Dicas para Autorreciclagem

As Crianças e a Timidez

Dicas preciosas para você aprender a tratar a Timidez, um problema tão disseminado em nossos dias e ignorado por pais e educadores, embora muito presente na vida de crianças e jovens...
"Um educador que ainda não aprendeu a controlar as próprias emoções, como poderá ensinar aos seus educandos o significado do autocontrole?"
As Crianças e a Timidez

Podemos ensinar vícios ou virtudes, ambos são processos cognitivos; ambos poderão fazer parte da personalidade do aprendiz sob nossos cuidados...

Examinando a raíz primária da Questão...

Na verdade a timidez não deveria existir, mas a partir do momento que se torna um rótulo social, sairá à procura de vítimas. A criança tímida, mesmo que inicialmente possua um temperamento extrovertido, aprendeu a ser assim por força de circunstâncias alheias à sua vontade. Trata-se de mais um comportamento pré-fabricado, dentre tantos concebidos com a intenção de rotular, categorizar, coreografar e identificar os indivíduos.

Ninguém nasce medroso ou corajoso, extrovertido ou introvertido, uma vez que os potenciais inatos ou idiossincrasias de cada um precisarão de estímulos externos para se fixar como atributos ativos, visíveis, de uma personalidade. Todos, por exemplo, possuem a capacidade plena da autoexpressão, desde que sejam treinados adequadamente. Alguns o conseguem com maior facilidade, outros precisam de mais empenho, e nos dois casos, o temperamento atua como atributo complementar, mas nunca como fator único, determinante. Nesse caso, confunde-se desqualificação com timidez.

O Temperamento é uma predisposição inata e interna da fisiologia psicológica e que atua como coadjuvante no desenvolvimento do comportamento externo. Influi mas não é uma condição determinista. A força da mesologia tem mais peso. Uma criança pode ter o temperamento recatado e por força da mesologia acreditar que não é. A mesma regra se aplica o inverso dessa condição.

Uma qualificação não passa de um conhecimento capaz de se transformar em ação, manifestação de habilidade ou hábito, e sempre através de uma personalidade. Pode ser um mau ou um bom conhecimento, e ambos são bases para esse aprendizado, seja negativo ou positivo. Um vício, que é um hábito, é também uma qualificação, que embora negativa, também foi adquirida e potencializada através do uso. Nas pessoas, o temperamento tem o potencial de influir diretamente na afirmação de um vício ou mania, postura negativa, ou mesmo um comportamento ético.

Mas esse potencial está sempre à espera de uma oportunidade para se manifestar, e esta chancela pode ser a influência mesológica. Os exemplos práticos que possam servir de gabaritos para o indivíduo serão as peças moduladoras, as chaves mestras para que esses agentes condicionadores acabem por se fixar como atributos, sinaléticas, aspectos definitivos da personalidade.

Algumas pessoas possuem uma natureza pacata, mais reservada e reflexiva. Entretanto, essas prerrogativas não comprometem sua vida pessoal, o que inclui o desempenho acadêmico, profissional e relações humanas. Na verdade esses atributos até favorecem a criatividade, autodisciplina e organização. De fato, a extroversão nunca representou uma garantia de sucesso para ninguém. Aceitar que as pessoas possuem temperamentos e preferências singulares poderia resolver boa parte das psicopatologias modernas. Trabalho e esforço pessoal ainda é a chave para a conquista do espaço de cada um.

Em nosso caso estamos nos referindo ao estado de timidez patológica, aquela condição onde o jovem se torna arredio, recluso, com medo de pessoas e até de sair às ruas. O indivíduo naturalmente pacato, embora equivocadamente seja categorizado como tímido, não faz parte desse grupo.

A timidez é uma forma de medo. Na maioria das vezes a criança tímida está apenas fora do seu ambiente de afinidades, deslocada por não se identificar ou manter interesses comuns com outros grupos. Sendo obrigada a conviver com padrões que violam sua liberdade de expressão, se torna reservada, introvertida.

Aprendendo a enxergar a coisa com olhar imparcial...

Um comportamento consciente é uma forma de qualificação, uma vez que para se fixar precisa de instrução, exemplos metódicos, e assim por diante. E comportamentos conscientes, uma criança pequena, ainda não possui nenhum. Comportamento consciente é diferente de temperamento inconsciente. Uma criança quieta por temperamento pode ser tornar extrovertida por comportamento; a mesma regra se aplica de modo inverso.

As predisposições inatas estão adormecidas no inconsciente e poderão ou não ser ativadas, potencializadas, e tudo isso irá depender do poder de sugestão recebido do meio onde se vive. Esse é o fator de reconfiguração da personalidade racional. Comportamento é instrução, conhecimento, sugestão de uso. Temperamento é instinto, uma predisposição natural para a fixação de alguns processos psicológicos a partir de estímulos externos.

