Índice: Folclore Brasileiro Ilustrado: Os Personagens
A Lenda da Iara, a Mãe Dágua
Editoria de Pesquisas do Site de Dicas [1]
Aspectos Gerais do Mito
Grande parte dos nossos medos mais primitivos se escondem nas profundezas das águas...
Os cronistas dos séculos XVI e XVII registraram essa história.
No princípio, o personagem era masculino e chamava-se Ipupiara,
homem peixe que devorava pescadores e os levava para o fundo do rio.
No século XVIII, Ipupiara vira a sedutora sereia Uiara ou Iara.
Todo pescador brasileiro, de água doce ou salgada, conta histórias de moços
que cederam aos encantos da bela Uiara e terminaram afogados de paixão.
Ela deixa sua casa no fundo das águas no fim da tarde. Surge magnífica à flor
das àguas: metade mulher, metade peixe, cabelos longos enfeitados de
flores vermelhas. Por vezes, ela assume a forma humana e sai em busca de vítimas.
Quando a Mãe das águas canta, hipnotiza os pescadores. Um deles foi o índio
Tapuia. Certa vez, pescando, Ele viu a deusa, linda, surgir das águas.
Resistiu. Não saiu da canoa, remou rápido até a margem e foi se esconder na aldeia.
Mas enfeitiçado pelos olhos e ouvidos não conseguia esquecer a voz de Uiara.
Numa tarde, morto de saudade, fugiu da aldeia e remou na sua canoa rio abaixo.
Uiara já o esperava cantando a música das núpcias. Tapuia se jogou no rio e
sumiu num mergulho, carregado pelas mãos da noiva.
Uns dizem que naquela noite houve festa no chão das águas e que foram felizes para sempre.
Outros dizem que na semana seguinte a insaciável Uiara voltou para levar outra vítima.
Este é Mito baseado no modelo das sereias dos contos gregos. A Iara é uma ninfa loura de
corpo deslumbrante e de beleza irresistível. Sua voz é melodiosa e seu canto, tal como no original
grego, é capaz de enfeitiçar a todos que o ouvem, arrastando-os em sua direção, até o fundo do rio, lagos,
igarapés, águas, onde vivem esses seres fabulosos.
Na Amazônia, a Mãe-dágua atrai os moços sob forma de uma moça bonita, e às moças, aparecendo-lhes sob
o aspecto de um belo e sedutor moço.
As crianças também são vítimas e após desaparecem misteriosamente, creem os ribeirinhos que
essas crianças ficam "encantadas" no reino da "gente do fundo".
Lá o menino é instruído no preparo de todos
os tipos de remédios. Passados sete anos, durante os quais foi iniciado nas artes mágicas e na manipulação
de plantas e ervas, o jovem pode retornar para junto dos seus, onde, geralmente, se torna um grande curandeiro.
A Iara (ig-água, iara-senhor) é uma roupagem de cultura européia. Não há lenda indígena que tenha registrado a Iara de cabelos longos ou voz maviosa.
As lendas indígenas mais velhas citam sempre o Velho Homem Marinho, o Ipupiara, nunca a Iara. Além do Ipupiara, o índio brasileiro tem outra tradição assombrosa das águas. É a Cobra Grande, a Cobra Negra ou Boiúna[2].