Dicas para Autorreciclagem

Inteligência e Autoridade, Por que não são Compatíveis entre si?...

O papel das autoridades, especialmente as religiosas, ideológicas ou doutrinárias, parece ser o de nos convencer de que sem elas estaríamos perdidos...
"Um boneco de corda, uma espécie de Marionete mais sofisticada, só é capaz de funcionar a partir da vontade do seu dono.."
Inteligência e Autoridade, Por que não são Compatíveis entre si?

Não é o excesso de conhecimento que aliena o homem, mas, antes disso, apenas o desnecessário...

Avaliando a Questão...

Muitos, talvez quase a totalidade dos educadores e homens preocupados em aplicar as centenas de teorias pedagógicas existentes para mecanizar os estudantes, acreditam que o ato de ensinar cada ser humano a ler e a escrever, talvez torná-los cultos, por reflexo, também irá capacitá-los a resolver todos os problemas desse mundo, especialmente aqueles de ordem existencial. Mas parecem esquecer que erudição não é a mesma coisa que inteligência, lucidez consciencial ou sensatez.

Afinal de contas, por trás de cada grupo que defende o caos, a anarquia urbana, as tramas corruptoras da sociedade, ou ainda a feitura de uma mente social que esteja inclinada a seguir suas ideologias patológicas ou a cultuar doutrinas belicistas, o que existe senão uma autoridade culta especializada no conhecimento humano; um idealista dotado de superior e eclética cognição?

E nos tempos de suposta paz, onde governos democráticos, totalitários ou socialistas, cujo lema é sempre conduzir seu povo para onde apontam seus interesses pessoais, estes também não são dotados de um singular perfil erudito? E os cientistas sem ética ou sensibilidade, movidos pela ganância do acumular cada vez mais méritos, reconhecimento público, dinheiro e poder, criadores que são das mais letais armas de destruição em massa e distorções sociais, também estes, não são dotados do mais elevado e qualificado conhecimento acadêmico?

E o que dizer das autoridades disseminadoras das ideologias patológicas que assolam a humanidade, os sábios, homens santos, gurus e ministros religiosos, cujos ideais sagazes são simples argumentos para alimentar seus egos sedentos de idolatria e poder sobre os mais fracos, sem, entretanto, esconderem a firme vontade de conduzir pelo cabresto sua legião de devotos sob o jugo do medo?

E as autoridades que limitam o modo de pensar de cada homem, determinando seus desejos e aspirações; conduzindo-os como a uma manada de animais do pasto ao matadouro, também estas, não são hospedeiras de um diferenciado repertório cognitivo?

Será que, como indivíduos integrados ao mundo, ainda nos falta autonomia para pensar?

Podemos ser bastante cultos, eruditos, doutores em literatura e ciências; donos de todo saber humano. Entretanto, ao seguirmos uma autoridade, quando nos submetemos aos caprichos de um indivíduo, grupo ou corrente étnica, ideológica, política ou religiosa, não estamos também negando nossa própria liberdade de expressão e identidade?

Se não somos capazes de pensar por conta própria, por reflexo, não temos capacidade de auto-organização, autodisciplina, autogestão e autocondução, e esse fato é bastante óbvio. Então, haverá diferença entre nós e um autômato dotado de um mecanismo robotizado que foi programado para cumprir as demandas de uma linha de produção? Onde está então nossa inteligência e consciencialidade se não temos autonomia para dirigir e organizar nosso próprio destino?

Se não estamos qualificados ou capacitados para pensar com liberdade e lucidez, por que devemos achar que existe em nós algum vestígio de inteligência? Há em nós inteligência quando sequer usamos nosso cérebro para decidir ou opinar sobre nosso próprio destino e aspirações; ou até mesmo o modo como devemos nos relacionar com esse mundo e todas suas variáveis? Se somos conduzidos sem questionar, sem direito à liberdade de escolha, enclausurados atrás das grades de um dominador, não há diferença entre nós e o animal irracional de uma manada a caminho do matadouro, indiferentes ao perigo que os espreita.

Uma mente enclausurada dentro do escopo de uma tradição, ideologia, doutrina sectária, tribo política ou étnica, não é uma mente flexível. E a flexibilidade e independência pensênica é o primeiro e mais importante quesito da inteligência. Sem esse pré-requisito a inteligência simplesmente não existe. Lembre-se, potencial para memorizar e repetir protocolos e preceitos não é indício de inteligência. Uma máquina analógica já faz isso, e sequer é capaz de pensar.

