Dicas para Autorreciclagem

As Crianças, o Adulto de Amanhã

Ensinar a Pensar, eis o verdadeiro objetivo da Educação...
"Para um educador consciente, ensinar não é obrigação, mas, antes disso, um prazeroso exercício de autoaprendizagem..."
As Crianças, o Adulto de Amanhã

Um pouco de atenção no presente é capaz de transformar a criança de hoje em um adulto decente...

Examinando a Questão...

Quando não estamos presentes na educação dos nossos filhos, não tardará nossa jornada em busca de algum culpado para justificar a razão dos seus comportamentos patológicos. Mas, infelizmente para os pais, nesse caso, não há como justificar que o resto do mundo seja culpado de alguma coisa. Poderão criar as mais elaboradas desculpas, explicações esculpidas pela mais convivente lógica, ou mesmo alegar falta de tempo, uma vez que trabalham em excesso para prover o sustento da família.

Mas, não há como fugir da realidade, e esta é simples: os pais ou tutores são os verdadeiros responsáveis pela conduta de suas crianças, afinal de contas, estas não vieram ao mundo como cães sem dono.

Se não conseguem ter tempo para cuidar delas, isso faz parte do problema criado por eles mesmos. Como podemos exigir do mundo coerência para o modo de pensar e agir dos nossos filhos, se nós mesmos nunca lhes mostramos como se faz isso? Uma criança criada dentro de um lar atencioso, com pais ou tutores carinhosos, respeitadores e amigos, só por obra de um trágico e caprichoso destino, poderá ter uma mente nosográfica ao crescer.

As tentações do mundo lá fora, seus vícios e manias, existem primeiro dentro de nossas casas, e se manifestam para as crianças através de nossas posturas. É o modo como lidamos com tudo isso, a nossa forma de expressão diante dos nossos filhos, eis o fator que fará toda diferença.

Essa pedagogia involuntária – supondo que os pais não tenham consciência de nada disso – é a cláusula que irá determinar suas futuras aspirações. E a influência lá de fora servirá apenas de complemento, referência negativa ou positiva, um consistente reforço, para os traços já adquiridos em casa. Sendo criados em um ambiente de atenção, cuidados, compreensão e muito diálogo, nada do mundo lá fora tenderá a influenciá-los de forma negativa. Se ainda assim caírem em tentação, mais uma vez, será porque uma correta e qualificada educação preliminar não tiveram dentro de casa.

Não se trata apenas de suprir conforto e lastro material, mas antes disso, de prover com atenção e respeito, afinal de contas, trata-se dos nossos filhos, uma herança que deixaremos para o mundo, na forma de uma contribuição negativa ou positiva.

Muitas vezes avalia-se o comportamento patológico de jovens que tiveram uma boa vida, família estruturada e estável, boa escolaridade, pais aparentemente justos que lhes supriram com todas as necessidades materiais, e ainda assim, se desgarraram para o mundo dos excessos e delitos, drogas ou criminalidade.

A questão é: Como afinal de contas é criado o repertório cognitivo de um jovem? Não o cérebro orgânico, mas o conteúdo que está gravado lá dentro, aquilo que deu forma a sua personalidade? De onde virão as influências patrocinadoras de do seu comportamento, item que juntamente com suas idiossincrasias darão os nuances definitivos de sua individualidade? Do mundo lá fora, dos amigos, de sugestões da sociedade e dos costumes? O que afinal de contas influencia esse jovem a ponto de determinar o que deverão ou não fazer de suas vidas?

O Ato de Aprender contempla em primeiro lugar ter a firme convicção de que não sabemos...

Sabemos que uma criança não nasce com uma personalidade pronta, mas apenas com predisposições inatas, que chamamos de temperamento. Esse atributo pode interferir no seu processo cognitivo, mas nunca determinar todas as suas posturas. Então, pela lógica, só podemos deduzir que tudo isso ocorre no intervalo entre o período que desce do berço e aquele que vai às ruas. Mas, como essa criança recém chegada ao mundo apreende e assimila os caracteres que irão constituir sua personalidade, onde estão incluídos seus gostos, desejos, amarguras, enfim, todo repertório cognitivo que molda o seu caráter?

