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A Mansão Mal Assombrada
Autor: Alberto J. Grimm [1]

Não é na Escuridão que está o motivo dos nossos Medos

casarão na colina
Para compreender o que desconhecemos, primeiro precisamos aceitar que ainda não compreendemos...

A casa era imensa e estava localizada em meio a um pequeno bosque, às margens de um lago profundo e de águas calmas, que embora límpidas, eram escuras. Tinha uma fama e tanto, de mal assombrada é claro. Ninguém conseguia passar uma noite lá dentro. Morar ali, nem pensar. Possuía muitos quartos em seus três andares construídos sobre uma sólida laje natural de pedra negra, uma espécie de basalto raro, quase à beira de um penhasco, digno de amedrontar os mais intrépidos alpinistas, ou demais pré-suicidas praticantes de desafios radicais.

Passados dezenas de anos, ainda permanecia majestosa e firme, apesar das paredes sujas devido à falta de manutenção. Seus donos eram prósperos, mas o tempo implacável lhes tirara tudo. Agora, embora não mais existissem, ao menos fisicamente, lá estava sua robusta morada, feita para durar mais que todos da sua linha de descendência. Pouco se sabia sobre os acontecimentos que culminaram com o início das assombrações no local, mas a história era clara: os fantasmas do lugar, não eram nada amigáveis com os visitantes.

Os últimos enxotados fora um grupo de religiosos, que resolveram fazer um exorcismo para limpar a casa. Naquele grupo, organizado como uma espécie de liga da justiça divina contra as forças do mal, todas as religiões enviaram seus mais competentes, ilustres e sábios ministros. Conta-se que logo na entrada, um deles ficou completamente surdo com o sopro que um dos fantasmas deu nos seus ouvidos; nos dois ao mesmo tempo. Ficou desorientado por um tempo, sem saber nem onde estava, nem qual era seu nome. Depois, embora recobrasse a razão, permaneceu por um bom tempo sem a audição.

Sorte que, por ser sábio, conhecia a linguagem dos sinais, motivo pelo qual pode continuar se comunicando com os demais membros do grupo. Depois chegou a imaginar que fora beneficiado pela brincadeira da assombração, uma vez que os sons assustadores dos fantasmas arruaceiros não mais o perturbariam naquela noite. Infelizmente, para todos os presentes, a coisa não era tão simples assim. O fato é que, todos foram expulsos da casa poucas horas depois, mas não sem traumas psicológicos preocupantes.


O que mais impressionou ao grupo foi que, ao iniciarem o exorcismo, ao pronunciarem as primeiras palavras sagradas, os fantasmas completavam em voz alta toda a ladainha restante, inclusive com os cânticos dos rituais solenes, e ainda ensinaram aos religiosos algumas técnicas secretas que estes desconheciam. Sem contar que havia um coro de fundo, que recitava em tom canônico, como a imitar os cânticos gregorianos, todos os salmos bíblicos, ora em Latim, ora em Aramaico. Saíram da casa moralmente arrasados, psicologicamente desorientados, questionando a própria fé.

Mas, sem dúvida o que mais abalou a autoestima do grupo, foram as palavras finais daquele que parecia ser o fantasma chefe. Dissera em tom solene: “Voltem sempre e assim podemos ficar longas horas discutindo sobre todos os livros sagrados. Gostamos de realizar seminários para falar de coisas religiosas, doutrinas secretas e coisas assim. Nossas reuniões são sempre às terças e quintas, meia noite em ponto. Vocês são, a partir de hoje, nossos eternos convidados, não é verdade pessoal?”. Um gemido horripilante, algo como “Hum, hum...”, em forma de coro, parecia ser a concordância do restante da comunidade fantasmagórica.

Detalhes à parte, uma nova família que ora estava chegando ao local, parecia não se importar com aquelas lendas e relatos assombrosos. Observaram a imponente fachada da enorme mansão, e aquela que parecia ser a matriarca comentou: “Pelo menos espaço teremos de sobra a partir de hoje!”

Entre eles, uma criança, que segurava na mão direita uma revista em quadrinhos, cujo título era “Histórias Assombrosas”, voltou-se para a senhora que fizera o comentário e disse: “Mãe, quero ver os fantasmas da casa, será que posso? A senhora deixa?“

“Deixa de coisa menino”, ressaltou a senhora em tom resignado, “Fantasma é coisa de gente, existe para os seres humanos. Eles aparecem e assustam pessoas. Somos Ratos, e fantasmas não assustam ratos...”

Meio desolado e olhando para o rabinho que dava voltas no ar, ele suspirou, pegou sua mochilinha e subiu lentamente os degraus em direção à porta principal do casarão.

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Autor: Alberto J. Grimm
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
email: alberto.grimm@gmail.com


Notas sobre O Autor:
[1] Alberto J. Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.


Observação: O autor não possui Website ou página pessoal no Facebook ou em qualquer outra Rede Social.

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