Dicas para Autorreciclagem

Competição, um Modelo Patológico de Ação...

Se competir é o único caminho capaz de nos conduzir à felicidade, então, viver em paz se torna uma tarefa impossível...
"Um boneco de corda analógica, que é na verdade uma espécie de Marionete mais sofisticada, só é capaz de funcionar a partir da vontade e comando do seu dono..."
Competição, um Modelo Patológico de Ação

Não é o excesso de conhecimento que aliena o homem, mas, antes disso, apenas o desnecessário...

Avaliando a Questão...

Parece ser inevitável, quando no passeio público, diante de desconhecidos, por força do nosso condicionamento, procuramos de alguma forma enquadrar aquele indivíduo numa classe social ou status imaginário, criando para ele um perfil virtual. E inicialmente faremos isso a partir dos estereótipos que nos ajudam a classificá-lo. E por força desse hábito, num primeiro olhar verificamos sua provável etnia, seu modo de vestir e aparência física, seus gestos ou traços comportamentais mais evidentes, e caso surja uma oportunidade, seu nível de conhecimento.

Desse modo, antes de tudo, o espaço público se torna uma espécie de passarela ou vitrine onde todos podem se exibir na tentativa de mostrar aquilo que aparentemente têm de melhor. E assim, uma simples caminhada em lugares frequentados por muitos se transforma numa oportunidade para a autopromoção, exaltação à força presencial e expressão dos dotes pessoais. Surge então o desejo de ser alguém importante, distinto, capaz de se diferenciar ou destacar-se diante dos demais.

E uma coisa aparentemente simples como ir às compras, torna-se uma competição silenciosa, pois, de algum modo, intimamente, estaremos disputando uns contra os outros, maior distinção, postura impecável, e a consequente preferência pela atenção do resto da platéia. E embora não possamos prescindir das relações em nosso viver, logo transformaremos este fato num enorme problema.

Como entidades racionais que somos, seria possível perceber que quase tudo em nossas vidas ou relacionamentos gira em torno de um modelo competitivo, uma eterna condição centrada na feroz disputa por alguma coisa?

Talvez seja um hábito tão natural que a maioria nunca terá olhos tão aguçados para tanto. Afinal de contas, somos instruídos assim nas escolas, em casa, no templo religioso, no trabalho, nos esportes, no lazer, através de livros e filmes. Trata-se do status padrão adotado como guia em nosso atual momento existencial. Existirá alguma ação de nossa parte que não seja motivada por uma proposta de ganho?

O significado do ganho é a coroação de um mérito, uma evidência concreta da conquista de uma vantagem ou a certeza de que chegamos à frente de alguém. E de fato não existe o sentimento de sucesso pessoal sem a sombra do insucesso de outro a nos servir de referência.

Qual será o Significado da Vida?

O significado ou objetivo da vida, decerto é aquele que damos a ela, uma vez que a natureza não concedeu a ninguém, de forma explícita, uma cartilha com estas recomendações, proposições, atribuições ou protocolos formais.

E já que não conhecemos qual a destinação de nossas vidas, delegamos a terceiros essa deliberação. Assim, a autoridade de todas as tradições, a mesma que acaba por criar as regras gestoras das sociedades, se tornará nosso guia, afirmando nas entrelinhas qual nosso papel existencial, qual a finalidade do nosso inteiro viver.

É um modelo, no qual, cada espaço deve ser conquistado, e aquilo que já possuímos deve a todo custo ser preservado. Nesse modo de vida idealizado por nossos ancestrais, a felicidade é um objeto com forma, simbolismo e conteúdo, capaz de ser comprada ou tomada à força de quem supostamente já a possui.

Como podemos idealizar a igualdade entre os povos se nós, de livre arbítrio, cultuamos o nacionalismo, as ideologias, a exaltação à etnia, os degraus próprios do status social, a erudição, e assim por diante? Como podemos idealizar a liberdade entre credos se há uma segmentação antagônica intencionalmente criada por cada ordem sectária com o objetivo da autopromoção e consequente rejeição sumária das demais?

Não é de estranhar quando verdadeiras batalhas entre os líderes e filósofos sociais são travadas para reivindicar a propriedade de alguma tradição milenar, cuja intenção é promover a superioridade de uma etnia, ideologia ou credo. E fazemos questão de sublimar nossa raça, culinária, indumentária, estilo de vida, ícones pessoais, rituais e cultos escolhidos como símbolos capazes de afirmar nossa origem e identidade cultural, deixando claro que estamos em luta silenciosa, ou aberta, contra outros grupos sociais, étnicos, sectários ou ideológicos diferentes do nosso.

