Contos Reflexivos para todas as Idades

A Evolução

“Quando a realidade humana não passar de um evento virtual sob demanda, será impossível descobrir se existe alguma coisa real lá fora, caso exista um lado de fora...”

A Evolução

Não podemos mensurar o valor de uma coisa, se a esta já se atribui um valor...

Naquele dia, um pouco antes do amanhecer artificial, ele percebeu que havia alguma coisa estranha; estranha por não ser capaz de compreender sozinho. Mas, tinha certeza, de que um algo mais estava presente no ambiente. Abriu a janela virtual do seu quarto e ao olhar para o lado de fora viu que a definição da imagem da rua não parecia de alta resolução. As cores se mostravam desbotadas, difusas, desfocadas e instáveis, e em alguns pontos quase opacas e sem profundidade. Fechou a janela virtual e virtualmente sentou em sua cama tentando pensar um pouco.

Como não conseguia pensar sozinho, resolveu acessar um banco de memórias remoto para ver se lá já existia alguma ideia pronta que servisse de base para o pensamento que sozinho não era capaz de elaborar naquele momento. Não se tratava de uma pesquisa simples, pois sequer sabia o que procurar. Mas, aquele ato o ajudou a comprovar que de fato algo estranho estava acontecendo, pois o banco de memórias estava inacessível.

Por alguma razão desconhecida, o servidor de cérebros artificiais estava fora do ar. Ficou desesperado, pois acabara de perceber o quanto era dependente do cérebro virtual que ficava hospedado na Central de Pensamentos, e de onde extraía todas suas ideias, já que era incapaz de pensar por conta própria. Foi capaz de constatar naquele momento que sua vida psicológica e emocional dependia inteiramente de um servidor, um computador remoto, uma simples máquina cuja localização desconhecia.

Olhou à sua volta, vasculhando o ambiente virtual onde se encontrava, e percebeu que o cenário construído de acordo com suas preferências começara e se desfazer, dando espaço para que uma cena padrão tomasse seu lugar. Aquilo era um sinal claro de que alguma anomalia estava acontecendo no Centro de Controle de Mentes. Viu então que o amanhecer artificial mostrava-se instável, com a aparência de uma tarde nebulosa, um indício incontestável de anomalias graves no sistema.

Acomodou-se melhor em sua cama virtual, tentando pensar sozinho em alguma coisa. Mas era dependente demais, jamais fizera isso antes, não sabia nem por onde começar; não sabia o que era pensar. Naqueles tempos, era mais prático e comum, pegar um pensamento já pronto, afinal de contas, existiam inúmeros. Era até possível escolher por categoria, status social ou entre os mais comentados e disseminados nas redes sociais naquele dia.

Na escola, todos recebiam links com os endereços dos pensamentos que poderiam usar nas diversas situações do dia a dia, e desse modo, era só copiar e colar, não era preciso aprender, decorar, ou criar nada novo. Sempre fora desse modo, desde que todos foram inoculados com os nano implantes cerebrais, uma tecnologia avançada que simulava um mundo virtual para cada hospedeiro, a partir do nascimento. E naqueles mundos virtuais poderiam viver 24 horas por dia. Eram modelos de mundos definidos de acordo com o status social e função de cada indivíduo, e em alguns casos, construídos sob demanda.

Lembrou de um dia quando a bateria que mantinha o mundo virtual permanentemente ligado deu pane. Felizmente fora um problema passageiro, não durou mais que um segundo. Entretanto, a visão da suposta realidade que tivera fora horrível. Viu-se de repente num imenso recinto fechado e sem janelas, dividido em incontáveis andares em forma de casulos, que alojavam indivíduos deitados, inertes, a exemplo de zumbis em estado de dormência. Felizmente o sistema voltou a funcionar quase num piscar de olhos, e tudo aparentemente não passara de um breve sonho, ou pesadelo, considerando tudo aquilo.

Mas agora o servidor do mundo virtual onde vivia estava com problemas operacionais, e um novo padrão de mundo estava se sobrepondo ao modelo onde já estava acostumado a viver. Se no outro sempre acordava com um dia ensolarado, de uma natureza viçosa e exuberante, nessa versão alternativa, o que se via era uma tarde melancólica, ventos frios, de um tempo fechado e cinzento. Entretanto, a questão mais relevante naquele momento era o fato, agora comprovado, de que ele não era capaz de pensar de forma autônoma, razão pela qual não tinha a menor ideia de como proceder diante de uma situação daquela natureza.

