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As Crianças e o modelo de Construção dos seus Ideais...

Serão os atuais ideais das Crianças uma proposta útil e construtiva ou apenas um amontoado de bobagens cuja intenção é apenas preencher seu tempo útil com coisas inúteis?
"O sensato sabe que ao errar descobriu mais um modo de como aquilo não deveria ser feito..."
As Crianças e o modelo de Construção dos seus Ideais

Dentro da atual proposta pedagógica, todos os velhos e bizarros ideais que nunca se reverteram em uma qualidade de vida digna para nós, serão irremediavelmente replicados...

Se temos a intenção de ensinar alguma coisa de valor para nossos filhos e alunos, em primeiro lugar, deveríamos começar discutindo o que vem a ser o Princípio da Dúvida...

Em nossas mentes, nosso modelo pedagógico cultua desde cedo o ideal de que devemos nos tornar alguém importante. Daí a idolatria aos grandes vultos históricos, antigos ou contemporâneos, que em nossos compêndios didáticos são usados como gabaritos, exemplos de coragem, virtude e sucesso. São os chamados heróis, cuja suposta trajetória de vida servirá como referência para a construção de novas personalidades.

Ocorre que a maioria desses relatos nunca são autênticos. Trata-se de uma fantasia criada, uma espécie de mentira necessária que alimenta o imaginário de cada mesologia desse mundo. E sobre um falso ícone, uma mentira intencionalmente construída é edificada, ora como forma de distração, ora como uma espécie de combustível ou chancela para autenticar, dar vida e lastro aos mitos. Uma crença ou ideologia só é capaz de se edificar sob o arrimo de uma autoridade que lhe sirva de alicerce.

Cada sociedade existente não abre mão dos seus heróis, mesmo que nunca tenham existido. A ideia é usá-los como “espelhos” no processo da criação de condutas pré-fabricadas, ou rédeas para domesticar bárbaros.

E assim é ensinado nas salas de aula o culto aos heróis. Eles são capazes de feitos extraordinários, impossíveis quando comparados aos homens comuns, daí o fascínio. E os eventos históricos retocados servirão para realçar sua imagem. É a veneração ao menino pobre que se torna poderoso e rico. Um vencedor e salvador dos fracos; um guia perfeito para os injustiçados e um símbolo digno de veneração; um exemplo a ser imitado ou aclamado.

Na glorificação do herói há o incentivo para que outros sigam aquela trilha exemplar. No entanto, na escola da vida as coisas são diferentes e nem todos serão coroados pelo êxito fácil, e isso paradoxalmente se torna a condição perfeita para realçar ainda mais a força do mito...

Na mente de uma criança a comparação tem um impacto importante. Primeiro ela terá que abrir mão de sua própria personalidade e inclinações naturais, para então incorporar os caracteres do “outro”. Além disso, muitas vezes ela sequer possui quaisquer dos atributos que favoreçam a clonagem daquele personagem idealizado pela história ou tradição. Resultado: frustração, conflitos, autodesengano e baixa autoestima, exatamente numa hora de grande vulnerabilidade e carência.

Não lhes explicam que aquelas celebridades, especialmente as novas, protagonistas daqueles abstratos mundos perfeitos, proclamados à exaustão como realidade, não passam de mitos; uma bizarra fantasia idealizada especialmente para popular aquele mundo de faz de contas.

E graças a esses ídolos realçados pelo imaginário de cada um, um gigantesco e bem estruturado mecanismo condicionador sobrevive; ganha alento novo, reforça seu repertório de distrações para uma população sem ideais, cujo objetivo de vida é viver a vida dos outros, incorporando inclusive seus sonhos. Sem uma razão consistente para viver, caminha então esse homem em busca de um sonho inalcançável, pelo menos até que seja ofuscado pela eleição de novos.

Mergulhados em problemas familiares, obrigações, afazeres domésticos que nunca se esgotam e problemas que se renovam a cada estação, eis o perfil de um cidadão comum. Entretanto, nada disso faz parte da rotina daqueles privilegiados pela graça de uma contingência quase divina, que foram agraciados com dotes extraordinários, o sonho de cada idólatra. Uma condição sedutora, reforçada todos os dias, criando no imaginário popular uma verdadeira diretriz existencial, um objetivo de vida.

É a força da ideia do demérito e mérito consolidando o condicionamento sectário e criando o homem competitivo, que enxerga no seu semelhante um obstáculo à conquista do seu próprio espaço...

O que planeja um homem como objetivo necessário ao seu viver, senão aquilo que o seduz? Mas, serão estes objetivos coisas reais e necessárias, ou apenas fantasias que se prestam a servir de fuga à sua realidade? O seu mundo particular ele considera medíocre, com poucas alegrias, um bioma repleto de dificuldades e angústias, um modo de viver deprimente, quando comparado à fachada dourada dos laureados.

E é no reino perfeito daqueles justos, blindado contra problemas de qualquer natureza, onde os protagonistas esbanjam saúde e vitalidade num ritmo festivo semelhante a um ritual permanente de agradecimento pelo privilégio alcançado, onde todos desejam entrar e que as tradições realçam como única meta existencial.

