Contos Reflexivos para todas as Idades

A Espera

“Quando observamos com cuidado e um juízo minimamente crítico, sem dúvida, fica muito claro que o principal papel da propaganda é convencer o consumidor de que o ato de pensar por conta própria é uma espécie heresia ou um gesto negativo de grande impacto social...”

A Espera

Aprender é o ato de revirar o que agora não serve em busca do que agora serve, e o mais importante, de olho naquilo que futuramente poderá vir a servir...

Não existe ato de consumo insensato que não seja patrocinado pela persuasiva força da máquina publicitária...

A sensação não era nada boa. Fazia muito frio, e ele, sem compreender bem o que estava acontecendo, caminhava por uma trilha de terra em meio à densa mata fechada, de onde, sequer podia enxergar a luz do sol, se é que naquele lugar existia tal coisa. Estava meio confuso; meio não, completamente. Sequer conseguia pensar de forma ordenada. Sua mente não conseguia se fixar em ponto algum, e suas lembranças mais pareciam um amontoado de eventos pelo avesso. Em resumo, dentro de sua cabeça, nada parecia fazer sentido.

Tentou lembrar como chegara naquele lugar e nada, nadinha, nem adiantava insistir. Como seria possível alguém chegar a algum lugar sem ter uma clara lembrança do ponto de origem, ou de como lá chegara? Será que ele morrera e aquilo era na verdade a sensação de alguém já morto? Olhou para seu corpo em busca de respostas, e percebeu que vestia um agasalho para frio. Por isso deduziu que havia se preparado para estar ali. A questão era, ali, onde?

Olhou para trás e viu apenas uma longa trilha, estreita, sinuosa, aparentemente sem fim, uma visão semelhante a que tinha à sua frente. Dos lados, árvores, de todas as cores e alturas, e um silêncio que o fizera concluir, ou que podia estar com problemas de audição, ou que ali não existiam sons. A coisa aparentemente era bastante séria, pois percebeu que sequer era capaz de lembrar do próprio nome; do lugar onde morava, nem pensar. Era como se estivesse vazio, oco, desprovido do seu cérebro e das suas respectivas memórias.

Então começou a escutar um barulho de vozes, como se um grupo de pessoas se aproximasse daquele ponto onde estava, estático, sem decidir se avançava ou voltava. Assustou-se e logo pensou em correr, mas, estava com um problema: não conseguia distinguir de que lado vinha aquele murmúrio, de modo que, mover-se em qualquer das duas direções, indo ou voltando, era arriscado.

Num ímpeto de coragem, decidiu correr para frente, sem olhar para trás. Entretanto, para aumentar sua aflição, o murmúrio parecia acompanhar seus apressados passos, se aproximando cada vez mais dele. E em meio às vozes atrás de si, escutou alguém pronunciar um nome, que até poderia ser o seu, caso soubesse qual era. A voz disse: “Jon, não precisa se apressar, aqui, com certeza é o lugar onde tem aquilo que todos nós procuramos...”

Por isso mesmo, quase morre de susto, quando alguém tocou no seu ombro e disse: “Vamos, está na hora...” O grito que saiu de sua garganta, resultado do imenso pavor que sentiu, era de fato estranho. Não foi um grito que despontou de imediato e de forma natural, mas uma espécie de grito progressivo, isto é, que ia aumentando de volume aos poucos, como se obedecesse ao girar do botão de volume de um rádio cuja engrenagem estivesse falha.

Acordou tentando se segurar em alguma coisa, como se estivesse caindo de uma cama, da qual de repente lhe tirassem o lastro. Segurou num pé; isso mesmo, num pé descalço, de alguém que dormia ao seu lado, juntamente com mais uma centena de outras pessoas, naquilo que parecia ser uma imensa fila de espera.

A princípio ainda estava desorientado, sem saber onde estava; sem tem uma clara noção de onde ficava o norte ou o sul. Parecia ter perdido o juízo, e sua mente mais se assemelhava a um sistema operacional de computador contaminado com um vírus que o tornava demasiado lento. Mas, quando a mesma voz que o acordara tornou a falar, sua razão começou a voltar para casa. “As portas já vão ser abertas...”, balbuciou aquele misterioso personagem.

