Dicas para Autorreciclagem

O Mito dos Contos de Fadas...

Um dos maiores equívocos da pedagogia tradicional é imaginar que a criação de um mundo de fantasias é capaz de preparar a criança para o inevitável confronto com a realidade...
"Acredita-se que ao adquirir conhecimento, o homem, por reflexo, também se torna sábio. Fazendo uma analogia, seria o mesmo que admitir que todo tesoureiro é rico..."
O Mito dos Contos de Fadas

Se na natureza o ato de aprender a partir das adversidades é sinônimo de qualificação, entre nós humanos, qualificar-se significa ser capaz de evitá-las...

Avaliando a Questão...

Por que o mundo das crianças está situado numa espécie de reino ou bioma que fica situado numa região imaginária o mais distante possível da nossa realidade, um espaço repleto de fantasias e dramas míticos, cujos inquilinos são entidades que em nada se assemelham a pessoas, não temos como saber. Mas, sabemos que é assim. É a prática comum desde incontáveis gerações. É a conduta aceita, autenticada e legitimada pela pedagogia de nossa civilização e homologada pelos especialistas em educação, cientistas sociais, apóstolos ideológicos, ministros e gurus sectários, como um modelo cognitivo perfeito.

Trata-se de um mundo utópico, de faz de contas, onde o bizarro é coisa inexistente e os problemas e dilemas humanos estão ausentes; onde os sonhos se concretizam sem depender do esforço pessoal; onde apenas as coisas que dão certo são dignas de referência; onde o mal é retratado como uma palavra vulgar, sem um exemplo capaz de ilustrar seu verdadeiro significado. E naquele epicentro ou reduto onde a realidade é totalmente descartada, o idealismo e a fantasia dos chamados contos de fadas predomina.

Os contos de fadas, como nós os conhecemos, ganharam status e importância na idade média ou das trevas, na mesma época da repressão religiosa e injustiças sociais praticadas pelos governantes déspotas. Embora desconheçamos sua origem, naquela época ganharam a forma que chega íntegra aos nossos dias.

E tudo isso graças aos devaneios de alguns escritores, na ânsia de entreter um público carente de sonhos, gente sufocada, encarcerada, esmagada pela tirania dos costumes daqueles tempos, e sem uma ideia clara do significado do conceito de “luz no fim do túnel”. E desde o princípio sempre foi uma deliberada concepção surreal, uma fuga à realidade opressora; uma fantasia que logo, no imaginário de cada um, se tornaria tão real quanto o são as coisas concretas.

E eis a base de nossa pedagogia civilizada. E só resta à criança, à revelia da sua vontade, absorver essa tradição. Vivemos em um mundo de constantes desafios, imersos em disputas e conflitos sem fim, onde os problemas e as múltiplas atividades do nosso dia a dia preenchem todas as nossas horas de vigília. E, por trás de tudo isso, há a entidade humana, sem um concreto objetivo de vida à sua frente.

A verdade é que não estamos no controle da situação, somos conduzidos pelas circunstâncias. E dentro desse status, onde nossa vontade ou querer são meros espectadores passivos, todos nossos esforços estão concentrados na contínua necessidade de solucionar problemas. Resolver problemas, grandes ou pequenos, este é o nosso atual objetivo de vida. Não criamos essa condição, trata-se de uma herança, tudo foi concebido muito antes de nossa existência.

A Qualificação cognitiva da Criança sempre começa e termina dentro de casa...

Quando insinuamos aos nossos filhos a existência de um mundo imaginário – para ele isso é coisa real – onde todos, a partir da evocação da vontade, são capazes de vivenciar qualquer tipo de sonho possível de ser criado pelo pensamento, estamos também afirmando que a aventura humana com seus conflitos, dramas e frustrações são coisas inexistentes. E nas entrelinhas, estamos sugerindo que o esforço pessoal para se atingir objetivos é uma prerrogativa desnecessária.

A adequada qualificação para enfrentarmos um mundo de conflitos e dramas cada vez mais complexos exige, de cada um, o dobro de esforço do qual precisaram nossos ancestrais. Soluções nunca são respostas espontâneas ou involuntárias, e sempre demandam disciplina, organização, qualificação, e a aplicação de tremendo esforço pessoal como resposta. E diante de problemas milenares que se perpetuam através de gerações, o que se espera do novo homem é uma ação ou abordagem igualmente inovadora.

Mas isso se torna impossível quando continuamos sob jugo de um modelo acadêmico tirado dos contos de fada, onde um homem passivo sonha com as soluções que virão de fora, sob patrocínio de alguma entidade cósmica, a partir de um condão mágico sem demandar esforço algum de sua parte.

E eis o grande problema da criança educada sob a égide dos contos de fada. Ocorre que dentro do seu imaginário mais profundo, aquele ideário primário, embora depois de crescida pareça um devaneio onírico, vai permanecer vivo para sempre. E com o tempo será substituído pela força de suas crenças pessoais, especialmente aquelas de cunho religioso, cuja proposta é assegurar, de fato, a existência daquele mundo repleto de coisas maravilhosas e indescritíveis júbilos, uma condição especialmente concebida para atender aos seus desejos, ou compensar as frustrações adquiridas a partir de sua passividade.

Mas nossas crianças, depois de crescidas, irão enfrentar problemas concretos, questões sérias que ainda não conseguimos erradicar, e conhecer tudo isso desde cedo talvez fosse o caminho mais lógico e capaz de capacitá-las para lidar com essa trágica realidade. Cientes do fato desde cedo teriam mais elementos para decidir pela continuidade ou não desse caos, já que nós, por incompetência ou acomodação, desde tarde, nunca paramos para fazer essa escolha.

