Contos Reflexivos para todas as Idades

A Marca

“A Solução de um problema depende muito da intenção inicial dos criadores desse mesmo problema...”

A Marca

Os problemas humanos são como vírus mutantes que se tornam cada vez mais resistentes e sofisticados à medida que são combatidos com esteróides anabolizantes...

Aquele era um problema muito sério. Talvez fosse o maior já enfrentado por eles, uma vez que, aparentemente, não havia solução à vista.

A ideia era maravilhosa, espetacular, talvez a mais criativa que já saíra de suas cabeças, do crivo daquele grupo de pensadores, doutores em produzir bens de consumo para as massas. Mas, diante daquele impasse, toda aparente confiança e criatividade exemplar daqueles que eram conhecidos carinhosamente como os “Magos das Ideias”, agora, parecia cair por terra.

“Não pode ser verdade”, exclamou o diretor de criação. “Como podemos vender a nossa melhor e mais espetacular criação diante desse extraordinário impedimento, que agora, como um fantasma opositor, surge sem ser convidado? É como se, de repente, tivéssemos disponível todo dinheiro de mundo, e nada nos restasse para comprar...”

E quem era capaz de dizer alguma coisa? O que poderia, enfim, ser dito numa hora daquelas? E apenas das lembranças dos felizes dias, das lucrativas e bem sucedidas campanhas do passado, poderiam agora se orgulhar.

“Vocês têm certeza disso? Olharam em todos os lugares, pesquisaram, exploraram todas as possibilidades, escavaram tudo mesmo?”, perguntou pela décima vez dentro do mesmo minuto, o coordenador de lançamentos de novos produtos, como se as respostas anteriores não significassem aquilo que diziam.

Na verdade, o grupo já tivera um problema semelhante no passado, lembravam bem. Naquela ocasião, depois de esgotarem-se todas as possibilidades imagináveis de incrementos para atualizar um novo produto, descobriram estupefatos que, nada mais era possível acrescentar à nova versão, quer dizer, ao modelo que pretendiam lançar.

Tudo já fora agregado, e o último lançamento, aquele que ora precisava ser substituído, ou atualizado conforme diriam as campanhas publicitárias, já vinha com tantas funções incorporadas, que nem os manuais cobriam todas. Algumas para nada serviam, outras jamais foram testadas, mas, como combustível para ajudar nas campanhas e incentivar as vendas, a estratégia, até então, funcionara com perfeição.

O problema fora resolvido com uma abordagem singular: transformaram o novo produto em dois. Um modelo de Luxo, e outro que chamaram de Neo-Platinum. Na verdade, os aparelhos eram exatamente iguais, exceto pelas cores e disposição dos botões, ou funções, que, apesar realizarem exatamente as mesmas tarefas, agora estavam em locais diferentes do console. E assim, cada um dos modelos, na verdade também idênticos à versão anterior, agora podiam ser lançados como “novos”. Isso lhes daria uma sobrevida entre seis meses a um ano, tempo suficiente para pensarem noutra coisa, talvez, quem sabe, transformar os dois em quatro. Era um caso a ser pensado, para o futuro.

No entanto, agora, o problema era mais sério. Naquele mercado saturado de produtos e marcas para todas as necessidades humanas, onde um novo lançamento ocorria a cada segundo, onde cada novo item obrigatoriamente precisava ter um nome registrado, até como forma lógica para que o consumidor fosse capaz de se referir a ele na hora da compra, uma coisa que já se tornara escassa, agora parecia não mais existir.

Um Nome. Sim, essa coisa era um nome, uma simples identidade para que o produto pudesse de fato existir, e então frequentar as prateleiras de uma loja possibilitando que os compradores e vendedores o identificassem; permitindo que as campanhas publicitárias o promovessem para o consumo das massas. Como divulgar uma coisa sem nome? Como criar na mente do consumidor um desejo por algo que não podia ser chamado de nada?

Como se faz para se chamar uma criança que você não conhece sem que haja um nome a ela associado? Poderia ser como se faz com um gato, com um som labial, um som genérico compreensivo a todos os gatos? Mas, como então chamar um gato específico, do qual você se agradou, em meio a dezenas de outros gatos? Como poderia aquele gato saber que o “chamado” era para ele apenas, e não, para qualquer um daquele bando?

Assim era o dilema que ora se apresentava diante de todos. Como dar um nome a um objeto, se naquele momento, não mais existiam nomes disponíveis para rotular coisa alguma? Sim, era isso mesmo, para se registrar comercialmente um produto, ou uma marca, não mais existiam nomes disponíveis, pois todas, absolutamente todas as combinações de vocábulos e letras, todo conjunto de letras que pudesse se constituir em nome para alguma coisa, enfim, tudo, já havia sido usado, registrado e patenteado.

Nenhuma palavra de dicionário, ou livros, estava mais disponível. Todas já tinham um dono, um produto a ela associada. Letras iguais, diferentes, conjuntos de consoantes, ou vogais, ou letras com números, ou símbolos gráficos, tudo, tudo mesmo, já fora usado, nada mais restara.

“Podemos usar desenhos para lhe dar um nome!”, falou alguém. “Sim, mas na hora de nos referirmos ao produto, precisamos dar um nome a esse desenho, e aí, nada feito, estamos de volta ao ponto zero...”, concluiu outro.

Nesse momento, mais alguém do grupo toma a frente e conjectura em tom reflexivo: “Mas, e se, esse produto... fosse o primeiro produto sem nome?”

“Como sem nome? Você quer dizer, sem um nome comercial, sem uma identificação pessoal, sem um nome de batismo?“ E, reafirma o outro: “Isso mesmo, sem nome de batismo. Simplesmente, sem nome!”

Era sem dúvida a mais fantástica ideia jamais imaginada. Um produto sem nome, o primeiro e único jamais existente, e mais ainda, nenhum outro fabricante poderia reutilizar o mesmo ponto de vista.

Seria, acima de tudo, um produto conceitual; uma criativa proposta artística, uma revolução em seu tempo; uma ideia compatível com a revolução que pretendia ser o próprio aparelho. Já chegaria no mercado de forma revolucionária, inovadora, nem precisava ser uma coisa nova de fato, pois apenas o seu nome, ou a ausência de nome, já o venderia naturalmente como coisa nova.

E assim, nasceu o primeiro, e único, produto sem nome da história; um avassalador sucesso de vendas, e imagine só, estava apenas na versão 1.0.

Moral da História:
O Homem moderno fabrica crises apenas para testar novas soluções...

Leia Também...