Lembrou então que estava, juntamente com uma centena de outras pessoas, numa imensa fila de compradores compulsivos, à espera de um grande lançamento, um novo e revolucionário produto, uma singularidade, que viciados, fanáticos e alienados em consumo, como ele, faziam questão de ter em primeira mão. Tratava-se de um novo aparelho eletrônico, um celular, cujo diferencial era não possuir botões. Funcionava por comando de voz, e apenas seu dono poderia operá-lo. Nada que o tornasse superior aos modelos anteriores, não fosse o exclusivo recurso de mostrar aos seus usuários, em tempo real, em gráficos coloridos, diversos modelos deles disponíveis, a temperatura do centro da Terra.

Sem compreender muito bem por que precisava daquele aparelho, o fato é que ele estava naquela fila, sabe-se lá há quantas horas, disposto a garantir o seu. Então, subitamente, como se seu cérebro iniciasse um processo de autolimpeza, onde coisas sem explicações não teriam mais espaço para ficar, questionou por que precisaria saber da temperatura do núcleo da Terra 24 horas por dia, em tempo real. Que utilidade aquilo teria para si? Percebeu que, pela primeira vez em sua vida, estava pensando, questionando alguma coisa. Lembrou que isso talvez fosse um reflexo ou efeito daquele sonho “diferente” que acabara de ter.

E muitos outros pensamentos questionadores, estranhos para ele, uma vez que se acostumara desde pequeno a simplesmente seguir a onda da vez, sem refletir, tomaram sua mente sem o seu consentimento. Era como se fossem os antigos moradores, há muito despejados, mas que agora, patrocinados por um novo e estranho alento, reivindicassem sua antiga morada. Não era uma sensação ruim, mas antes disso, estranhamente motivadora. Lembrou das campanhas de consumo anteriores, nas quais fora envolvido, levado a consumir sem pensar, sem avaliar se de fato eram necessidades, ou simples compulsões sem causa ou utilidade aparente.

Lembrou dos tantos aparelhos, todos ainda em perfeito estado de funcionamento, jogados nos fundos das gavetas e que eram substituídos quase como uma obrigação ou penitência religiosa, a cada nova campanha, apesar de, agora percebia com clareza, não haver motivo coerente, lógico, racional, para isso.

Ficou assustado com aquele percebimento, e pela primeira vez, sentiu que sempre fora uma marionete movida pela vontade de terceiros. Sentiu um misto de revolta e um tanto de liberdade, pois sabia que, a partir daquele ponto, não mais conseguiria ser um “boneco movido pela corda alheia”. A sensação era de que, depois de um longo e perturbador torpor cerebral, embotamento ou processo de hibernação mental por falta de uso da razão ao qual fora involuntariamente submetido desde a infância, finalmente, despertara.

Achou graça ao observar seus amigos, ali ao seu redor, naquela imensa fila de espera, onde passaram a madrugada, a troco de nada, discutindo tolices como os benefícios de possuir um celular que, além de fazer aquilo que todos os demais já faziam, era capaz de mostrar, em tempo real, a temperatura do núcleo da Terra.

Saindo dali, depois se reuniriam, como das outras vezes, cada um tentando configurar seu aparelho com um padrão diferenciado, embora fossem todos iguais. Depois iriam para suas casas, e lá permaneceriam, diligentes, em estado de espera, como zumbis controlados remotamente, até a próxima campanha, o próximo comando, a ordem de como deveriam agir. E depois, pensou, quem poderia garantir que aqueles números atestavam, de fato, a temperatura do núcleo do planeta, afinal de contas, quem iria descer até lá, com um termômetro, para conferir?

Realmente, estava pensando; experimentava uma liberdade estranha, não por ser esquisita a sensação, mas porque sentia uma segurança, uma autoconfiança, nunca antes vivenciada. E sem dizer nada, já que nenhum dos demais teria ouvidos para seus argumentos ou ponderações, se afastou sem ser notado; sem explicar nada a ninguém. Estava, pela primeira vez, em toda sua existência, completamente lúcido e consciente de uma ação sua.

Moral da História:
Um homem sem juízo crítico não passa de mais um crítico sem juízo...

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