Contos Reflexivos para todas as Idades

Mudanças Genéticas

“Algumas vezes parece que há uma intenção deliberada das instituições sociais em perpetuar os problemas sociais mais crônicos, sem esquecer, entretanto, que irão precisar de atualizações frequentes para que sejam capazes de se ajustar aos novos tempos. A intenção por trás de tudo isso nos parece ser a de mantê-los ativos, talvez, para sempre...”

Mudanças Genéticas

Às vezes, Mudar para Melhor, para muitos, pode significar o Pior...

Aquele brilhante cientista fizera uma descoberta capaz de mudar para sempre o destino do homem, redesenhando o conceito de civilização como o conhecemos. Entretanto, para viabilizar sua implantação teria de enfrentar um problema que definitivamente não estava em sua pauta inicial...

Depois de enriquecer como dono de uma fórmula mágica capaz de acabar de vez com a calvície humana, aquele cientista, que passou a enfrentar sérios problemas por não ter mais onde guardar tanto dinheiro, resolveu reunir a imprensa para tornar público outro grande segredo seu, de benefício inegável para a humanidade, que desejava compartilhar de forma gratuita.

“Senhores, acabo de descobrir o segredo da célula tronco de todos os vegetais existentes em nosso planeta. Isso significa simplesmente que podemos, a partir de agora, transformar qualquer espécie vegetal em outra. Por exemplo, agora será possível transformar um grão de arroz em milho; capim em árvores frutíferas; erva daninha em vegetal nobre, e assim por diante. Usem então a vossa imaginação, e tentem sentir o poder dessa descoberta! E tem mais, logo faremos a mesma coisa com os minerais...”

Segundo esse princípio, mesmo o lodo dos esgotos ou terrenos úmidos poderia ser convertido em imensas plantações de qualquer coisa, e mesmo de arroz, com grãos do tamanho de melancias gigantes, vitaminados, imunes a todas as pragas. Teria resistência ao calor e frio, com potencial para germinar na seca, e, o mais importante, sem os indesejáveis efeitos colaterais após sua ingestão, um efeito comum entre as tradicionais variedades geneticamente modificadas, que ora eram largamente produzidas e comercializadas.

Entretanto, o fato mais relevante era que ele estava disposto a abrir mão da patente, torná-la pública, genérica, para que todos pudessem se beneficiar daquele extraordinário e único processo. Mas, antes de disponibilizar sua descoberta, para testar a viabilidade de um projeto de tal magnitude deixado nas mãos dos cidadãos comuns, ele patrocinaria uma comunidade, onde simularia a aplicação da técnica, desse modo poderia aferir os resultados.

Seria uma espécie de projeto piloto. E dentre os integrantes, ter-se-ia representantes de todas as classes sociais, credos, preferências, manias, enfim, um microcosmo da humanidade. Se a coisa funcionasse ali, se não houvesse desentendimentos ou conflitos de interesses, é quase certo que poderia servir de modelo viável para o resto do mundo, em qualquer parte, sem problemas.

E como todos queriam participar do projeto, logo, antes de tudo, uma grande confusão teria que ser resolvida. As instituições políticas, grupos religiosos, grupos étnicos, grupos sem grupo, contestadores e críticos, como sempre, queriam um lugar de destaque no empreendimento, ou seja, privilégios proporcionais ao tamanho do status que ora usufruíam dentro do meio social. E as organizações contrárias às mudanças transgênicas, também, logo reclamaram do seu espaço, argumentando que precisavam ver de perto os efeitos daquele experimento. É claro que, se houvesse entendimento e um acordo entre eles, teria lugar para todo mundo.

O problema maior era então a reivindicação de privilégios, cotas diferenciadas, situações mais favoráveis para alguns, afinal de contas, argumentavam eles, hierarquia e status social eram critérios que deveriam ser considerados, e indiscutivelmente, respeitados. Criaram-se novas leis para organizar a coisa; revogaram e anularam outras tantas. Reescreveram dezenas de outras que conflitavam com os novos interesses. E logo o projeto teve início, ao menos o processo de seleção dos candidatos.

Mas, não seria nada fácil organizar um grupo de tão complexa diversidade, especialmente quando ninguém estava disposto a abrir mão da vaidade de ostentar a posição social e hierárquica que os identificava dentro de suas respectivas mesologias, guetos ideológicos ou congregações sectárias. Deferir privilégios à altura do status pessoal de cada um era agora mais importante que a causa pela qual deveria ser criado aquele grupo comunitário.

“Temos nossas posturas e posições, atributos pessoais conquistados ao longo do tempo, da tradição, do poder, ou seja, degraus que foram galgados ou herdados, e destes não podemos abrir mão, uma vez que, com a lógica da superioridade, condição que nos diferencia dos demais, não se brinca...”, era o pensamento predominante entre todos.

E nesse processo de vai e não vem, desde o anúncio do projeto, passaram-se então dezenas de anos. E ao fim das discussões reivindicatórias, quando tudo parecia resolvido, descobre-se que aquele cientista, único e exclusivo detentor da fórmula mágica, já não mais existia. E sendo excêntrico, não costumava documentar por escrito em nenhum lugar suas descobertas, processos alquímicos e matemáticos, e assim, tudo se perdera, para sempre.

Ao que alguém no meio da multidão lamenta: “Parece que a resolução de um problema não é a coisa que se busca, mas, antes disso, a multiplicação ou agigantamento desse mesmo problema...”

Moral da História:
Quem não tem urgência em resolver um problema coletivo, transforma atalhos em obstáculos; atulha de pedregulhos os caminhos livres; faz da cura uma doença, e da doença um meio de vida...

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