Contos Reflexivos para todas as Idades

Os Depredadores

“Parece que o homem moderno se especializou em construir problemas a partir de suas mais criativas aparentes soluções...”

Os Depredadores

Cometer um erro é relativamente fácil, permanecer nele, mais ainda...

Comentário informal de um agente publicitário: “Se o povo soubesse o que quer estaríamos perdidos...”

A ideia era bastante simples, recolher o lixo e transformá-lo em um produto economicamente viável, uma nova fonte de lucro. O problema é que aquele não era um lixo comum; tratava-se do lixo do lixo, ou seja, aquele refugo que já foi reciclado muitas vezes; as sobras das sobras, coisa imprestável, aquilo que representava uma ameaça, um fator de degradação até para o próprio lixo.

E se no início o descarte desse tipo de dejeto, a escória da escória, não parecia uma questão digna de atenção, uma vez que existiam muitas áreas disponíveis para aterros sanitários, logo, essa prática seria revista. Ocorre que, com a ampliação dos limites urbanos nas grandes cidades, uma condição natural demandada pela superpopulação, estes preciosos espaços foram requisitados a preço de ouro pelos ávidos especuladores imobiliários.

Eram espaços nobres demais, indignos para abrigar o lixo dos lixos, por isso, sem mais aterros disponíveis para acomodar tão indesejável inquilino, uma urgente solução precisava ser criada. Afinal de contas, o lixo crescia todos os dias, enquanto que o espaço disponível para abrigá-lo, não. E a população alheia a tudo isso contribuía como podia para agravar ainda mais o problema, ou seja, gerando mais lixo. Ninguém parecia disposto a deixar de trocar seus objetos considerados obsoletos, pelo modelo da moda, apenas por causa de um “alienado” e “insensato” movimento ecológico ou ambientalista.

“Por que exatamente eu tenho que pagar o pato?”, era a questão que corria de boca em boca. E ninguém queria sequer ouvir falar no pato, muito menos pagar o pato. A indústria do consumo por sua vez, dizia fazer sua parte. “Temos centros de reciclagem para todos os nossos dejetos, e tudo tem um destino certo, tudo homologado e certificado pelos órgãos governamentais...”, afirmavam. E tinha mesmo, o lixão, o mesmo monturo que agora se tornara um problema sem uma aparente solução.

“Trata-se de uma questão de sobrevivência para a própria indústria. Logo, no ritmo que estamos indo, ninguém vai querer comprar mais nada, e isso simplesmente porque não terão mais onde descartar os produtos que deveriam ser substituídos. E, talvez até seja criada uma lei que obriga cada cidadão a pagar uma taxa apenas para ter de volta o direito de jogar seu lixo fora...”, desabafou um dos chefes do comitê especialmente criado para encontrar uma saída para o dilema.

E alguém teve a ideia de usar esse refugo para fazer tijolos, os tradicionais, que seriam usados em casas populares patrocinadas pelo governo. Ocorre que, na feitura de cada tijolo, o dobro do lixo reciclado era gerado, o que tornava aquela solução quase um ato terrorista.

E surgiu um novo movimento, o de racionamento do lixo caseiro. Agora, cada cidadão era obrigado por lei, a gerar uma cota diária de lixo, cota esta flutuante, estipulada pela bolsa de valores, que variava de acordo com a disponibilidade de novos espaços naqueles já saturados aterros sanitários. Com uma predisposição inata para criar tanto lixo, logo, um antigo mito citado nas antigas escrituras voltou com grande força ao meio social.

Afirmava esse mito dos antigos, que teria o homem se originado como criatura, como ente biológico e racional que era, a partir da costela de uma barata geneticamente modificada, daí sua compulsão natural para transformar seu planeta num imenso santuário de escória. Entretanto, isso não era um consenso no meio científico, pois alguns estudiosos diziam tratar-se na verdade da costela de um rato, o que daria no mesmo, já que ambos têm no lixo sua ideia de paraíso.

Detalhes a parte, o problema persistia e precisava de uma ação imediata e enérgica da parte do estado; da parte de todos, ou o caos tomaria conta de tudo. Na verdade o caos assumiria seu posto apenas oficialmente, porque na prática, ele já era o regente de todos os grandes centros urbanos.

“E se colocássemos em caixinhas decoradas, ou coisa semelhante, de vários tamanhos, esse refugo do refugo, em sua forma desidratada, o que não geraria mais lixo? Seria apresentado ao mercado como um produto revolucionário; um item com design personalizado que todos deveriam ter...”, sugeriu alguém.

