Dicas para Autorreciclagem

Perfeccionismo, um Delírio Humano impossível?

Uma mente ociosa é como um terreno baldio, e acaba por servir de depósito para todo tipo de lixo...
"Evolução não é perfeição, mas, antes disso, trata-se da mais importante e irrefutável evidência de nossa imperfeição..."
Perfeccionismo, um Delírio Humano impossível?

Simplicidade não significa ingenuidade, nem pobreza, nem humildade, nem qualquer outra coisa, trata-se apenas da capacidade de enxergar as coisas, como elas, de verdade são...

Avaliando a Questão...

Imagine uma coisa perfeita, aquela que finalmente atingisse sua plenitude existencial, o seu ponto de chegada, de onde não mais precisasse progredir em nenhuma direção; de onde mais nenhum atributo, qualidade ou funcionalidade existente no universo lhe pudesse ser acrescentada.

Por que existiria a perfeição em meio à imperfeição, supondo que a perfeição é incapaz de conviver com o modelo imperfeito?

Seria perfeito sem dúvida... mas, teria motivo para existir?

Por que algo é criado senão por um motivo? Sem motivo, haveria razão para a existência de alguma coisa?

Um mundo perfeito só poderia ser concebido por indivíduos perfeitos. Mas, a existência de qualquer indivíduo já não sugere que ele está inacabado? Algo já concluído, finalizado, sem mais espaço para aperfeiçoamentos, sem mais nenhum ponto a ser corrigido, sem nenhuma experiência a lhe ser acrescentada, qual seria sua função dentro da progressão existencial? Qual seria a razão da sua existência? O que poderia agregar a si mesmo, ou mesmo experimentar, que já não o tivesse feito antes?

De acordo com as leis da natureza, aquelas sob as quais não temos controle ou jurisdição, o processo de destruição é o marco inicial do movimento de mudança. Trata-se da descontinuidade de um estado para outro. Descontinuidade significa transição, a desconstrução de um estado primário para outro mais aperfeiçoado, ou regenerado. Entretanto, no nosso caso, onde a ideia de perfeição sugere estabilidade, compreender essa mecânica poderá não ser uma tarefa tão simples.

Qual poderia ser o Status ou configuração de uma atribuição Perfeita?

Uma criança não pode permanecer em seu status de criança para sempre, isso não é possível, pois há uma natural e permanente transformação em sua fisiologia. Ela crescerá, e à revelia de sua vontade se tornará adulta. Não depende dela, já nasceu com essa proposta, não caberá a ela escolher. Nasceu para se modificar e não para ficar estática. Nascer já representa uma transformação de si mesmo, uma vez que deixou de ser um óvulo latente ou simples embrião para se tornar uma nova entidade que chamamos de criança.

Nasce porque ainda não está completa; completou apenas um estágio. Como um processo em andamento, ainda não está acabada, finalizada. Há incontáveis variáveis em sua fisiologia sujeitas à modificações involuntárias, e o próprio ato de nascer já representa a desconstrução de um estado para a criação de outro.

A transformação não voluntária é a lei geral da natureza de todas as coisas. Não há como evitar, não depende de nós, trata-se de um processo espontâneo e ocorre sem depender de opiniões, conceitos, tratados sociais, crenças religiosas ou de protocolos científicos.

Se algo existe para se modificar, pela lógica, está em processo de aperfeiçoamento, ou não precisaria mais de retoque algum. Nasceria inerte e inerte permaneceria; seria o mesmo que não nascer. Sendo o processo de nascimento uma transformação, aquilo que é estático por natureza, não poderia existir. Sua existência seria uma violação da sua condição de inércia perpétua.

E o fato é que nada que exista é perfeito, pelo menos não segundo o que para nós significa a expressão. Para nós, perfeito quer dizer bem feito, sem falhas, sempre em comparação com o nosso ideal de impecabilidade. Nosso ideal não pode servir de modelo, uma vez que somos incompletos, imperfeitos, falhos. Assim, nosso modelo de perfeição ainda é imperfeito, e nele sempre caberão mais e mais aperfeiçoamentos, inclusões, reparos e ajustes.

Perfeita seria a intocável lei das mudanças, da permanente transformação de tudo que há. Imperfeito para sempre seria o objeto sobre o qual essa lei atua. Mas, imperfeito não quer dizer mal feito, e antes disso, seria mais adequado chamá-lo de parcialmente feito, ou incompleto. Existe para se modificar, não sabemos até quando, não sabemos o porquê, e apenas podemos evidenciar que é assim.


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