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Como Disciplinar uma Criança de forma Natural e sem Traumas

Parece que a proposta ou modelo de disciplina que tentamos replicar em nosso mundo precisa ser revisto com urgência sob o risco de nos tornarmos cúmplices na concepção de uma geração inteira de indisciplinados crônicos...
"O sentimento de Autodisciplina e Auto-organização começa a surgir quando o desejo por méritos para gratificar uma tarefa realizada deixa de existir..."
Como Disciplinar uma Criança de forma Natural e sem Traumas

O especialista em educação que não se tornou especialista na ciência da vida não pode ser chamado de educador, mas lhe convém o título de inimigo da boa cognição...

Um Exame inicial em torno da Questão...

Uma criança não possui disciplina, ordem interna ou externa, nem segue regra alguma. As regras foram criadas para padronizar o modo de agir dos adultos, coisa que para ela ainda não faz o menor sentido. Ocorre que numa sociedade organizada, todos precisam seguir as regras, até como uma forma consensual de haver entendimento, e para que não se estabeleça o caos nas relações humanas. Sem essa organização, as leis de uma mesologia ou nação seriam simples tratados teóricos e inúteis.

Como ela ainda não possui identidade, preferências, ideais, compromissos sociais ou objetivos de vida, toda sua energia está concentrada apenas na sua imensa disposição para aprender. Aprender qualquer coisa; seja isso desordem ou ordem. E nesse processo também aprenderá a ser impaciente ou paciente; a valorizar ou ignorar aquilo que entra pelos seus ouvidos.

Por isso mesmo sua energia precisa ser direcionada da forma correta, disciplinada e equilibrada para ações práticas que lhe serão úteis, e com menor intensidade, às atividades destinadas apenas a gastar o tempo e queimar energia. Nessa etapa, a depender do nível de conscientização do adulto que a assiste, ela aprenderá a ser naturalmente disciplinada, condição necessária para que se torne auto-organizada.

O modelo recreativo tipicamente praticado, apenas serve de meio para aumentar a indisciplina infantil, uma vez que se apóia na falta de objetivos cognitivos claros, de metas diante das quais ela seja capaz de assimilar alguma coisa proveitosa ao seu aprimoramento, atividades que favoreça o desenvolvimento das habilidades necessárias ao seu progresso, motor e mental.

Sentar à frente de um aparelho de televisão e passar horas e horas a assistir programas infantis, quando ali, nada de útil lhe será acrescentado, servindo apenas de incentivo à indolência, preguiça e sedentarismo, é insensato e demonstra uma óbvia falta de interesse na correta educação daquela criança.

Nessa condição ela aprenderá os primeiros passos para a autoidentificação com manias desnecessárias, vícios e hábitos patológicos, processos sem nenhum valor educativo ou moral. Qual será a qualidade de sua cognição ao final de tudo isso?

Por dentro das causas mais comuns que alimentam o Problema...

A disciplina de cada um existe quando aprendemos a colocar ordem em nossas atividades e compromissos, e em qualquer tarefa que nos propomos a realizar. Disciplina não é cumprimento de horários, obrigações ou aceitação de certos padrões. Isso não passa do comprometimento com as regras por receio de retaliações, o que passa longe do sentido de organização. Organização é a completa ausência de motivação para fazer alguma coisa em troca de méritos.

A motivação pessoal sem o desejo explícito por compensações no cumprimento de uma tarefa, pelo simples prazer de ver um trabalho, depois de iniciado, concluído, isso acaba por criar no indivíduo uma espécie de ordem interna, um sentimento de organização espontâneo. Desse desejo consciente de ver seu trabalho realizado poderá surgir a autêntica disciplina.

Esta ordem interna se aprende, quando lhes explicamos porque devem iniciar e concluir qualquer tarefa, por mais irrelevante que possa inicialmente parecer. Mesmo que seja o ato de calçar uma meia. Isso deve ficar claro para ela, o porquê está fazendo aquilo, qual a função, o que se espera como resultados, quais os benefícios daquela ação.

