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Os Criadores de Problemas
Autor: Alberto J. Grimm [1]

Problemas para alguns, soluções para Outros...

reunião de executivos
Não é o valor do ouro que atrai o homem, mas o valor que esse homem passa a ter quando o possui...

Naqueles dias, onde uma nova mentalidade já fazia parte daquela avançadíssima civilização, onde as pessoas viviam quase eternamente, onde tudo era harmonia, como era de se esperar, todos os problemas haviam sido erradicados da existência humana. E, a princípio, a coisa ia muito bem.

Havia apenas um governo central para gerenciar o mundo, uma vez que todas as nações agora eram consideradas uma só. Um só idioma, uma só moeda, um só pensamento, e assim por diante. Como não existia mais violência, repressão não era mais necessário. Assim não mais existiam forças armadas ou seguranças. Também, como não havia mais miséria nem desigualdade social, não existiam mais políticos, nem organizações de caridade, nem salvadores, nem religiões, uma vez que nada mais existia para ser salvo, ou justiçado.

Por trás de tudo isso, havia apenas o grande Governo, popularmente conhecido como o “Mecanismo”. Ninguém sabia onde era sua sede, nem a aparência que possuía, sabia-se apenas que ele era imortal. Mas fora criado por uma civilização do passado, antes da destruição total, que dera origem a nova. Por isso alguns argumentavam que sua base era no espaço, na órbita da terra, daí o costume de alguns, de erguerem os olhos ou mãos para o céu, sempre que desejavam pedir alguma coisa, por insignificante que fosse.

Era o “Mecanismo”, o governo perfeito. Sua mente era imparcial, sem sentimentos, e por isso mesmo, os pequenos delitos eram sempre julgados de forma justa, imediatamente, sem papelada, sem advogados, sem protelações. Ele conseguia ver todos os cidadãos do mundo simultaneamente. Era capaz de bisbilhotar suas vidas 24 horas por dia, de saber o que faziam, mas sem interferir, a menos que fosse necessário. Nesse caso, interferia de modo exemplar, sem delongas, sem muita conversa, já que ele sabia tudo, e julgamentos eram desnecessários. E nada passava sem que não visse. E a vida prosseguia em seu ritmo corriqueiro.

Mas apesar de tanta perfeição, com o advento da vida eterna, a vida não era uma coisa assim tão maravilhosa, ao menos para os mais experientes, os mais antigos. Naqueles tempos de vida eterna, chamar alguém de velho ou idoso, era pura falta de bom senso, ou estupidez, pois todos só envelheciam – o termo correto era amadurecer - até uma certa idade. Além desse ponto de maturação, que se chamava de processo biológico natural de desenvolvimento físico, o indivíduo simplesmente parava de se desenvolver, ou “envelhecer”, como era conhecido aquele fenômeno, ou processo, agora citado apenas nas cartilhas pré-históricas.

Como ninguém mais morria, ao menos de causas naturais, ou doenças, a procriação natural fora erradicada da face da terra. Agora só os nascimentos “especiais”, as chamadas reposições acidentais, eram permitidos, assim mesmo nos laboratórios oficiais, controlados pelo “Mecanismo”. E todos já nasciam programados para ter uma profissão, um objetivo de vida, uma ideia do que seria felicidade, e certas predisposições ou habilidades previamente homologadas pelo “Mecanismo”, de acordo com a função que o cidadão iria desempenhar em sua região nativa.

Nesse tempo, a humanidade, apesar de não mais ser dividida por nações, apesar de possuir um só gerenciamento central, ainda precisava de gerentes regionais, até como forma de organizar melhor as ações para aqueles “bairros”. Assim eram chamados os países, já que geograficamente, em relação ao problema das fronteiras que separava uns dos outros, a coisa não mudara muito. Assim havia o bairro europeu, o americano, o africano e assim por diante, e cada um com o seu Representante. Eventualmente, o “Mecanismo” reunia todos aqueles representantes dos bairros da humanidade, para traçar novas metas de ação, projetos mais voltados à qualidade de vida material, ou às vezes, mental.

E numa dessas reuniões, ele ouviu, na verdade ele já sabia de tudo, que as pessoas começavam a se entediar, com a sempre inflexível repetição das coisas da vida. Ocorre que passados milhares de anos, algumas delas, começavam a se dar conta de que nada de novo acontecia em suas vidas. As novidades eram apenas velhos hábitos e costumes, velhas práticas levemente modificadas ou maquiadas, adaptadas aos novos tempos para dar a sensação de “novo”, e essa “constatação”, de que tudo era uma entediante repetição, cada vez ficava mais clara, perturbando a todas de um modo avassalador.

Passados milênios e vivendo numa mesma humanidade, dentro dos mesmos e velhos hábitos disfarçados de novos modismos, ele, o ser humano, começa a se enfastiar de tudo, e surge o tédio, o que se torna um problema para o “Mecanismo” resolver. Sim, porque as pessoas, em suas preces particulares, agora estão incluindo essa ressalva: “Livre-nos do Tédio de cada dia...”, e algo precisava urgentemente ser feito para evitar a insurgência.


Como resolver esse problema, era a pauta daquela urgente reunião. Os representantes dos “bairros” em volta de uma mesa, e no meio daquela sala, apenas a voz do “Mecanismo” eles podiam ouvir, e com ela livremente interagir.

E o Mecanismo, que a tudo ouvia, e tudo sabia, sobre todas as coisas e pessoas, começou dizendo: “Lembro que na pré-história, eles rogavam para se livrarem dos problemas de cada dia. Mas, agora, parece que não ter problemas tornou-se um pesadelo para todos. E ansiosos por descobrirem uma forma de tornar suas vidas menos apáticas, rogam pela volta dos problemas, vá entender...”, acrescentou bem humorado o “Mecanismo”.

Depois acrescentou: “Fundaremos então escolas que ensinarão as pessoas a criarem seus próprios problemas, a serem infelizes. Isso vai requerer também a criação de Escolas que as ensinarão a resolver estes problemas, e a criarem outros. Também, as pessoas não mais viverão eternamente, e ficarão doentes. Com essas medidas simples, já terão um montão de problemas para encher os dias que agora são considerados “vazios”. Numa segunda etapa, dividiremos o mundo em países separados, cada qual agora com seu próprio governante, e não mais haverá o poder central. Voltarão os políticos, e os corruptos, e enganadores, e exploradores do povo, e com o tempo, a depender da pressa e necessidade de cada um, logo o caos será restaurado aos seus dias, talvez numa proporção maior que antes. Assim, poderão ser infelizes, mas sem o referido tédio que a todos incomoda, enquanto viverem, já que não mais serão eternos.”

"Que assim seja feito!”

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Autor: Alberto J. Grimm
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
email: alberto.grimm@gmail.com


Notas sobre O Autor:
[1] Alberto J. Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.
O autor é Doutor em Filosofia e graduado também em Publicidade e Design Gráfico.

Observação: O autor não possui Website ou página pessoal no Facebook ou em qualquer outra Rede Social.

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