Folclore Brasileiro Ilustrado
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Folclore Brasileiro Ilustrado - O Mito do Saci Pererê
Autor: Editoria de Pesquisas Site de Dicas[1]
12 de Fevereiro de 2016
Série: Personagens do Folclore Brasileiro
Nos mitos está a essência de grande parte de nossas crenças e superstições...

Os Aspectos Gerais do Mito Saci Pererê

O Mito do Saci Pererê
Muitas angústias humanas se escondem por trás dos Mitos...
O Mito do Saci Pererê
Muitas angústias humanas se escondem por trás dos Mitos...

O Mito do Saci data do fim do século XVIII. Durante a escravidão, as amas-secas e os caboclos-velhos assustavam as crianças com os relatos das travessuras dele. Seu nome no Brasil é de origem Tupi Guarani. Em muitas regiões do Brasil, o Saci é considerado um ser brincalhão enquanto que em outros lugares ele é visto como um ser maligno.

Trata-se de uma criança, um negrinho de uma perna só, que fuma um cachimbo e usa na cabeça uma carapuça vermelha[2] que lhe dá poderes mágicos, como o de desaparecer e aparecer onde quiser. Existem 3 tipos de Sacis: O Pererê, que é pretinho; O Trique, moreno e brincalhão e o Saçurá, que tem olhos vermelhos, como tochas de fogo.

Ele também se transforma numa ave chamada Mati-taperê, ou Sem-fim, ou ainda Peitica, como é conhecida no Nordeste, cujo canto melancólico ecoa em todas as direções, não permitindo sua localização. Este pássaro é o mesmo que deu origem ao mito da Matinta-Pereira.

A superstição popular faz dessa ave uma espécie de demônio que pratica malefícios pelas estradas, enganando os viajantes com os timbres dispersos do seu canto, fazendo-os perder o rumo e não conseguindo mais achar o caminho de volta para casa.

O Saci é a Mati-taperê, a Matinta-Pereira, dos Paraenses e barés. Os índios Mundurucus tinham a Matinta como a visita de seus antepassados, uma espécie de retorno das almas. A Matinta era, como a Acauã, o Beija-flor, ou o Babacu, portadores dos espíritos dos mortos. A Matinta atual é o corpo que abriga o espírito de um ser vivo. Por encantamento alguém pode se transformar em Matinta e voar durante a noite assustando quem encontra pela frente. Pela madrugada volta à forma humana. A Matinta dos Mundurucus não era assim. O mesmo ocorre com o Saci. Saci é Saci a vida inteira. Ninguém pode se tornar um Saci e andar pedindo fumo à noite pelas estradas.

Teodoro Sampaio[3] ensinava que era assim o Saci:

Saci, ça-ci, o olho doente. Nome de gênio maléfico da mitologia selvagem, que se supõe representado por um negrinho.

Ele adora fazer pequenas travessuras, como esconder brinquedos, soltar animais dos currais, derramar sal nas cozinhas, fazer tranças nas crinas dos cavalos, etc. Diz a crença popular que dentro de todo redemoinho de vento existe um Saci. Dizem que Ele não atravessa córregos nem riachos pois tem medo de água. Diz O Mito que, se alguém jogar dentro do redemoinho um rosário de mato bento ou uma peneira, pode capturá-lo, e caso consiga pegar sua carapuça[4], poderá ter um desejo seu concretizado.

Alguém perseguido por ele, deve jogar em seu caminho cordas ou barbantes com nós. Ele então irá parar para desatá-los, e só depois continua a perseguição. Isso dará tempo para que a pessoa fuja. Aqui, percebe-se a influência dO Mito da Bruxa Européia, que também é obrigada a contar os fios de um feixe de fibras, ou novelo de linha, antes de entrar nas casas.

Do Amazonas ao Rio Grande do sul, o mito sofre variações. No Rio Grande ele é um menino de uma perna só, que adora atormentar os viajantes noturnos, fazendo-os perder o caminho. Em São Paulo é um negrinho que usa um boné vermelho e frequenta os brejos assustando os cavaleiros. Se ele reconhece a pessoa irá chamar pelo seu nome, e então foge dando uma espetacular gargalhada.

Informações Complementares sobre o Mito do Saci Pererê

Nomes comuns: Saci-Cererê, Saci-Trique, Saçurá, Mati-taperê, Matiaperê, Matimpererê, Matintaperera, Capetinha da Mão Furada, etc.

