Folclore Brasileiro Ilustrado
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Folclore Brasileiro Ilustrado - O Mito da Mula sem Cabeça
Autor: Editoria de Pesquisas Site de Dicas[1]
15 de Fevereiro de 2016
Série: Personagens do Folclore Brasileiro
Nos mitos está a essência de grande parte de nossas crenças e superstições...

Os Aspectos Gerais do Mito da Mula sem Cabeça

O Mito da Mula sem Cabeça
Os Mitos, quando bem compreendidos, podem servir como ferramenta para estudo da nossa psique.
O Mito da Mula sem Cabeça
Os Mitos, quando bem compreendidos, podem servir como ferramenta para estudo da nossa psique.

Nos pequenos povoados ou cidades, onde existam casas rodeando uma igreja, em noites escuras, pode haver aparições da Mula-Sem-Cabeça. Também se diz que, se alguém passar correndo diante de uma cruz à meia-noite, a misteriosa entidade irá aparecer.

Dizem que é uma mulher que namorou um padre e foi amaldiçoada. E a toda passagem da quinta para sexta feira ela vai numa encruzilhada e ali se transforma na besta.

E essa infeliz criatura, tem por sina percorrer sete cidades ou povoados, ao longo daquela noite, sempre em carreira infernal, soltando relinchos e ruídos pavorosos. Se encontrar alguém no seu caminho, mata-o de coices, chupa seus olhos, e come unhas e dedos[2].

Apesar do nome, "Mula-Sem-Cabeça", na verdade, de acordo com quem já a viu, ela aparece como um animal inteiro, forte, lançando fogo pelas narinas e boca, onde tem freios de ferro.

Nas noites que ela sai, ouve-se seu galope acompanhado de longos relinchos. Às vezes, parece chorar como se fosse uma pessoa. Ao ver a Mula, deve-se deitar de bruços no chão, permanecer imóvel, sem respirar e tomar o cuidado de esconder Unhas e Dentes para não ser atacado.

Se alguém, com muita coragem, tirar os freios de sua boca, o encanto será desfeito e a Mula-Sem-Cabeça voltará a ser gente, ficando livre da maldição que a castiga, para sempre.

A Mula-sem-Cabeça, Burrinha-de-Padre ou simplesmente Burrinha, é o castigo da concubina, ou amante, do padre católico. Na noite da quinta para sexta-feira, transforma-se numa mula, correndo com espantosa rapidez, até o terceiro cantar do galo.

Seus cascos afiados dão coices que ferem como se fossem navalhadas. Aos homens ou animais que encontra pela frente, ataca à patadas. Ouve-se, de longe, o barulho do seu galope sobrenatural e as dentadas com que morde o freio de ferro que tem à boca.

Pela madrugada, exausta, recolhe-se e volta à forma humana. Para que a "manceba" do padre não se transforme em Burrinha é preciso que este jamais esqueça de amaldiçoá-la antes de celebrar a santa Missa.

Os detalhes variam. É uma mula que não tem cabeça mas relincha. Ou é de cor negra, com uma cruz de pelos brancos no dorso. Tem olhos de fogo. Tem um facho luminoso na cauda e geme como um ser humano. Está em todo Brasil, em todas as regiões.

É crença nos sertões de todo Nordeste, que as Burrinhas, em sua forma humana, além de muito belas, são extremamente gentis e delicadas.

Dizia-se também que as mulheres de má vida relacionadas com padres, tarde da noite, "viravam" Mula-sem-Cabeça.

Quando uma dessas criaturas morre, sua alma fica a penar sobre a terra, apresentando-se como uma "aparição" assombrosa, horrível. Em certas noites, o sertanejo ouve um tropel de animal corredor, cujos cascos batem apressados sobre o barro duro dos caminhos. Atrás dele, a cachorrada dos arredores corre, latindo terrivelmente. O homem deve se encolher no fundo de sua rede ou cama, fazendo o sinal da cruz e rezando o Credo: É a Burra-de-Padre que vai passando[3].