Nesse momento escutou uma voz conhecida, era do gerenciador do sistema operacional, conhecido como Avatar ou Guru, e informava: “Atenção a todos os residentes, o sistema nesse momento apresenta instabilidade temporária, e enquanto realizamos os ajustes necessários, todos viverão durante algum tempo, num mundo virtual alternativo. Logo, um Amparador, Orientador ou Guia virtual, se apresentará para orientá-los dos procedimentos nesse novo mundo, e esperamos voltar ao normal em alguns minutos...”

O seu quarto com janela para um jardim florido à beira mar, de uma permanente e perfumada brisa, logo fora substituído por uma paisagem desolada e melancólica, de um entardecer nublado com pouca luz, um indício de que o sistema procurava com isso economizar energia. Correu para a cozinha virtual e lá encontrou uma simples mesa com torradas de pão transgênico, acompanhadas por chá frio adoçado com açúcar refinado de segunda categoria, um cenário deplorável, muito distante da exuberante variedade de outros dias, onde aquele espaço se tornava exíguo para acomodar tamanha diversidade de alimentos frescos de origem orgânica.

Sua Mente virtual de última geração, com banda ultralarga de recepção, fora substituída por um modelo simples, com baixa resolução gráfica e conexão semidiscada sem filtro contra ruídos. O padrão para demonstrar desespero ele ainda lembrava claramente, por isso não precisou acessar o banco de pensamentos para simular tal sentimento. Se, ao menos soubesse pensar, poderia encontrar uma solução alternativa, algo menos traumático e capaz de ajudar no processo de readaptação. Mas, seu cérebro se recusava a fazer isso, estava atrofiado, e por falta de uso, fossilizado, calcificado, motivo pelo qual, de modo irreversível, perdera por completo esse atributo.

Gritou pela sua mãe virtual, mas não obteve resposta. Dirigiu-se ao seu quarto e a porta estava trancada por dentro. Bateu na porta virtual, e sequer o som do toque na madeira conseguia escutar.

Escreveu num pedaço de papel virtual a frase: “Mãe, você está ai?”, e colocou por baixo da porta. Mas, como a conexão estava lenta a espera parecia uma eternidade. Por fim ela respondeu; foi uma resposta automática, pré-gravada, um simples e lacônico “Positivo!”. Diante de tamanha frieza e falta de emoção, ele concluiu angustiado: “Se nem os aplicativos para simular emoções estão ativos, A coisa parece realmente muito séria...”

O que fazer diante de tal situação? E se o sistema perdesse a identidade virtual de cada um dos conectados? Nesse caso, ele deixaria de existir, perderia seus amigos virtuais, seu emprego virtual, sua vida pessoal virtual, sua família. Percebeu que já se sentia diferente. Isso estava acontecendo porque, certamente, devido ao problema, o sistema fora obrigado a trocar sua personalidade multidimensional original, cujo status social lhe conferia o direito de possuir uma resolução gráfica hiperrealista do ambiente, com som polifônico e sensibilidade de última geração, por uma mais simples, básica, rudimentar, uma opção “Default”.

Era um modelo alternativo, dotado de uma mente primária, sem imagens em alta definição, cuja proposta existencial se baseava em princípios religiosos primitivos, onde a prática de orações, requisições de promessas a troco de penitências ou oferendas, eram direcionadas a santos ou entidades mágicas, sempre que um problema se fizesse presente.

Então tudo apagou, e apenas uma música ambiente se podia ouvir, e no fundo escuro do seu quarto virtual, podia enxergar um pequeno ponto verde piscando alternadamente, e foi a última coisa que viu, antes que surgisse uma mensagem luminosa no mesmo ponto, onde era possível ler: “Aguarde, sistema operacional sendo reinicializado...”

É o pouco do que ainda consegue lembrar, embora de forma difusa, quase sem resíduos na memória, incapacitando-o a diferenciar se aquilo realmente acontecera ou se fora apenas um delírio virtual, uma espécie de engasgo na transmissão de dados, ou sonho como era popularmente conhecido aquele fenômeno. Entretanto, estranho mesmo era aquela forte sensação de que esquecera alguma coisa, embora, ao acordar, tudo estivesse aparentemente normal.

E lá estava outra vez em seu quarto habitual, com janela de frente para o mar, brisa permanente e perfumada, adornada com o cântico dos pássaros e o bater permanente e ritmado das ondas.

Nesse momento, sua mãe virtual, parecendo confusa, entra no quarto e comenta: “Coisa mais estranha, mesmo incapaz de saber se estava ou não dormindo, estou com a clara sensação de que acabo de ter um sonho, ou pesadelo, como se algo esquisito tivesse acontecido há pouco tempo atrás, embora não seja capaz de compreender, ou sequer tentar explicar...”

Moral da História:
A realidade é apenas um sonho lúcido de longa duração...

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