Se desde o principio explicamos a ela tais coisas, a disciplina forçada, aquela motivada pela prática de castigos e recompensas, torna-se coisa sem fundamento, desnecessária. Torna-se até um momento agradável aquele hábito esclarecedor, quando toma conhecimento dos motivos da realização de qualquer tarefa.

Assim a criança, de forma lúdica, pratica a coisa sabendo por que o faz. Informada desse fato, o qual poderá comprovar na prática, estará autoconsciente de seus deveres, efeitos e causas de suas ações. Isso favorece o desenvolvimento do senso de organização, que é o caminho natural para a autodisciplina.

Nosso condicionamento nosográfico não mais permite que pensemos como uma criança. Podemos estudar seu comportamento e traços do seu temperamento, mas seu modo de pensar, definitivamente não. Estudar seu comportamento não é a mesma coisa que saber como ela pensa.

Pensamos de acordo com nossas experiências e perfil intelectual, e não sabemos qual é o tamanho ou qualidade do repertório cognitivo de uma criança. Não sabemos aquilo que para ela é ou não lógico, relevante e prioritário. Só podemos especular sobre o que supostamente ela pensa, mas saber de fato, jamais.

Descobrir as preferências de alguém não significa que saibamos como pensam. O modo de pensar, determina, além das escolhas, aquilo que se imagina obter após essa escolha, e isso é impossível de se determinar através de deduções ou especulações, especialmente quando de trata de uma criança. Seu acervo de informações é mínimo, e descobrir qual a lógica que emprega em seus processos de escolhas é para nós uma tarefa sumariamente impossível.

Colocando as mãos na Massa...

Mas, podemos conhecer ou antecipar o resultado de cada uma dessas escolhas, o que para nós é uma vantagem. Isso ocorre porque, ao contrário dela, já temos experiência de vida. Explicar o que pode acontecer após cada escolha, esse é o mais acertado caminho para ajudá-la a criar uma lógica interna ordenada, e tudo isso deverá ser reforçado através de exemplos. Ao comprovar aquilo que falamos, terão certeza de que estamos do seu lado.

Assim aprenderá que, a cada ação praticada, invariavelmente uma reação se mostrará como resultado. Aos poucos será capaz de deduzir por conta própria o provável desdobramento de cada ato praticado. Essa é a base do senso de disciplina. Planejamento é a coisa resultante de tal aprendizado, e sem planejamento, que é ordem, nunca poderá existir disciplina.

O Sentimento de uma tarefa cumprida aumenta sua autoestima. No entanto, inicialmente, um adulto de sua confiança deverá colocar o ponto final no cumprimento de cada tarefa que lhe tenha sido delegada. E assim ela aprenderá como começar, e finalmente, quando deverá dar por encerrado algo iniciado.

O elevado sentimento do ser capaz de iniciar, desenvolver e finalmente concluir uma tarefa, e tudo isso graças ao seu esforço e dedicação pessoal, deverá ser sua contínua fonte de motivação. Nesse caso, as recompensas usadas como meio para forçá-la a cumprir com seus compromissos, deixam de ter valor.

Uma criança que dependa do estímulo de prêmios por tarefas cumpridas, mentalmente, jamais será criativa, nem solidária, nem comprometida com o bem estar social. Esse jovem ou adulto se relacionará com seus pares com interesse apenas na troca de favores pessoais, e ali, entre eles, nunca haverá sentimento de cordialidade, ética, assistencialismo, compartilhamento, afetividade ou respeito.

Finalmente, que exemplo podemos dar aos nossos filhos e alunos, senão nossa própria postura e paciência; nosso modo coerente de falar e agir, onde aquilo que é dito se transforma na respectiva ação?

Devemos também, sem cair na tentação das exceções, evitar as promessas vazias, propostas abstratas impossíveis de se cumprir. Uma promessa não cumprida, para uma criança, tem o mesmo valor de uma agressão, e representa uma grande decepção, um ato de traição. Mais tarde, isso poderá lhe servir como modelo para a desordem interna, falta de motivação, baixa autoestima, desengano existencial e falta de respeito por todos.


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