Folclore Brasileiro Ilustrado
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Folclore Brasileiro Ilustrado - O Mito do Zumbi
Autor: Editoria de Pesquisas Site de Dicas[1]
15 de Fevereiro de 2016
Série: Personagens do Folclore Brasileiro
Nos mitos está a essência de grande parte de nossas crenças e superstições...

Os Aspectos Gerais do Mito do Zumbi

O Mito do Zumbi
Por que será que uma grande parte dos nossos temores teimam em se esconder dentro da escuridão da noite?
O Mito do Zumbi
Por que será que uma grande parte dos nossos temores teimam em se esconder dentro da escuridão da noite?

Vem do Quimbundo[2] nzumbi, e quer dizer, espectro, duende, fantasma. Para as antigas tradições africanas, vem do termo nzámbi, divindade, título adotado pelos chefes sociais. Entre os Cabindas[2], quer dizer Deus.

Zumbi foi o título do chefe dos rebelados escravos que se refugiaram no Quilomdo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas. Em Sergipe, Zumbi é um negrinho que se confunde com o Saci, que aparece nos caminhos em meio à mata e é companheiro da Caipora, mas não usa a carapuça vermelha.

Anda nu ou quase nu, sempre procurando crianças que vão pegar frutas silvestres no meio do mato, para desorientá-las com seus longos e finos assobios, ou surrá-las, assim como já faz o Curupira.

No Rio de Janeiro, fala-se de um Zumbi da meia-noite, um espectro que vagava tarde da noite pelas ruas intimidando as pessoas. Relato semelhante a esse também foi colhido no interior de Pernambuco, apenas que neste, ele canta de forma repetida o refrâo: "Lá vem o Zumbi da Meia-Noite..". E se perde dançando na noite.

Há também referências a um Zumbi diabinho malicioso, moleque. Também se diz que o Zumbi é um Feiticeiro. Uma vaga tradição fala de um Zumbi retraído, misterioso, taciturno, saindo apenas à noite.

O Vocábulo Zumbi ficou também na tradição popular para designar um ente fantástico que vagueia tarde da noite dentro das casas abandonadas.

Segundo historiadores[3], nos contos das amas de crianças, era esse o nome de uma entidade misteriosa, uma espécie de feiticeiro, retraído, frequentador das ruas desertas às altas horas da noite. Daí a expressão popular "Você está feito Zumbi", quando nos referimos a quem passa à noite em claro.

"Estar feito Zumbi", com insônia, vagueando pela noite por esse motivo ou por hábito. Esta frase parece vir das noites sem dormir e vigílias do zumbi, o chefe negro da República do Quilombo dos Palmares, para não ser surpreendido em ataques noturnos pelos seus inimigos.

As acepções para o Zumbi são muitas. Para os Angolenses, é gente que morreu, alma do outro mundo. Na tradição oral de outras nações africanas, é fantasma, Diabo que anda à noite pelas ruas. Quando os Negros viam uma pessoa astuciosa, que se metia em encrencas, diziam: "Zumbi anda com ele", isto é, o Diabo está no corpo dele.

Às vezes ele aparece como um adulto pequeno e cresce quando alguém dele se aproxima, para curvar-se em forma de arco sobre o indivíduo.

Informações Complementares sobre o Zumbi

Nomes comuns: Zumbi, Zombie, Nzumbi, Zumbi da Meia-Noite.

Origem Provável: É quase certo que pertença a extensa Mitologia africana, embora tenha sofrido muitas variações em nossas terras.

Como um diabinho atormentador, ele se parece com o Gunocô dos Indígenas Negros Bantus e é um dos elementos constitutivos do nosso Saci-Pererê.

O Zumbi por vezes oculta-se, e impede a um cavaleiro de prosseguir. Os animais são capazes de perceber sua presença. No entanto, Ele próprio pode ser percebido pelo ronco surdo, estremededor, que faz, enquanto caminha.

Outras vezes, ele é a alma de um Negro que foi transformado em pássaro, e que fica ao escurecer, nas porteiras das fazendas, gemendo com seu canto fúnebre, chamando os passantes pelo nome. Às vezes, ao meio dia, canta e lamenta a vida que levou como escravo, e diz: "Zumbi... biri.. ri.. coitado.. zumbi.. biri.."

Há também o Zumbi de Sergipe, que é casado com a Caipora. Este é um negrinho como o Saci-Pererê, mas sem a carapuça vermelha. Tem o hábito de correr através do mato ralo, a capoeira, rápido como um raio, do qual se percebe apenas um vulto, cuja cor, é de Ébano lustroso.