É o caso onde a criança tem uma vocação para se realizar em alguma coisa e é forçada pelas circunstâncias a adotar outra postura, esta contrária às suas idiossincrasias. Surge assim uma criança com a autoestima baixa, frustrada.

Uma criança pode ter temperamento forte, mas ainda assim precisa da aprovação dos adultos para autenticar seus atos e posturas. E nesse processo de "autenticação ou aceitação" é que surgirão muitas psicopatologias. O sentimento de Rejeição é uma delas. O tímido se sente rejeitado, sem valor, não teve a autoestima, que já era fraca em seu temperamento original, potencializada pelo processo de autenticação dos adultos ou demais indivíduos que faziam parte do seu grupo de convívio social.

Timidez ou extroversão existe em comparação com alguma coisa, e tende a refletir um estado de espírito onde o comparado possui ou não algum status ou atributo, mas sempre em relação com outros indivíduos. E timidez é um rótulo social. Numa comunidade de tímidos ninguém seria chamado de tímido por uma razão muito simples: "Não existiria um gabarito para se proceder a medida". A mesma regra vale para todas as demais posturas psicossociais.

A timidez é um estado mais frequente entre indivíduos com baixa autoestima. E isso primeiramente surge dentro de casa, a partir do convívio com pais e irmãos. Baixa autoestima é aquele sentimento de impotência, de incapacidade crônica para se autoafirmar, mesmo que o contexto seja apenas dar uma opinião. E tudo começa quando os pais não escutam seus filhos, não valorizam suas aspirações, dúvidas, angústias pessoais e realizações.

O estado de timidez infantil ganha forma quando exigimos dos nossos filhos comportamentos contrários às suas predisposições inatas. Em conflito consigo mesmo, a criança tenderá a se encolher, sentindo-se incapaz de contestar os pais, e sem argumentos para criar e afirmar sua identidade vocacional. A identidade vocacional é aquela com a qual a criança se sente naturalmente bem, livre para criar, motivada, e nesse aspecto tem a autoestima sempre elevada.

O Imprescindível papel de Pais e Educadores...

Durante a avaliação escolar, o educador, diante de uma criança de qualquer natureza, deve elogiar sim, não um autor, mas a qualidade geral dos trabalhos daquele grupo, valorizando o empenho de todos, sem classificar como menos ou mais, mas como igualmente importantes quando agrupadas como resultado final.

A timidez é um estado psicológico que requer ajustes, mas para isso precisamos nos aproximar do tímido. Restaurar a segurança ou confiança perdida dessa criança ou jovem, primeiro começa pela compreensão de parte do pai ou educador, de que aquele sentimento merece atenção e consideração. A demonstração de solidariedade em relação ao jovem cria a empatia necessária para criação de um canal de diálogo.

Mas aquele jovem só dará acesso ao pai ou educador se confiar em suas intenções. Essa confiança não se consegue com palavras, mas com exemplos através do comportamento pessoal. Lembre-se, uma criança insegura é sempre mais atenta que as demais.

A aceitação é a chave do problema. Expor a criança de forma discreta aos seus medos pode ser a solução definitiva. Por isso ela precisa de apoio, incentivo e aprovação. Corrigir uma postura negativa com sermões depreciativos é como tentar apagar o fogo com mais combustível. Insegurança é um sentimento de incapacidade que se corrige quando a criança, através de ações práticas percebe-se como capaz.

Na mente da criança insegura predomina a sensação de que algo vai dar errado. Provar para ela através de ações práticas que nem sempre é assim, é o começo da solução. Delegar-lhe tarefas mais complexas, a solução. No entanto, durante esse processo, o acompanhamento presencial é imprescindível. Sem esse aporte o jovem não ganhará a devida confiança na consecução de suas atribuições.

Descobrir e usar formas que façam despertar a autoestima adormecida na psique de uma criança tímida é tarefa de todo pai ou educador. Educador não se compara com o educando, e aprende a partir daquilo que ensina. Um tímido, na maioria das vezes, foi criado pela corrupção e violação de sua vontade, por força de um posicionamento contrário à sua vocação. Introduzir em sua vida o senso crítico ajuda no processo de duvidar de tudo que ouve. Fazer a criança sentir-se útil e importante é um grande passo nessa direção. Descobrir grupos com os mesmos interesses ou afinidades tenderá a resolver a questão.

Conclusão...

Um tímido se cura ao perceber que é capaz e está em sintonia com seu grupo de afinidades. Quando comprova que seu trabalho tem valor, assim como suas opiniões e preferências. Ficará bem ao sentir-se integrado com o grupo e em ressonância com os objetivos semelhantes. Mas nada se consegue sem esforço, disciplina e paciência, afinal de contas, trata-se de um processo de reconfiguração mental.


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