Origem Provável: Os primeiros relatos são da Região Sudeste, em Minas e São Paulo, datando do Século XIX. Em Portugal há relatos de uma entidade semelhante, que usa botas vermelhas. Há também variantes do mito, na Argentina, Uruguai e Paraguai(Yasy Yateré) onde é pequeno e gordo, de pele vermelha e usa um bastão mágico dourado. Na Alemanha existe um anão chamado Kobolde, igual em quase tudo ao nosso Saci. Nos Estados Unidos há também o Gremlin, que é outro com as mesmas características.

Nenhum dos cronistas do Brasil colonial registrou o Saci como é conhecido no Sul do país. Mais ainda, nenhum deles o inclui como uma das curiosidades da terra recentemente descoberta. Entre os Tupinambás, uma ave chamada Matintaperera, com o tempo, passou a se chamar Saci-pererê, e deixou de ser ave para se tornar um caboclinho preto de uma só perna, que aparecia aos viajantes perdidos nas matas.

De acordo com a região, ele sofre algumas modificações:

Por exemplo, as mãos furadas no centro, é porque que sua maior diversão é jogar uma brasa para o alto para que esta atravesse os furos. Pode fazer o mesmo com uma moeda. Dizem que ele não suporta o alho. Em outros lugares ele pode aumentar ou diminuir de tamanho à vontade. Há uma versão que diz que o Caipora ou Curupira é o seu Pai.

Não há o Saci-Pererê no norte nem no nordeste. É citado com frequencia no folclore do sul brasileiro, tendo tradições vivas e similares em todos os países que circundam o Brasil, especialmente nas regiões antes povoadas pelos Tupi-Guaranis, de cujo idioma nasce seu nome. Coincide sua jornada sul-norte com o roteiro das migrações tupis, pois acredita-se que esta raça é a responsável pela introdução desse mito no Brasil. Não há o Saci nas crônicas do Brasil-colonial, o que seria um fato injustificável se sua influência fosse semelhante à do Curupira, Hipupiaras, Anhangas, Juruparis, Caaporas etc. Deduz-se então que o mito não estava popularizado nos primeiros séculos da colonização.

O Saci aparece em fins do século XVIII e tem sua vida desenvolvida durante o século XIX. Surge há uns duzentos anos atrás, vindo do sul, pelo Paraguai-Paraná, justamente a zona indicada como tendo sido o centro de dispersão dos Tupi-Guaranis.

Ao subir para o Norte, o Saci foi assimilando os elementos que pertenciam ao Curupira, ao Caapora, e confundindo-se com a Mati-taperê. Com esse último, o Saci, que já era um mito ornitológico e local, uma ave singular, em torno da qual giravam episódios e fábulas misteriosas, teve impulso maior.

Do Curupira herdou a mania de interromper a carreira para desmanchar nós e tecidos atirados pelo perseguido. Alguns demônios europeus, como os de Portugal, por exemplo, têm a obrigação de contar os grãos de paínço atirado sob as pontes. Também herdou o Saci o direito de desnortear o viajante, fazendo-o perder-se na floresta, antigo privilégio do Curupira. Nas repúblicas do Prata, o Saci continua a ter cabelos vermelhos, semelhante ao Curupira.

Do Caapora, tornado Caipora, dá o assobio, surra os cães, atrasa negócios, pede fumo e pode proteger aqueles com quem simpatiza. Aprendeu a montar, fazendo rédeas das crinas e cansando os animais.

E Quem é o Saci?

Normalmente é descrito como sendo, negrinho, lustroso, sem pelos no corpo nem na cabeça. Têm dois olhos vivos e vermelhos. Sua altura não passa de meio metro, pula com grande agilidade numa só perna, possui dentes brilhantes e brancos. Orelhas como de morcego, carapuça vermelha[5]. Quando vê gente assobia. Adora assobiar de surpresa aos ouvidos dos viajantes, deixando-os desorientados pelo susto.

Dizem também que ele, na verdade eles, um bando de Sacis, costumam se reunir à noite para planejar as travessuras que vão fazer. Ele ainda tem o poder de se transformar no que quizer. Assim, vezes aparece acompanhado de uma horrível megera, vezes sozinho. Outras vezes como uma ave. Para os Paraenses, o Saci é a Mati-taperê, ou Matinta-Pereira. Em 1875, entre os índios Munducurus, já existia essa tradição.