Informações Complementares sobre a Mula sem Cabeça

Nomes comuns: Burrinha do Padre, Burrinha, Mula Preta, Cavalo-sem-cabeça, Padre-sem-cabeça, Malora (México), Mula-Anima (Argentina).

Origem Provável: É uma tradição que nos veio da penísula Ibérica, trazida pelos espanhóis e portugueses. Corre toda América, do México até a Argentina. No Brasil varia entre as regiões.

É um mito forte entre Goiás e Mato Grosso. Em todas as versões há sempre uma finalidade punitiva.

Encantamentos e Cura:
A forma de quebrar o encanto da Mula, pode variar. Pode ser a excomunhão feita pelo padre amante antes de celebrar a missa; pode ser um leve ferimento feito com alfinete ou outro objeto, desde que saia sangue, etc. Assim, a Mula se transforma outra vez em mulher e aparece despida.

Em Santa Catarina, para saber se uma mulher é amante do Padre, lança-se ao fogo um ovo enrolado em fita com o nome dela; se o ovo cozer e a fita não queimar, ela é.

Algumas vezes, o próprio Padre é o amaldiçoado. Nessa ocasião então, ele vira um Padre-sem-Cabeça, e sai, ora a pé, ora montado em um cavalo do outro mundo. O Cavaleiro sem Cabeça Norte americano lembra muito esta variação.

Na África, Ásia e Austrália, há a tradição das mulheres velhas que se transformam em tigres, lobas, panteras, voltando à forma humana com a luz do sol. Mas, nesse caso, não há uma sina punitiva como no caso da Mula-sem-Cabeça.

Documentário - Debates e Relatos sobre o Mito da Mula sem Cabeça

Dois Relatos recebidos pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo, em suas pesquisas de campo. Os autores dos relatos eram conhecidos de longa data do pesquisador.

Primeiro Relato:

Luiza Maria Freira, conhecida da família há mais de 30 anos, de Macaíba, moradora de Natal, contou-me que a Burrinha-de-Padre é o castigo de quem se amanceba com o vigário da freguesia e não é amaldiçoada antes do padre ir celebrar missa. É igual a uma burra, tendo a diferença de uma larga lista branca no pescoço.

Corre velozmente e é acompanhada por um barulho de ferro que se ouve longe. Não pára um instante de correr nem de rinchar. Mata quem encontra pela frente, a coices. O coice é pior que um tiro. Um ferimento que faça sangue quebra o encanto e a mulher volta a sua forma humana.

Aparece então inteiramente nua. Somente despida é que a manceba pode ser castigada pela penitência. O padre com quem vive ou tem relações é lembrado por uma "visagem" que lhe toma as feições e monta o dorso da Burrinha.

Segundo Relato:

Luís Velho, morador em Cruzeiro, Canguaretama, Rio Grande do Norte, encontrou uma Burrinha e empenhou-se numa luta furiosa. Terminou ferindo-a com um chuço. Reapareceu a figura humana e Luís Velho reconheceu uma menina rica, de família poderosa. (Luís Velho deu o nome da menina e da família; não registro aqui porque são ambas conhecidas no município).

Deixou-a em casa enrolada com a roupa que lhe emprestou e recebeu uma boa quantia em dinheiro para não contar o caso. Veio, entretanto, para o vizinho município de Goianinha a fim de livrar-se das emboscadas com que a ex-Burrinha pretendia livrar-se da fama de sua "moléstia".

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[1] A Editoria de Pesquisas Folclóricas, é composta por dois antropológos, sendo um deles também folclorista, historiador e publicitário. Contamos ainda com a colaboração de uma pedagoga e antropóloga especializada em Tradições Populares e Costumes Antigos, e também com as valorosas contribuições dos nossos leitores.
Veja aqui nossa Bibliografia consultada.

[2] Daniel Gouveia - Folclore Brasileiro, Rio de Janeiro, 1926, pp. 46/47.

[3] Gustavo Barroso - O Sertão e o Mundo, p. 181/182.

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