume já incorporado às novas tradições.

Como podemos construir nosso filho ou aluno à imagem do bom senso se as influências de todas as partes, a nosso ver, teimam em fazer o contrário? Será que o exemplo não começa dentro de casa? Afinal de contas, esse é o ponto de origem de qualquer criança. É seu ponto de partida e de chegada ao final do dia. Trata-se de sua mesologia e pedagogia condicionadora mais intimista.

Ao caminharmos sobre uma linha reta, onde é possível recuar ou avançar, qualquer que seja a direção escolhida, ainda assim estará dentro dos seus limites. É sem dúvida uma linha inflexível. Ocorre que ela representa exatamente nosso atual status como indivíduos; nossa inteira formação psicológica e modo de avaliar coisas e pessoas. Ali está arquivado todo repertório de informações com as quais julgamos ou decidimos, e também o perfil completo do personagem que nos dá identidade, que pensa e opina de uma forma que considera exclusiva e exemplar.

Essa linha inflexível representa o tempo. O tempo necessário para a assimilação das ideias do mundo e construção do nosso modelo comportamental. Não são ideias novas, uma vez que o mundo é velho, assim como todas suas tradições e pensamentos. E logo esse novo indivíduo, que ora representamos, se tornará tão velho quanto a mentalidade desse mundo. E como uma formidável esponja assumirá todos os seus problemas, distorções, angústias, conflitos e medos.

As influências estão disponíveis para todos. E cada cultura contribui com uma parte; e cada população absorve a cota que lhe pertence. E todas as culturas juntas, como fragmentos, formam o conhecimento do mundo, que também é o seu pensamento. Trata-se de um acervo cultural disponibilizado para todos, e possível de ser assimilado ou absorvido por qualquer um no papel de inquilino ou hóspede, já que são todos residentes temporários.

Isso inclui o conhecimento material e o emocional, assim como os problemas criados a partir de suas soluções sempre incompletas. Somos o resultado de tudo isso, e sensato seria fazer uma inquisição dos motivos pelos quais as soluções são sempre parciais, e por que ainda há o problema do medo, das contradições e do sofrimento.

E passados séculos de tentativas, de planos excêntricos e frustrados, de repressão violenta e incontáveis reformas sociais, ideológicas e religiosas com a intenção de colocar o homem em ordem ou alinhar sua conduta de acordo com algum protocolo social, resta-nos questionar se o conteúdo intelectual do homem com toda sua diversidade e erudição é mesmo capaz de promover essa transformação.

Podemos continuar a esperar pela escola, ou ainda por novas reformas sociais, ideológicas, políticas ou religiosas. Podemos também esperar que o tempo resolva a questão, a despeito dos milhares de anos já passados e das várias civilizações com suas fórmulas e doutrinas fracassadas. E se nada disso logrou êxito, deveríamos considerar que pode haver um erro nesse processo.

Também podemos começar uma reforma em casa, um ajuste interno, uma iniciativa que não dependa mais de tais influências; das opiniões de quem quer que seja. Será um passo gigantesco, uma vez que não nos guiaremos mais por ninguém; por nenhuma tradição, promessa, mito ou propaganda.

Será um aprendizado novo, a partir de nós mesmos e da prática com nossa família e amigos. Tudo será guiado pelos atributos do bom senso e da ética, cláusulas cujo significado e utilidade teremos que descobrir por conta própria. Ocorrerá a partir do contato intimo com nossos filhos, amigos e cônjuges.

Aprenderemos enquanto vivenciamos e sentimos. Aprenderemos enquanto sofremos com nossos problemas, conflitos, carências e falhas pessoais; ou enquanto nos empenhamos em resolver cada questão pendente, as mesmas cujas soluções sempre deliberamos para os outros. Talvez, a partir desse empreendimento pioneiro, poderá nascer um novo homem, com uma nova inteligência, pelo menos dentro de nossa casa.

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