Ensinar para a vida começa através do inteligente e edificante esclarecimento, quando a criança já é capaz de assimilar um mínimo; quando o significado do viver é colocado sobre a mesa. E isso inclui mostrar as facetas do drama humano, sem rodeios ou retoques. Isso inclui expor seus conflitos e as distorções ainda pendentes de soluções, enfim, o imenso e complexo problema no qual se tornou a aventura existencial do homem.

Para que uma criança seja capaz de resolver seus conflitos do futuro, que são os nossos atuais, desde o princípio, precisarão aprender a conviver com eles. Se fossemos inteligentes e sensatos deveríamos falar com elas sobre os conflitos mal resolvidos, enumerando também suas causas, nossas causas, fraquezas e falhas pessoais. Tudo isso são coisas que deveriam aprender conosco, na segurança da nossa companhia, proteção e carinho. E isso também contempla os aspectos bizarros, os principais ingredientes ativos de nossa realidade, a exemplo do ódio, idolatria, fanatismo, tomando o cuidado de nunca nos esquecermos de ilustrar o significado de coisas edificantes como a empatia, ética, tolerância e compaixão.

Ignorar essas coisas é desprezar uma oportunidade ímpar de potencializar sua cognição. Sem nosso aporte, onde as crianças irão buscar esse esclarecimento? Entrarão no mundo como aqueles indivíduos que vão à mata sem repelente apenas por ignorar a existência de mosquitos nocivos, desavisadas, vulneráveis, suscetíveis de cometer os mesmos erros que também um dia já cometemos. E o mais importante, qual será a qualidade da fonte que se encarregará de preencher suas cabeças com algum esclarecimento e cognição de valor? Veja bem, atualmente, o homem vive enclausurado numa cadeia de conflitos aparentemente sem solução exatamente porque um dia, seus antecessores, confiaram a terceiros a tarefa dessa instrução.

O Que significa Educar para a Vida?

Educar para a vida não seria ensinar como sair dessa complexa confusão que, embora não seja de nossa autoria, atuamos como fiéis multiplicadores? Será que podemos viver sem conflitos e sem medos? Teremos, de fato, tal capacidade?

O fato é que, mesmo dotados desse potencial, ainda não fomos capazes de colocá-lo em prática. Se nos falta qualificação para mudar um mínimo, de que forma essa transformação irá ocorrer no mundo dos nossos filhos, uma vez que, sem direito a escolha, herdarão na íntegra nossa atual mentalidade patológica, inclusive nossa incontestável incompetência em resolver os mais triviais conflitos existentes nos interrelacionamentos?

Acordar com lucidez significa simplesmente parar de sonhar. Parar de acreditar que as fadas virão do seu reino, numa missão especial, com o único propósito de transformar, com seu encantamento, varinha de condão e passes mágicos, todo desarranjo criado por nós. Se acordarmos a tempo ainda há uma chance real de mudar. Despertos, temos a oportunidade de às nossas crianças como construir. Na condição de não despertos, nosso modelo cognitivo é a destruição.

As crianças precisam conhecer um pouco sobre a vida que terão pela frente. É fundamental que conheçam seus próprios pontos fracos, suas possíveis falhas e limites. Precisam saber que suas mães, periodicamente, quando sofrem bruscas mudanças em seu estado humoral, estão a passar por processos orgânicos naturais, que a moderna ciência chamou de Tensão Pré-menstrual.

Trata-se de um gesto simples capaz de evitar inúmeros conflitos internos com seus filhos, que por não compreenderem a brusca mudança de comportamento da pobre matriarca, logo tiram conclusões equivocadas. E na maioria das vezes irão considerar aquele estado de impaciência e intolerância como confronto pessoal, o que tende a afetar todo equilíbrio e harmonia dentro do grupo familiar.

As crianças precisam saber desde cedo o que significa ficar velho, afinal de contas, isso também faz parte do seu provável futuro. Sendo a velhice um processo natural e fisiológico, involuntário e irreversível, elas não poderão escolher e mudar seus destinos. Então, por que esconder delas essa condição como se fora uma espécie de evento bizarro, ou praga virulenta?

Não seria uma forma lógica e inteligente de criar entre jovens e idosos um maior vínculo de empatia e respeito? Isso decerto iria motivar uma maior aproximação entre os diferentes grupos etários, revertendo a óbvia indiferença desses mesmos jovens em relação à velhice, que é a atual doutrina de nossa civilização. E o mais importante, funcionaria também como um alerta para o inevitável estágio etário que aguarda a maioria deles.

Educar para a vida contempla o lado hipotético seguido do imprescindível exemplo prático. É o teatro da vida, onde o conceito se transforma em conteúdo, capaz de ser experienciado. Para que isso ocorra, o princípio da dúvida deve ser cultivado e depois introduzido na grade do repertório cognitivo de cada um, e tudo isso desde as primeiras incursões escolares.

Por fim...

Lembre-se, a lavagem cerebral do mundo, com suas distorções e absurdos, começa cada vez mais cedo. Nossos filhos precisam demonstrar desde cedo uma predisposição natural ao questionamento. Se os pontos positivos dos seus temperamentos não são regados e potencializados, e se não estão livres para duvidar e investigar, jamais terão a coragem para mudar efetuar as mudanças necessárias. Na posição de passivos, a exemplo de nós, então, o trágico destino de todos já está irremediavelmente selado.

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