Fazendo uma analogia, é exatamente esse o mundo que nossos filhos pequenos conhecem desde cedo, idealizado desde os primeiros passos, graças aos contos de fadas obrigatoriamente inseridos em suas vidas. De fato, desses contos surge a ideia de um paraíso que pode ser tocado a depender da cota de mérito de cada um.

Repetir uma mentira, seja por ignorância ou intencionalmente, cultuando um mundo que não existe, criando uma falsa proposta existencial para nossos filhos, uma certeza de frustrações para o futuro, isso podemos considerar como uma forma de educação correta e justa? Mas é a pedagogia modelo de cada mesologia, a fórmula adotada como eixo para nossas vidas e que iremos replicar para as futuras gerações.

Entre três e seis anos de idade, a criança compreende que o adulto é capaz de pensar assim como ela. Aprende que mentir é uma habilidade social necessária ao convívio amigável entre pessoas, e aprende que o adulto é incapaz de saber o que ela está pensando. É bom enfatizar que esse detalhe, salvo casos excepcionais, ela não conhecia antes dos três anos de idade.

Se psicologicamente somos um espelho dos estereótipos comuns que integram os costumes sociais do meio que nos condiciona e recondiciona, existem algumas diferenças na estrutura da psique entre os dois gêneros humanos.

O cérebro da criança do sexo masculino está predisposto a avaliar as coisas do seu mundo através do movimento, noção de espaço e lógica. A criança do sexo feminino mentalmente interage melhor com as emoções, todas as formas de comunicação, com a estética, organização e disciplina, além de possuir uma qualidade que o gênero masculino praticamente desconhece que é a intuição.

Logo, embora condicionados pela mesma fonte, as assimilações dos estereótipos são absorvidas com diferenças dramáticas. Cada um compreende segundo sua própria capacidade sensorial e qualidade cognitiva. Logo o ideário de uma menina, mesmo que influenciada pela mesma fonte, é quase oposto ao do menino. Os valores sociais ou culturais possuem pesos diferenciados dentro da psique de cada gênero. É importante que saibamos disso desde o princípio.

Afirmar que as crianças possuem algum tipo de ideal é imaturo e infantil, um atestado de ignorância, a evidência incontestável de como a fantasia ainda regula nossa vida. A criança sequer tem um escopo de identidade definida, imagine um ideal, um atributo ainda desconhecido pela maioria dos adultos...

Mas desde cedo, e ao longo do seu crescimento, podemos observar como certas predisposições ou tendências naturais do seu temperamento serão fortalecidas pela mesologia. De tanto observar o uso de expressões como, “por favor”, ela logo vai compreender que algumas palavras possuem pesos diferenciados no palco das relações humanas.

Para uma criança pequena, não existem os gêneros sexuais diferentes. Para ela, menina é aquela que possui cabelo cumprido e veste saia. Mas logo, na sua mente, vão se juntando os elementos que caracterizam bem os estereótipos sociais, assim como as idiossincrasias naturais e espontâneas, ou aquelas atribuídas artificialmente para designar e rotular cada gênero.

Conciliar realização profissional com o sentimento de satisfação na consecução de nossas tarefas parece ser um sonho distante, uma ideia formulada por alguém, quem sabe, um daqueles ídolos do faz de contas. E muitas vezes, as oportunidades escassas e a grande competição por uma mesma oportunidade não nos permite escolher a ocupação dos nossos sonhos. Outras vezes, o acaso acaba por nos colocar diante de tarefas que se revelam como uma verdadeira dádiva vocacional.

A verdade é que quase nunca sabemos quando é simples acomodação ou vocação. Afinal de contas, o hábito acaba por nos conformar, e o fato de realizarmos uma mesma atividade por anos seguidos nos traz a falsa sensação de segurança e conforto. Presa ao hábito, nossa mente se torna mais estreita, uma vez que agora está dominada pelo fantasma do futuro, onde residem as indesejáveis mudanças.

No final das contas, na maioria das vezes, vamos exercer uma atividade que além de desagradável não nos realiza, mas consolados com a possibilidade de fazer aquilo que realmente gostamos nas horas de folga, ou após o recesso da aposentadoria...

Um ideal é um desejo que se opõe à realidade de alguma coisa. Desse modo, sendo medroso, posso ter como ideal a coragem. E todas as nossas frustrações são produtos de ideais não concretizados. É sempre a mesma coisa. Diante de um processo de escolha, estamos em permanente conflito.

Frente a frente com a realidade, logo imaginamos seu oposto. É como funciona qualquer processo de escolha, uma vez que a eleição de alguma coisa representa um ideal que desejamos alcançar. Sendo um aluno medíocre, logo nos comparamos com o melhor da turma, e meu ideal é ser ainda melhor. Só temos olhos para o oposto, e ali focamos nossos objetivos, o que representa uma fuga óbvia à realidade.

E embora não possamos prescindir da escolha, podemos abrir mão dos opostos e optar apenas pela realidade. Diante dos fatos estaremos qualificados a compreender que, não importa qual seja nossa escolha, isso representa um benefício, uma possibilidade de aprendizado e experimentação. E mesmo quando o processo se mostra adverso, não podemos nos esquecer de que, sem os aparentes erros de percurso, não existiriam os definitivos acertos de curso.

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