Se uma criança aprende através da imitação, logo ela precisa de um exemplo prático para reproduzir. Isto é, um ou vários espelhos para se guiar, e destes, finalmente, vai tirar aquilo que de acordo com suas tendências ou não, usarão como gabarito ou tutorial para construir seu modo de ser. Não há outra maneira, mas existem muitas formas de como tudo isso, como força indutora, irá entrar em sua vida.

Elas não poderão gostar das coisas lá de fora, se já não tiverem uma predisposição psicológica ou força sugestiva para que tais influências atuem em suas mentes como fonte de inspiração. Não se trata de atração involuntária ou necessidade física por uma ou outra coisa do mundo, pois o que existe de concreto, é uma mente, um cérebro, a deduzir, a avaliar, tudo aquilo que pode lhe proporcionar alguma vantagem, compensação ou prazer. Criança não é burra, apenas ingênua.

No cérebro, é lá dentro que estão suas memórias, suas lembranças, tudo aquilo que aprendeu a odiar ou preferir, a rejeitar ou idolatrar, e tudo isso, num primeiro momento, é incorporado de acordo com suas tendências inatas. No entanto, num segundo momento, isso ocorre à revelia do seu temperamento. E cada coisa que existe lá dentro ocorre por força de instrução, do condicionamento externo. Ou seja, ali não há nada sem uma origem, sem um mestre, qualificado ou não. E tais influências não são coisas inatas, nem uma condição física que não esteja sob o domínio da vontade, como acontece, por exemplo, com uma corrente sanguínea, que flui, sem depender do nosso desejo, credo, status social ou opinião.

A questão que devemos considerar então é essa: Como surgem as predisposições, não os traços de tendências inatas e inconscientes, mas os conscientes, tais como os desejos lúcidos, preferências, antipatias ou empatias, itens que darão lastro a personalidade dos nossos filhos? Afinal de contas, eles não nascem com nada disso. Será então coisa instintiva, como é a capacidade de sentir fome e frio, ou ao contrário, apenas resultado de um aprendizado através da imitação, a partir de um modelo concreto que lhes sirva de exemplo?

Para diferenciar uma coisa instintiva de outra adquirida através do hábito é simples, basta separar aquilo que é movido pelo desejo ou vontade, daquilo que não é. Por exemplo, sentir fome, dor, chorar no berço ao sentir desconforto, e assim por diante. Nada disso depende de nossa vontade, ocorre à revelia do nosso querer, logo aí não há a interferência do pensamento, isso é instinto, coisa irracional, dotes da natureza primata.

No entanto, se somos capazes de escolher ou comparar, preferir ou rejeitar, então é coisa do pensamento, faz parte das memórias adquiridas, acumuladas através de nossa experiência. E essa experiência inclui as influências que assimilamos e copiamos para usar como modelo de conduta.

Por fim...

Perceber que os vícios do mundo, a cada geração, são repassados para seus residentes, nesse caso nossos herdeiros, esse deveria ser o primeiro passo. Aceitar que esse é o modo usado como gabarito para condicionar as futuras gerações é compreender o processo da coisa.

Feito isso, como educadores, assim como o agricultor que pretende separar os grãos sadios dos incapazes de germinar, devemos avaliar e refletir sobre tudo aquilo que não mais nos serve. Aliás, até que serve, mas apenas como referência ou exemplo para ilustrar aquilo que não presta. Se não presta não mais deveria ser replicado ou presenteado como espólio para nossos descendentes, como até hoje o temos feito.

Não podemos mudar o mundo, e isso é tão óbvio quando o ar que respiramos, mas podemos sim, transformar o indivíduo que está sob nossos cuidados. Ele é uma entidade que irá viver nesse mundo, com todas suas distorções, e poderá ser um multiplicador de toda essa confusão, ou não. Trata-se de um processo individual, lento, trabalhoso, mas necessário, se quisermos assegurar um desdobramento profícuo para sua trajetória existencial.


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