E o mundo se transforma uma grande arena ou praça de guerra, onde a competição se torna a regra. Estamos em disputa contra todos, mesmo contra aqueles que residem dentro de nossa casa.

Competimos contra nossos irmãos, pais e amigos, ou com quem quer que seja. Parece que nossa racionalidade se limita a uma designação genérica da espécie à qual pertencemos, pois nunca agimos de modo coerente, sensato. Nunca nos aproximamos de um estado de conciliação nos interrelacionamentos, mas, antes disso, cada vez mais instigamos e valorizamos os conflitos, e todo nosso processo existencial está centrado nessa diretiva.

Filosoficamente é muito fácil dissertar sobre a miséria, sobre os desencontros e anomalias da humanidade, mas, em casa, ainda somos contraditórios, e na maioria das vezes, gentilmente falando, insensatos. Criamos filhos dentro de um ambiente competitivo, onde marido e mulher disputam, cada um ao seu modo, seu próprio e indivisível espaço. E naquele ambiente onde deveria existir ressonância e equilíbrio, irmãos disputam entre si a preferência dos pais, dos parentes, dos visitantes, assim como uma distinção pessoal capaz de colocá-los um degrau acima dos outros.

Nossas Contradições, um fluxo contínuo de ideais na contramão do bom Senso...

Pais envaidecidos promovendo a superioridade dos filhos ou da própria família não são eventos raros. O fato é que, quando promovemos nossos filhos como modelos de conduta, virtude e inteligência, estamos automaticamente competindo com todas as outras famílias. E a recíproca é absolutamente verdadeira. Acentuam-se assim as divisões que já são incontáveis na mesologia humana.

E desde o berço, a coisa mais importante na vida dos pais torna-se a promoção da superioridade dos filhos, colocando-os em vitrines cada vez mais extravagantes. E na ilusão de que os filhos representam uma continuidade da sua linhagem ou perpetuação do seu pedigree, mães, e principalmente os pais, se empenham em colocar os filhos em disputa direta com todos os outros.

E quando saímos a criticar o crescente nível de indiferença que existe entre as pessoas, da falta de respeito em relação ao espaço de cada um, ignoramos nosso ativo papel na instauração e continuidade desse estado das coisas.

Em nosso trabalho há uma exigência não explícita de que precisamos ser os melhores, e o mesmo ocorre ostensivamente em nossas relações, e de forma bizarra, até nas desgraças pessoais. Ensinamos aos nossos filhos que deverão lutar pelos seus objetivos, mas, raramente, orientamos sobre ética, sensatez e honestidade.

Instigamos a competição, mas nunca contemplamos o respeito e a tolerância como forma de convívio. Ao obrigarmos que sigam profissões que nos agradam, raramente levamos em conta suas vocações e verdadeiras predisposições. Evidentemente que os jovens precisam de orientação, mas orientar não é convencer sobre coisa alguma, nem impor pela força da sugestão de uma autoridade, ou ante as rédeas do medo. Impor é tirar a liberdade, e sem liberdade, o respeito entre indivíduos torna-se impossível.

Ao assumir a postura da individualidade não compartilhada, cada sujeito está a criar em torno de si mesmo uma blindagem, condição que inevitavelmente irá separá-lo dos demais congêneres. Poderão conviver entre si, mas cada um com a necessidade, não apenas de expressar suas próprias ideias e ideais, mas de se impor como porta estandarte da verdade. Nasce assim o ser humano egocêntrico, que enxerga todos os demais como coadjuvantes, meios secundários, mas necessários, para que seja capaz de atingir seus objetivos.

Ao se constituir o núcleo familiar, pais e filhos, como grupo social, tendem a se isolar das outras famílias. Compreender porque fazemos questão de nos isolar uns dos outros constituindo guetos familiares, tanto em ideologias quanto em preferências, opiniões ou hábitos da tradição, nos facultaria à descoberta da maioria das causas dos conflitos humanos.

Por fim...

Não podemos criar um mundo solidário na resolução dos problemas quando plantamos em nossos filhos a ideia de que cada coisa existente nesse planeta precisa ser conquistada à força. Isso quer dizer, tomada de alguém, disputada com unhas e dentes. Agindo dessa forma, estamos a criar “uma verdade” de que qualquer um em contraste com nossas ideologias, crenças ou cultos, serão declarados como nossos inimigos.

Trata-se da instituição sumária de que a “verdade” e o bom senso estão sempre do nosso lado. Estamos a instituir à falta de respeito e menosprezo como um caminho necessário para se chegar ao sucesso, que no fim das contas, por maior e mais próspero que aparentemente seja, será sempre temporário.


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