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Mais um Dia de Trabalho
Autor: Alberto J. Grimm [1]

No Trabalho por Vocação, as tarefas se tornam Diversão...

operário trabalhando
A única coisa que se consegue sem esforço é o Fracasso...

Gosto de ficar aqui na janela da minha casa refletindo. Posso ver alguns se preparando para mais um dia de trabalho. Às vezes fico pensando quantos somos. Estas coisas de superpopulação, falta de alimentos e de moradia para todos. Penso mais, e tento compreender o que esperamos obter ao final da vida, qual a nossa origem, e se alguém já descobriu isso. Também é um mistério para mim, o tempo de permanência de cada um na terra. É uma coisa tão misteriosa que nunca ouvi alguém dizer que sabia.

Mas trabalhamos tanto que logo nossos pensamentos são tomados pelas atividades diárias. Mas sei que preciso explorar isso com mais cuidado, com mais calma, pois vontade não me falta, mas tempo que é bom. Além de curiosidade, sinto uma natural falta destas respostas. Sei que pode ter chegado a minha hora de questionar tais coisas. É como se dentro de mim existisse outro indivíduo me lembrando da necessidade de entender tudo isso.

Depois da chuva da noite anterior, as ruas estavam intransitáveis. Também chovera sem parar por muitas horas seguidas. Não lembro de nenhuma trégua, até parecia que a natureza quisera se vingar do sol que fizera durante toda semana. Aprendi com meus pais a ser paciente, e da janela da minha casa, observei tudo com cautela, pois mesmo que estivesse com pressa, nada conseguiria debaixo daquele aguaceiro

Naquela noite, a mulher da casa ao lado, chamara tanto palavrão com as goteiras do seu telhado que em certo momento ficou sem repertório. Ai chutou as latas que usava para aparar a água. Pelo barulho das panelas se chocando contra as paredes, fiquei imaginando o caos que deveria estar lá dentro.

Fiquei com pena do marido dela, quando o telhado afundou com seu peso. Ele acabou caindo por cima do armário, onde ela guardava uma coleção de pratos raros, que preservava com extremo zelo. Aquela coleção de pratos decorados era usada como enfeites para as ocasiões especiais, e ele na queda quebrou tudo. Aí sim, nunca vi tanto palavrão em minha vida, e se ainda havia uma chance remota de se colar os cacos, ela desfez ao quebrar o que já estava quebrado.

Reduziu tudo a quase pó, e fez isso com a primeira coisa pesada que sua mão conseguiu pegar no meio daquela confusão. O pior aconteceu quando ela percebeu o que era aquele objeto que lhe servira tão bem de instrumento para esfarelar o farelo dos cacos. Era uma panela de pressão novinha, que comprara um dia antes. Juntara dinheiro durante meses, e sempre que passava na vitrine, conversava com a panela como se fosse um ser vivo, e dizia: “Hoje falta ainda menos para você ser minha...”.

Agora lá estava a panela, cheia de hematomas e machucados, mais parecendo um achado arqueológico, daqueles que uma equipe de cientistas é chamada apenas para descobrir, e tentar chegar a um consenso, para definir que objeto seria aquele que acabara de ser encontrado.

E então ela lembrou que a panela estava cheia. Cheia com o feijão que cozinhara para toda semana, e que já se preparava para levar ao congelador distribuídos em vários potinhos de plástico, embalagens vazias de margarina. A natureza parecia não se importar com o seu drama, e mais parecia que tudo aquilo era na verdade uma espécie de ritual ou evocação pedindo mais chuva, pois o fluxo se intensificou ainda mais.

Mas agora estava tudo tranquilo. Amanhecera, e lá reinava o mais absoluto silêncio, tinham ido para a igreja. Na rua as pessoas escolhiam com extremo cuidado o lugar certo onde pisar, pois aquela lama, que vinha dos esgotos entupidos pelo lixo, era a quase certeza de uma doença. Mas o sol, felizmente, já começava a sair radiante no horizonte. Nossos meteorologistas, que ao contrário dos “outros”, são de fato infalíveis, recomendavam prudência ao sairmos à rua. Alertavam que devíamos resolver logo nossas pendências, e voltarmos com a maior brevidade possível para casa, pois o tempo continuaria instável.

Particularmente, nunca gostei de chuva, mas ela é necessária à manutenção da vida, inclusive da nossa. Imagine um mundo sem os vegetais, seria o caos. Fico até angustiado só de pensar. Mas nossa sobrevivência e longevidade sobre a terra se deve a nossa adaptabilidade às situações inóspitas. Com o tempo, aprendemos a sobreviver com o que estiver em nossas mãos, e podemos transformar em alimento, quase tudo que encontramos na natureza. Só que, com os vegetais, a coisa fica bem mais simples, pois o processo de transformá-los em alimentos é mais rápido. E pensar que um dia aconteceu uma grande enchente, tão grande, que cobriu toda a terra de água.

Naqueles tempos, a destruição foi completa, e apenas um homem com um grande barco conseguiu se dar bem, ou será que foi lenda? Felizmente, nesse grande barco, havia espaço para todo mundo, e graças a isso, nossos antepassados puderam relatar depois o que de verdade aconteceu. Bom, pelo menos essa é a versão que conheço. A coisa que não gosto com a aproximação do inverno é a dificuldade para ir trabalhar, e muitas vezes, temos que fazer hora extra para compensar, e isso inclui trabalhar à noite e coisas assim.

Às vezes, acho engraçado certas coisas, que mesmo sem querer, escutamos aqui nessa casa. Uma coisa que achei curiosa, foi o caso dos nossos vizinhos. Pela manhã, depois que a chuva passou, quando deveriam consertar seu telhado, foram para a igreja pedir proteção para a casa. O fato curioso é que escutei a mesma mulher dizer que na chuva da semana passada o que desabou foi o teto da igreja. Fiquei aqui pensando se isso não era uma grande contradição. Se lá, que supostamente era a fonte protetora, por que não protegera a si próprio? Mas, como não consigo ainda compreender estas coisas, fiquei quieto.


Gosto do meu trabalho, pois me sinto importante com o que faço. Às vezes eu acho que ao me sentir importante, corro o risco de ficar frustrado no futuro, quando precisar me aposentar, quando não mais serei importante, quando não mais serei necessário, e aí serei substituído por outro. Mas enquanto isso não acontece, gosto do que faço, e psicologicamente já me preparo para o dia quando não mais for capaz de trabalhar. Somos muitos, e meu trabalho basicamente é observar, melhor dizendo, encontrar coisas. Não são coisas que se perderam, apenas coisas que estão espalhadas por aí, coisas que possam nos servir, e isso, depois de muito aprendizado, sei fazer bem.

O sol está saindo para valer, e posso sentir sua brisa quente em meu rosto, quer dizer, em minhas anteninhas. Considero minha função no formigueiro importante, pois sou uma Formiga daquelas que vai na frente, para encontrar aquilo que podemos usar para fazer alimento. Sou um explorador, ou melhor, um batedor, e tão logo encontro alguma coisa, aviso aos operários, que se encarregarão do transporte. Adoro o que faço.

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Autor: Alberto J. Grimm
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
email: alberto.grimm@gmail.com


Notas sobre O Autor:
[1] Alberto J. Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.
O autor é Doutor em Filosofia e graduado também em Publicidade e Design Gráfico.

Observação: O autor não possui Website ou página pessoal no Facebook ou em qualquer outra Rede Social.

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