O mais comum é que o Saci seja relatado apenas como brincalhão e malicioso, mas nunca malvado. Tanto, que são notórias suas gargalhadas à cada travessura que pratica.

A carapuça inseparável do Saci é encantada, e se lhe arrebatam, ele dará fortunas para a recuperar. Em Portugal há o Pesadelo. Essa entidade é o Diabo que vem com uma carapuça e com uma mão pesada, que põe sobre o peito daquele que dorme de barriga pra cima, não deixando-o gritar. Quem puder agarrar na carapuça, ele fugirá pelo telhado e dará uma fortuna para tê-la de volta.

No Norte do país, o fabulário local substitui o Saci por outro. O pesquisador Barbosa Rodrigues[6] escreve:

"...No Sul é Saci tapereré, no Centro Caipora e no Norte Maty-taperê.
O civilizado, que muitas vezes não entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, Sererê, Siriri, Matim-taperê, e até lhe deu um nome português o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome "da Silva" ou "da Mata". Para conseguir seus fins, e fazer suas proezas, sem ser visto, quase sempre vive o Saci ou Mati metamorfoseado em pássaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, ora graves ora agudas, iludem o caminhante que não pode assim descobrir-lhe o pouso, porque, quando procura vê-lo pelas notas graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E assim iludido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal."

O pesquisador ainda nos ensina que o mito do Saci se confundiu com tantos outros, especialmente em volta das aves de canto disperso ou, como esse pássaro que tem o hábito de pousar numa só perna, dando a impressão de ser unípede. O Saci quando tornado mito com forma humana terá apenas uma perna.

"Poder-se-á dizer, que, a ave ou aves que determinaram o mito da Matinta são as responsáveis pelo Saci atormentador. O mito é, pelo que me parece, inicial e unicamente ornitológico...", completa ele.

Saci - Casta de pequena coruja, que deve o nome ao grito que faz ouvir repetidamente durante a noite. É pássaro agourante. Contam que é a alma de um pajé, que não satisfeito de fazer mal quando deste mundo, mudado em coruja vai à noite agourando aos que lhe caem em desagrado, e anuncia desgraças a quantos o ouvem. O nome de saci é espalhado do Amazonas ao Rio Grande do Sul. O mito, porém, já não é o mesmo. No Rio Grande é um menino de uma perna só que se diverte em atormentar à noite os viajantes, procurando fazer-lhes perder o caminho. Em São Paulo é um negrinho que traz um boné vermelho na cabeça e frequenta os brejos, divertindo-se em fazer aos cavaleiros que por aí andam toda sorte de diabruras, até que reconhecendo-o o cavaleiro não o enxota, chamando-o pelo nome, porque então foge dando uma grande gargalhada. (Stradelli - Vocabulário Nheengatu-português).

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[2] Acredita-se que a carapuça vermelha do Saci, tenha origem nas carapuças dos marujos de Portugal no século do descobrimento. Em 1560 os Tupinambás recebiam dos visitantes, para por em suas cabeças, estes barretes vermelhos.

[3] Teodoro Sampaio, Tupi na Geografia Nacional, 3a. edicção, Bahia, 1928.

[4] Em Roma certos fantasmas usavam essa carapuça e quem a arrebatava teria riquezas. Também o Pesadelo de Portugal possui uma carapuça encantada. Vide notas sobre o Pesadelo na página 2.

[5] A Carapuça Vermelha do Saci é a explicação dos poderes sobrenaturais. A Carapuça que torna seu portador invisível é tema universal. Ver P. Saintyves, Les contes de Perrault et les récits parallèles, Paris, 1923, pp. 284, 289, 291 etc.
O costume de amarrar o Saci para que ele descubra objetos perdidos ou dê riquezas é velho e clássico. No Brasil é crença entre o povo o ato de amarrar Santo Antônio para fins semelhantes e também para casar as mocinhas ou velhas sem pretendentes. Em Portugal de onde nos veio esse hábito, ainda prendem o próprioa Diabo. (Teófilo Braga - O Povo Português, etc., Vol. II, p. 191.)

[6] Um dos principais nomes na história da botânica brasileira, João Barbosa Rodrigues (1842-1909) produziu também importantes contribuições para o conhecimento de línguas e culturas indígenas da Amazônia.
No clássico *Poranduba Amazonense* (1890), Barbosa Rodrigues publica uma coletânea de lendas e canções em Nheengatu (ou Língua Geral Amazônica), com tradução interlinear ao português, seguida de tradução livre.

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