Era sem dúvida uma boa ideia. Na verdade excelente, uma vez que, apesar do pequeno volume de cada caixinha, se vendida aos milhares, ou milhões, resolveria de forma criativa o problema. Sem contar que, cada feliz possuidor, sem o saber, faria de sua própria casa um pequeno depósito de lixo, o que seria até uma espécie de vingança poética do lixo. E ainda, como produto, a depender do marketing e da abordagem publicitária a ser empregada, poderia se tornar um artigo de luxo, item colecionável, de exportação, levando discretamente a bomba oculta para outras e distantes paragens.

Seria fabuloso se a coisa lograsse êxito, pois a indústria teria em mãos a mais revolucionária forma de ganhar dinheiro, e com uma característica única: a matéria prima, além de abundante e gratuita, os fornecedores pagavam para se livrar dela. Seria a primeira vez na história da economia que um segmento produtivo ganharia dinheiro para obter a matéria prima, e também ao vender os produtos fabricados a partir dela.

“Senhores o futuro é extraordinariamente promissor. Se a abordagem publicitária vingar, ganharemos rios de dinheiro vendendo o lixo que nem o lixo aceitaria. Agora, o mais importante, é que ainda faremos com que seus felizes proprietários se sintam realizados com isso. Explorando um pouco mais a ideia, por que não usarmos também para fabricar tijolos decorados? Não o modelo tradicional, mas do tipo que nem de pintura adicional irá precisar. Será uma revolução, e um excelente meio de nos livrarmos de ainda mais lixo...”

O projeto estava definido. Uma linha inicial de dois produtos seriam os carros chefes da empreitada. Os Cubinhos da Felicidade, em cujo interior depositariam o lixo prensado, seriam ricamente decorados por fora, com símbolos tradicionais da sorte ou estampas variadas, até ao gosto do freguês. Teriam aparência de coisa sólida. Era um objeto de decoração que deveria ser colocado em prateleiras, estantes, pedestais, sempre à vista, ora como símbolo de status, ou apenas indicando que aquela família estava em dia com as novas tendências da moda.

Os Cubinhos seriam hermeticamente fechados, lacrados, invioláveis, inquebráveis, quesitos obrigatórios e um meio necessário para que seu conteúdo nunca fosse descoberto. E isso ajudaria muito aos criadores das campanhas publicitárias na promoção do produto. Por fora brilhantes, polidos, cantos arredondados ou apenas suavizados; alguns com cheiros especiais, de fato, um objeto que logo se tornaria um artigo de luxo, uma evidência de status social.

De tamanhos variados, o protótipo foi disputado quase às tapas pelos próprios idealizadores, e isso já era um claro indício de como seria a aceitação lá fora. Enquanto que os tijolos decorados, ou simplesmente coloridos, seriam apresentados como um conceito revolucionário da nova arquitetura. Chegariam ao mercado em dois tamanhos: Tijolo inteiro e meio tijolo, até porque não dava para quebrá-lo, caso o pedreiro precisasse fazer um ajuste em sua obra. Deu tão certo que precisaram criar várias unidades fabris adicionais apenas para esse produto.

A abordagem de marketing dos Cubinhos Decorados foi singular. Pessoas famosas mostravam os seus exemplares, e debates foram organizados para explicar o novo fenômeno, e aquilo passou a representar uma espécie de perfil do seu feliz possuidor, uma espécie de símbolo que revelava sua personalidade, seus gostos pessoais, o gabarito de sua posição social. Designers eram especialmente contratados para a criação de modelos exclusivos, coleções limitadas, edições de luxo. E o mercado antes inexistente para os dois produtos, prosperou sem que houvesse registro histórico anterior de fato semelhante.

Cresceu tanto que a matéria prima ameaçou ficar escassa. Os produtores de lixo do lixo já não mais pagavam para se livrar de tão valiosa mercadoria. E a coisa se inverteu. A lei que obrigava os cidadãos a produzirem pouco lixo foi revogada e substituída por outra que agora incentivava a produção.

Com lixo agora valendo tanto dinheiro, degradar como nunca o meio ambiente, se tornara o mais rentável empreendimento da história de todas as civilizações, sendo mesmo considerado pelos governos, um ato de cidadania e atitude patriótica.

Foi quando surgiram as campanhas de incentivo à produção da tal matéria prima, e uma delas dizia assim: “Se agora o lixo é um amigo do homem, por que não transformar o mundo numa enorme lixeira, onde poderemos, enfim, viver em harmonia, e tudo isso num ambiente digno do nosso status?”

Moral da História:
Criar uma solução para um problema sem antes criar uma solução para erradicar a causa desse problema, é como aquele homem que tenta resolver o problema das goteiras do seu telhado apenas com o incremento de mais baldes coletores.

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