Contos Reflexivos para todas as Idades

A Mansão Mal Assombrada

“Talvez nossos maiores temores se escondam por trás de nossa imensa ignorância sobre quase tudo...”

A Mansão Mal Assombrada

Para compreender o que desconhecemos, primeiro precisamos aceitar a existência daquilo que ainda não compreendemos...

A casa era imensa e estava localizada em meio a um pequeno bosque, às margens de um lago profundo e de águas calmas, que embora límpidas, eram escuras. Tinha uma fama e tanto, de mal assombrada. Ninguém conseguia passar uma noite lá dentro. Morar ali, nem pensar. Possuía muitos quartos em seus três andares construídos sobre uma sólida laje natural de pedra negra, uma espécie de basalto raro, quase à beira de um penhasco, digno de amedrontar os mais intrépidos alpinistas, ou demais pré-suicidas praticantes de desafios radicais.

Passados dezenas de anos, ainda permanecia majestosa e firme, apesar das evidentes marcas da idade em suas paredes. Seus donos eram prósperos, mas o tempo implacável lhes tirara tudo. Agora, embora não mais existissem, ao menos fisicamente, lá estava sua robusta morada, feita para durar mais que todos da sua linha de descendência. Pouco se sabia sobre os acontecimentos que culminaram com o início das assombrações no local, mas a história era clara: os fantasmas do lugar, não eram nada amigáveis com os visitantes.

Os últimos enxotados fora um grupo de religiosos, que resolveram fazer um exorcismo com a ecumênica missão de “limpar a casa”. Naquele grupo, organizado como uma espécie de liga da justiça divina contra as forças do mal, todas as religiões enviaram seus mais competentes, ilustres e sábios ministros. Conta-se que logo na entrada, um deles ficou completamente surdo com o sopro que um dos fantasmas deu nos seus ouvidos; nos dois, ao mesmo tempo. Ficou desorientado por um tempo, sem saber nem onde estava, nem qual era seu nome. Depois, embora recobrasse a razão, permaneceu por um bom tempo sem a audição.

Sorte que, por ser sábio, conhecia a linguagem dos sinais, motivo pelo qual, foi capaz de continuar se comunicando com os demais membros do grupo. Depois chegou a imaginar que fora beneficiado pela brincadeira da assombração, uma vez que os sons assustadores dos fantasmas arruaceiros, não mais o perturbariam naquela noite. Infelizmente, para os demais presentes, a coisa não era tão simples assim. O fato é que, todos foram expulsos da casa poucas horas depois, mas não sem traumas psicológicos preocupantes.

O que mais impressionou o grupo foi que, ao iniciarem o exorcismo, logo ao pronunciarem as primeiras palavras sagradas, os fantasmas completavam em voz alta e solene toda a ladainha restante, inclusive com os cânticos dos rituais sacros mais poderosos. Ainda ensinaram aos religiosos algumas técnicas secretas que todos, apesar de sua longa experiência ecumênica, desconheciam. Ao fundo era possível escutar um coro que recitava em tom canônico, a exemplo dos cânticos gregorianos, todos os salmos bíblicos, ora em Latim, ora em Aramaico, provando sua versatilidade linguística. Saíram da casa moralmente arrasados e psicologicamente desorientados, duvidando dos seus livros sagrados, conceitos doutrinários, e questionando a própria fé.

Mas, sem dúvida, o que mais abalou a autoestima do grupo, foram as palavras finais daquele que parecia ser o fantasma chefe, ou coordenador do grupo extrafísico. Dissera em tom solene: “Voltem sempre, e assim podemos passar longas horas discutindo sobre a exegese de todos os livros sagrados. Gostamos de realizar seminários para falar de coisas religiosas, doutrinas secretas e coisas dessa natureza. Nossas reuniões são sempre às terças e quintas, meia noite em ponto. Temos também uma seção extra a cada sexta feira 13. Vocês são, a partir de hoje, nossos eternos convidados... não é verdade pessoal?” Um gemido horripilante, algo como um “Amémmm...”, em forma de coro melódico lembrando a entonação dos cantos ritualísticos monásticos, parecia ser a concordância do restante da comunidade etérea.

Detalhes à parte, uma nova família que ora estava chegando ao local, parecia não se importar com aquelas lendas e relatos assombrosos. Observaram a imponente fachada da enorme mansão, aquela que parecia ser a matriarca, comentou: “Pelo menos espaço, a partir de agora, teremos de sobra... e o mais importante, sem pessoas esquisitas para nos importunar...”

Entre eles, uma criança, que segurava na mão direita uma revista em quadrinhos, cujo título era, “Histórias Assombrosas”, voltou-se para a senhora que fizera o comentário e perguntou: “Mãe, quero ver os fantasmas da casa... Será que posso? A senhora deixa?”

“Deixa de coisa menino”, ressaltou a matriarca em tom resignado, “fantasmas é aquele tipo de coisa que faz sentido apenas para as pessoas; existem exclusivamente para os seres humanos. Eles aparecem e assustam indivíduos do gênero Homo Sapiens. Somos Ratos geneticamente modificados, e embora caminhando sobre duas pernas, dotados de inteligência, falando como gente e com aparência de gente, ainda somos Ratos, e fantasmas, pode acreditar, não levam o ato de assustar Ratos a sério...”

Matriarca de uma família de ratos geneticamente modificados, inoculados que foram com o DNA humano, cobaias das pesquisas científicas que ora proporcionava aos homens uma sobrevida milenar, tinham também aparência humana, apesar dos trinta centímetros de estatura máxima. Graças a essa evolução forçada, agora pensavam e se expressavam como gente. Possuíam ainda polegar opositor, mãos e pés com cinco dedos, caminhavam eretos, e conviviam com os humanos sem problemas, embora em guetos segregados bem demarcados.

E a criança, meio desolada e olhando para a capa de sua revista em quadrinhos, suspirou baixando a cabeça e dando de ombros. E pegando a mochilinha onde guardava o resto dos seus pertences, subiu lentamente os largos degraus que davam acesso à porta principal do casarão.

Moral da História:
A arrogância do saber ainda é a mais negativa das vaidades...

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