No Brasil, no tempo do Reino e império, há os relatos de uma assombrosa criatura fantasmagórica que costumava assustar os boêmios ou retardatários de altas horas, que era conhecido como "Cresce-e-Míngua, cuja principal característica era aumentar ou diminuir de tamanho diante de suas vítimas. Assim, ele podia aumentar ou diminuir a estatura do seu corpo, indo de três metros a três palmos de altura[4] num piscar de olhos.

Estes fantasmas eram descritos como "indivíduos vestidos de branco, que aumentavam de tamanho", e por isso mesmo eram denominados: "Cresce e Míngua".

Nos mitos e Superstições negras do Haiti, há o registro dos Zombies. O Zumbi haitiano é um cadáver animado pela força mágica de um feiticeiro. Então, como um morto vivo, será escravizado nos trabalhos do campo, sob a guarda do seu encantador. São insensíveis, quase não se alimentam, e sua comida não deve conter sal. Se provam sal, sentem que estão mortos e voltam para a sepultura, quebrando o encanto que o feiticeiro tem sobre eles.

No fabulário brasileiro, não se conhece essa modalidade sinistra de exploração humana.

Documentário - Debates e Relatos sobre o Mito do Zumbi da Meia Noite

Eis o Curioso Relato coletado no interior de Pernambuco, na cidade de Pesqueira, localizada na região Agreste do estado, de um antigo e tradicional morador local.

Viciado no Jogo de Cartas, naquela noite, perdera a noção de hora. Ao dar-se conta, descambou para casa em passos apressados. Nas ruas desertas daquela noite fria e nevoenta, nem cachorro se via pelos becos ou esquinas onde as lixeiras costumavam ser colocadas para a coleta do dia seguinte.

Foi quando escutou ao longe o barulho das primeiras badaladas do sino da igreja, anunciando meia-noite. Apressou-se ainda mais. Nesse momento viu que não estava sozinho na rua antes deserta. O ruído de passos compassados, além dos seus, sugeria companhia. Não se enganara, atrás dele, caminhando por uma das calçadas da rua, um vulto, à largas passadas, se aproximava. Era alto, esguio, parecia mover-se como se deslizasse pelo chão, sem tocá-lo. Vestia roupas negras, um sobretudo aberto, e usava um chapéu de abas largas.

Apesar de não achar estranho, sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo. Poderia ser alguém que estava na mesa de carteado, ou na casa de jogos, mas também poderia ser um ladrão. Desconfiado e cauteloso, resolveu manter distância daquele estranho e inesperado companheiro de altas horas.

Apertou ainda mais os passos. Achou estranho que, quanto mais se distanciava, mais próximo o vulto parecia estar. Olhou outra vez e viu que ele, o vulto, aumentara de tamanho. Agora deveria medir a estatura de dois homens. Seu coração acelerou e a respiração ficou mais forte, e quando voltou a cabeça para trás mais uma vez, viu algo que o deixou congelado. O vulto agora ocupava os dois lados da rua, crescera, estava largo, com um pé em cada uma das calçadas.

E, diante dos seus incrédulos olhos, ele voltou ao tamanho normal e começou a dançar, enquanto dizia com uma voz grossa e ritmada: "Lá vem o Zumbi da meia-noite, quiri, quiri...", para em seguida desaparecer misteriosamente, de forma tão inesperada quanto fora sua aparição, deixando-o inteiramente confuso, desorientado, em pânico. Apavorado saiu em desembalada carreira rezando todas as orações que conseguia lembrar, só parando à porta de sua casa, quase sem fôlego.

Naquela noite, não conseguiu dormir nem sob o efeito de remédios.

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[2] Indivíduo Sul-africano ao qual pertenciam, entre outros, os escravos chamados no Brasil de Angolas, Cabindas, Benguelas, Congos, etc.

[3] Nina Rodrigues, o grande médico, antropólogo e pesquisador brasileiro, que usava a grafia Zambi escreveu:
...segundo a impressão que dele recebi na infância, nos contos das amas de menino, assim se designaria um ser misterioso, algo de feiticeiro, escuso e retraído, só trabalhando e andando a desoras. Daí a sentença popular "Você está feito Zambi" para crismar aquele que é de natural macambúzio, ou tem o vezo de passar as noites em claro, ou ainda prefere o trabalho a horas mortas.

[4] Manuel Querino - Costumes africanos no Brasil, p. 280.

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