Dicas para Autorreciclagem

O Que Podemos Aprender com os Erros?

Os erros não intencionais, quando bem compreendidos, depois de descartados, tornam-se os alicerces sobre os quais nossos melhores acertos são construídos...
"Ao descobrir que um atalho nem sempre serve para encurtar seu caminho, descobre-se também que o problema não está na distância entre os dois pontos, e sim na qualidade do destino que se pretende alcançar..."
O Que Podemos Aprender com os Erros?

Acertar a partir dos erros é sabedoria. Errar a partir de acertos, burrice...

Examinando a raíz primária da Questão...

Para nós, um acerto é toda aquela ação cuja proposta inicial tenha como motivo uma promessa de ganho ou beneficio e cujo desfecho seja capaz de nos favorecer de forma indireta ou direta.

E embora os benefícios a terceiros possam ocorrer, serão considerados efeitos secundários ou inesperados. Poderão ainda servir como justificativa mascarada de assistencialismo. E nesse último caso poderão ser usados para esconder a verdadeira intenção do autor que, quase como regra geral, é o autofavorecimento.

No entanto, alcançar esse nível de lucidez em relação a nossa verdadeira intenção quando nos propomos a praticar aquele gesto que chamamos de boa ação, não é uma coisa comum. Ocorre que fomos condicionados desde a infância a adotar a postura universal do “dar para receber”. Trata-se de um preceito que está até nos livros sacros, nas doutrinas sectárias, e faz parte do repertório consciencial da maioria das pessoas.

Condicionamento é sempre uma condição involuntária. No papel de crianças não temos arbítrio consciente para escolher o modelo de instrução que desfila diante dos nossos olhos e entra pelos nossos ouvidos. Depois de crescidos, agora no papel de adultos, diante de todas as variáveis que configuram nosso mundo, com um mínimo de atenção, já somos capazes de perceber esse fato. Mas, perceber é uma coisa; reconhecer como um dos nossos mais importantes gargalos existenciais, outra.

Se um homem no papel de uma figura ilustre foi considerado um notável sábio no passado e no presente nos propomos a repetir seus ensinamentos, o fato dele ignorar que estava equivocado poderia servir de justificativa para que também replicássemos seus erros?

Aprendendo a enxergar a coisa com olhar imparcial...

Todo aprendiz deve contemplar sempre os dois aspectos existentes por trás de cada efeito, assim como os dois que estão por trás de cada causa. Uma causa é sempre um motivo que conduz a um resultado. E por trás de um resultado teremos sempre, pelo menos, um desdobramento visível e outro oculto. Há o efeito imediato capaz de ser mensurado por ser perceptível e outro que poderá ocorrer longe dos nossos olhos, completamente fora do escopo dos nossos planos iniciais.

É como o efeito esperado de uma medicação. Não importa qual seja a expectativa do paciente em relação ao seu plano de atuação ou ação, e, no entanto, durante esse processo, ele irá se desdobrar em pelo menos dois resultados: Um esperado e outro não. Chamamos a isso de efeito colateral ou reação adversa. É como na construção de uma casa: perde-se o espaço livre e se ganha uma moradia.

Um erro é o resultado de uma tentativa de acerto. E existe o erro intencional, e também aquele involuntário. O segundo pode ocorrer por falta de habilidade, inexperiência, imaturidade ou mesmo por ignorância. Por sua vez, a ignorância pode ser involuntária ou deliberada.

E mesmo o erro intencional, onde o autor nada aprende, pode vir a servir como fonte de referência ou ensinamento para outro indivíduo, desde que o exemplo seja usado como instrumento cognitivo, e sempre com a intenção de ilustrar o seu óbvio efeito negativo. É o tipo de instrução que apesar de servir como modelo didático não precisa ser repetido.

O erro que faculta o autoaprendizado é sempre aquele de natureza não voluntária, ou ostensiva. No erro intencional, o autor não pode se beneficiar, pelo simples fato de que ele não considera aquele ato ou postura como um erro.

