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O Coral
Autor: Alberto J. Grimm [1]

Ausência de Acuidade, excesso de vaidade...

cantora
Um tesouro pessoal quando se torna público, logo desperta a cobiça de muitos...

Minha mãe me explicou direitinho o que significavam os vários tipos de sons. Ela disse que os sons das vozes podem ser graves ou agudos. Grave é o som mais alto, o mais forte, o mais grosso. O agudo é o som mais fino, mais baixo. Assim, uma voz fininha como a minha é aguda, enquanto que uma voz como a dela, de um calibre mais grosso, é grave. Depois ela complicou tudo quando disse: “Tenor é o cantor de voz fina, ou aguda, enquanto que Baixo é o cantor de voz mais alta, ou grave.” Preferi ficar com a primeira explicação, pois essa eu entendi bem.

Em nossa escola, aprendemos a cantar toda manhã, e antes mesmo de qualquer atividade, logo nos reunimos para praticar. Para falar a verdade, adoro cantar. Também gosto de observar meus amiguinhos cantando. Fico prestando a atenção para ver que tipo de voz eles possuem. Percebo que às vezes muda muito. Ora é grave, ora é agudo, ou ambos; nunca é uma coisa só. Mas a minha voz é sempre fininha, é uma coisa só. Perguntei para ela por que cantar é tão bom e ela me respondeu que, cantar é melhor que chorar. Perguntei se ela chorava e ela disse que não, simplesmente porque cantava. Fiquei pensando um pouco naquilo e vi que era assim mesmo.

Lembro de um dia que estava sem vontade de cantar, e logo senti vontade de chorar. Será que cantar é o contrário de chorar? Talvez seja por isso que na porta da escola tem uma placa onde está escrito: “QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA”.

Outro dia, no pátio de um supermercado, vi uma menina chorando. Perguntei a minha mãe porque ela estava chorando, se era porque não sabia cantar. Minha mãe disse que não. Disse que ela chorava porque sua natureza era diferente da nossa. Disse que ela possuía uma natureza complexa, e que desde cedo aprendiam logo a serem infelizes. Por isso mesmo nunca se contentavam com aquilo que já possuíam, com aquilo que a natureza mãe lhes deu. Assim, criavam muitas necessidades, tinham muitos desejos, e ela estava chorando exatamente porque um dos seus desejos não fora realizado. Perguntei se aquela mulher de cara brava, ao seu lado, era a mãe dela, e minha mãe disse que sim. A menina olhou para nós e por um instante ficou quieta. Depois saímos de lá, sem saber o resultado final.

No dia seguinte, contei para minha professora aquele fato. Ela então nos falou sobre os estranhos, sobre como são perigosos, sobre como não devemos confiar neles. Então nos contou a história de um cantor famoso, que gostava de ensinar às crianças a arte do canto. Perguntei se aquilo não era uma lenda, pois lá em casa também ouvira falar dele, só que meus pais nada mais acrescentaram. Ela disse que não era lenda, tudo acontecera de verdade, que ele realmente existira. E contou sua história.

Ele criou os corais. Sua voz era incomparável, e era ainda capaz de cantar em todos os tons. Criava músicas de improviso. Como ele ninguém fazia igual, e nem por isso era vaidoso. Não gostava de competir nos torneios da comunidade, pois dizia que isso dividia os indivíduos, criava desunião, tirava a espontaneidade de ser de cada um. Nunca competiu, e defendia que isso era a causa do todo desentendimento que existe nos relacionamentos.

E explicou, se alguém tinha ciúmes dos feitos do outro, logo queria competir, ou para se igualar, ou para superar. Mas no final, quem saia ganhando se a competição sempre continuava? E ele dizia: “Se alguém ganha, quer ganhar sempre. Assim, a alegria do prêmio logo se transforma em inquietação, pois estará sempre preocupado em não perder”.

E ele ensinava pessoalmente o canto às crianças. Gostava de fazer isso de forma voluntária, mas ressaltava que não estava a mando de ninguém. Fazia isso porque era sua vocação. Fazia porque dizia que ensinar alguém a ser livre, a não depender de favores nem dos opressores, era a verdadeira felicidade a ser conquistada. Nunca se preocupou em escrever nada sobre o que ensinava, pois dizia que para aqueles aos quais ensinava, o que aprendiam já ficava escrito em suas almas, em seus espíritos, e isso lhes bastaria.

Terminada a história fomos cantar mais uma vez, isso antes de voltar para casa. Nesse dia fiquei pensando naquele cantor da história. Quando fui dormir, de repente me lembrei da história de outro cantor famoso, este bem vaidoso, que inventara um ritmo diferente, onde se cantava do fim para o começo. Era engraçado como cantava, e todos riam muito com as caretas que fazia, quando se engasgava com alguma palavra. Minha mãe disse que suas músicas eram de duplo sentido; quer dizer, parecem dizer uma coisa, mas era outra coisa o que realmente significavam. Mas, aqueles que o ouvem compreendem bem o significado de suas palavras, por isso o adoram.

Então, um dia, quando estávamos na hora do recreio, fiquei sabendo que ele estava visitando a nossa escola. Foi uma correria, pois todos queriam conhecê-lo pessoalmente. Não parecia ser arrogante como disseram, na verdade era muito simples, e logo as crianças gostaram do seu jeito brincalhão. Então. antes de começar a falar, ele cantou um pouco. E disse antes de começar: “Vou cantar de modo normal, mas apenas para vocês”. Não compreendi bem o que queria dizer com modo normal, mas depois entendi tudo. E foi maravilhoso seu canto, o mais extraordinário que jamais havia presenciado, e todos por igual, ficaram extasiados com tão bela voz.


Era um dia especial, pois ele ia fazer uma palestra para todos na escola. Então, ficamos sabendo que ele fora um dos alunos mais aplicados do cantor que se tornara uma lenda viva. E foi justamente falando sobre seu mestre, que ele iniciou a palestra. E ele falou para todos.

“Não devemos nos enganar, pois a vaidade pessoal de um pássaro é nosso mal maior. Nosso mestre não era um pássaro vaidoso, mas era ingênuo, e por isso pagou o preço. Ao exibir seu canto, logo chamou a atenção dos humanos, e estes o capturaram para ter apenas para si tão maravilhosa voz. Ele, claro, nunca mais foi capaz de cantar outra vez. Por isso, publicamente, canto de trás para frente, um canto horrível para o ouvido do ser humano egoísta que deseja nos capturar. Logo, nunca serei desejado. Por isso aprendam. Basta saber que sabemos. É tolice exibir nosso saber e talentos publicamente em busca de glórias, pois a glória que buscamos pode ser simplesmente o meio de promover outros, ou trazer para nós a infelicidade.”

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Autor: Alberto J. Grimm
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
email: alberto.grimm@gmail.com


Notas sobre O Autor:
[1] Alberto J. Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.
O autor é Doutor em Filosofia e graduado também em Publicidade e Design Gráfico.

Observação: O autor não possui Website ou página pessoal no Facebook ou em qualquer outra Rede Social.

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