Supondo que iniciemos uma jornada em direção a um ponto, um destino qualquer. Podemos nos dirigir a esse ponto sem saber o motivo, sem ter conhecimento do que iremos encontrar no final, ignorando nossos limites, e ainda assim nos considerarmos sensatos ou inteligentes? Afinal de contas, o que é, para nós, esse atributo que chamamos de inteligência?

Observe um robô movido por um mecanismo analógico, a chamada corda, como se prestam a repetir para sempre o mesmo gesto ao comando de um botão. Há então diferença entre eles e alguém que simplesmente, sem questionar, decidir a partir de juízos pessoais ou divergir, cegamente abraça uma ideologia e as deliberações egocentradas de uma autoridade que o controla, que o faz repetir a exemplo de um papagaio amestrado suas resoluções e desejos?

Há uma mecanicidade óbvia em nossos gestos e hábitos. Basta observar como tentamos repetir a conduta, preferências e manias dos nossos pais, amigos, ídolos, gente da moda, e como em pouco tempo, em nós, esses caracteres tendem a se transformar em hábitos. Uma voz de comando, de tanto repetir uma sugestão, acaba por desmontar até mesmo nosso temperamento original. Desse modo, uma criança de natureza pacata é capaz de se tornar um temível soldado, disposto a matar um inimigo imaginário, apenas para cumprir as escabrosas e insanas ordens do seu comandante.

Nesse processo inteiramente mecânico, onde velhos hábitos são imitados e ajustados às nossas idiossincrasias, não existe um pensador, pois nada de novo é criado ou modificado, e apenas o velho é copiado e colado. Chamamos de inteligência a capacidade inata que todos possuem de imitar, quando o mais lógico e sensato seria considerarmos inteligente aquele que se recusa a imitar comportamentos patológicos; aquele que age de forma independente, que está disposto a divergir, a questionar antes de agir cegamente motivado puramente por um sentimento de comoção pré-fabricada.

Será que temos um papel existencial próprio ou atuaremos pelo resta de nossas vidas como simples sombras das autoridades cultas que regem nossa psique?

No entanto, o simples ato de questionar pode significar o isolamento do indivíduo, uma vez que ao repudiar a imitação haverá uma ruptura entre ele e o padrão sistemático que a maioria adotou como guia. Por isso, para tomar essa decisão, falta coragem à maioria, e poucos estão dispostos a carregar esse fardo.

Nasce a inteligência quando há a liberdade para o natural questionamento. Pode ser uma questão simples, como, por exemplo: “Por que devemos escovar os dentes três vezes ao dia?” Ao sentir-se livre para questionar, também o indivíduo está livre para ser criativo, deixando a imitação patológica de lado. Imitar não é uma ação criativa, chama-se a isso de plágio, clonagem ou pensamento de segunda mão. Mas, é dentro dessa mentalidade onde estão confinados todos os sistemas pedagógicos formais e informais desse mundo.

Agora observe as incontáveis gerações às nossas costas, com seus ritos e guias, uma corrente civilizatória que mais se assemelha a cegos conduzindo cegos. E há também os santos e sábios com suas inumeráveis crenças e sistemas doutrinários; e as tribos ideológicas, étnicas, políticas, pedagógicas, cada uma com seus métodos e sistemas “perfeitos”, e ainda nos encontramos em meio ao caos social na dependência de um milagre que virá de fora para remodelar o homem por dentro.

Não seria mais sensato questionarmos: “Por que a resposta para resolver esse problema deveria estar nas mãos desses “Criadores de Soluções”, sabendo-se que são eles os autores de toda essa confusão?”

A lógica parece simples: Poderia o caos criar a harmonia? Então, afinal de contas, estamos esperando o que? E depois de tanto tempo, diante de conflitos que se tornam cada vez mais complexos, onde as soluções apresentadas criam ainda mais problemas, tudo isso não seria uma evidência irrefutável de que nossa postura passiva fortemente condicionada pelo mito de um milagre patrocinado por outros e capaz de restaurar nossa ordem pessoal pode estar equivocada?


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