Ele até conhece as consequências, está bem informado sobre a natureza do ato, sabe que não está de acordo com as normas sociais e éticas daquela mesologia, mas é incapaz de reconhecer a ilicitude do seu desdobramento. Seu Ego é doente, e além de indiferente à dor alheia, tende a se colocar como vítima. Assim, não reconhecendo aquilo como uma falha pessoal, segundo seu ponto de vista, não há o que corrigir.

Uma tentativa de acerto tem sempre um resultado semelhante ao da remoção da borda pontiaguda de uma pedra bruta que foi polida. Trata-se de mais uma aresta que foi descartada; um menos que significa mais.

E se um erro tende a evoluir para um acerto, um acerto não pode servir de justificativa para um erro. Um erro a partir de um acerto é semelhante ao efeito colateral de uma medicação capaz de causar mais danos que benefícios. Trata-se então de um acerto aparente, portanto, um erro ainda em processo de ajuste. E quando não se trata um erro como um excesso, cada vez mais a solução do problema se distancia. O excesso é a sobra ou a coisa inútil que impede o bom uso ou funcionamento adequado daquilo que poderia se tornar útil.

Quando se considera o erro como um caminho para o acerto, teremos nas falhas os alicerces necessários à sua futura correção. Lembre-se de uma coisa óbvia: Todas as tentativas falhas que antecedem a construção de qualquer coisa, tudo isso representa a base, alicerce ou lastro onde será edificada a solução do problema.

Sem esse repertório de erros, o acerto não teria como se sustentar. Assim os erros são partes integrantes e inseparáveis dos acertos. Por isso se chama acerto, uma vez que lá dentro estão contidas todas as variações ou incorreções que deverão ser evitadas para que ele seja capaz de existir.

Imagine uma vacina viral que é construída a partir da essência da causa da patologia, e ainda assim serve de cura. Assim, a causa cujo desdobramento natural seria a manifestação da doença, agora pode ser usada para anular esse efeito negativo. A incompatibilidade do vírus em relação ao ser humano pode ser considerada um erro, que depois de corrigido, finalmente servirá como solução.

Aprender com os Erros, o acerto mais qualificado que existe...

Um traço fraco de nossa personalidade, não importa se intencional ou não, pode ser considerado uma falha, portanto, um erro. Por sua vez, um traço forte nunca poderia se construir sobre si mesmo. O simples fato de ganhar o status de forte, por definição, indica que nasceu fraco ou insuficiente, e com o tempo se potencializou. Não existe a natividade reversa, onde se nasce de mais para se tornar de menos. Nascimento é o ponto de origem, a matriz de um mínimo com potencial para se tornar um máximo.

A fraqueza não é um erro, mas apenas uma deficiência que pode ser corrigida ou não. Fraqueza indica carência, falta, deficiência, o caminho natural, portanto, para sua erradicação. Só o fraco pode se tornar forte, enquanto que o forte se torna mais forte. Ao reconhecer os erros podemos construir acertos. Um erro não reconhecido só serve de base para mais erros. É a água contaminada que causa doenças, e enquanto não for tratada não poderá servir de cura. E nessa condição se tornará um excelente agente para a proliferação de inúmeras patologias.

E há duas classes de indivíduos: aqueles que são capazes de reconhecer os próprios erros, e aqueles que os ignoram. No primeiro caso, de nada serve reconhecer a contaminação e continuar bebendo a mesma água. No segundo caso, é preciso tratar primeiro da ignorância, e só depois dar o passo seguinte.

No primeiro caso, ao enxergar que, além de suja, aquela água é a responsável pela doença, o processo de cura já está em andamento. No segundo caso, ao perceber-se ignorante e desejando mudar, terá a possibilidade de enxergar onde está o problema, um caminho natural para o acerto. No entanto, constatado o problema, ainda assim, o conserto só ocorrerá se aquilo for considerado um mal, fato que virá com a erradicação completa da ignorância. Meio percebimento não é percebimento, assim como meia mentira não é uma verdade.

Aprender a partir dos erros faculta a potencialização dos acertos. Corrigir os traços fracos, requalificar os traços fortes, eis o primeiro indício de inteligência, de uma auto-organização que pode nos conduzir ao autoesclarecimento consciencial. Ciente de que é capaz de errar o homem se torna mais consciente dos seus limites, mais atento aos seus atos, mais responsável na consecução de suas obras.


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