Artigos para Autorreciclagem

O Contraditório e Conflituoso Mundo dos Educadores

Educar sem Vocação é o Mesmo que Conduzir um automóvel privado de Visão...
"Ao se dispor a Compartilhar aquilo que aprende, o Educador, além de praticar sua vocação, exercita e amplia sua cognição e criatividade..."
O Contraditório e Conflituoso Mundo dos Educadores

Dotado do conhecimento adequado, o educador finalmente estará apto a não repetir o Inadequado...

Examinando os Princípios que dão forma à Questão...

É estranho o hábito, algumas vezes até inconsciente, da busca pelo mérito em tudo que nos prestamos a fazer. E desde que a busca pelo mérito se tornou o objetivo existencial para uma expressiva maioria, o medo do fracasso tende a se apresentar como uma sombra assediadora capaz de povoar as noites mal dormidas de um expressivo contingente.

E algo que é feito exclusivamente por obrigação, será isso capaz de nos proporcionar alguma alegria ou contentamento mais duradouro? Obrigação não é a mesma coisa que fazer à força? Se não desejamos realizar uma tarefa, seu cumprimento só será possível contra nossa vontade, por força de algum tipo de ameaça, repressão ou anseio meritório.

Quando vão à escola, a princípio, na maioria das vezes, os alunos não o farão de forma espontânea ou com boa vontade. Para isso existem os meios que são usados para convencê-los da necessidade daquele compromisso. E a frequência à sala de aula todos os dias, mesmo para aqueles que gostam da vida acadêmica, não ocorre sem um motivo ou promessa de alguma compensação, ou prêmio, ao final do período letivo.

A recompensa ao final dos estudos é o agente motivador, a autoridade maior que os obriga a frequentar durante anos aquela instituição, cumprindo com rigor os horários e metas estabelecidas. Trata-se de um dever que todos, por uma determinação social, são solicitados a cumprir. Não pode haver dissidências ou serão considerados cidadãos “não qualificados” ou de terceira classe.

Para aquele que idealiza uma vida regular, politicamente correta, aquilo representa a garantia de que mais à frente irá conseguir estabilidade financeira, sucesso profissional e aparentemente realização pessoal. Isso é tudo. E embora todos desejem a bonificação ao final daquele longo período de engajamento, na maioria das vezes, o comparecimento não é voluntário. E isso constitui um dos maiores e mais problemáticos paradoxos na vida dos educadores.

Afinal de contas, eles estão diante de um exército de alunos, que, em sua maioria, não frequenta a sala de aula por livre iniciativa e espontaneidade, e o pior de tudo, o mesmo ocorre com um expressivo número de educadores. Como lidar com isso se torna um dramático desafio.

O verdadeiro papel do Educador jamais será apenas aquele que as diretrizes escolares determinam...

Qual o papel do educador e do discente? Do educador seria qualificar o aluno de acordo com as diretrizes educacionais vigentes. A intenção é qualificá-lo minimamente para que depois seja capaz de se engajar no mercado de trabalho.

Durante essa jornada, ocasionalmente, algumas normas de convívio social, ética e comportamento, ainda que de forma minguada, são lembradas, embora não façam parte da pauta curricular regular. Quem já viu avaliação final para medir a ética de cada um, ou o tamanho do bom senso, ou ainda formas de comportamentos produtivos? Então o que podemos deduzir?

Diante de tudo isso, ciente dos desvios de comportamento próprios do modelo educacional praticado, onde as distorções nunca são tratadas da forma adequada, onde posturas patológicas são replicadas como repertório cognitivo, o que resta ao educador? Estamos nos referindo ao educador exceção, aquele vocacional, e não aos demais, cujo exercício da função ocorre apenas por conveniência, ou obrigação circunstancial. Para esse segundo grupo, mudança não é uma coisa desejável. É como o médico que vê na cura do paciente uma ameaça à manutenção do seu posto de trabalho.

Entretanto, em meio a esse universo de educadores, há um grupo que escolheu o magistério da pedagogia por vocação, e esta questão é dirigida a eles. Desse modo, o que um educador com esse perfil poderia fazer diante desse quadro?

A prática do princípio da dúvida deveria ser o primeiro passo, a primeira disciplina extracurricular que ele deveria ensinar aos seus discentes. Duvidar de tudo, não acreditar só porque foi publicado e assinado por alguém notório, ou atestado por uma grande autoridade especializada. Deveria começar expondo, através de exemplos, um fato já consagrado, de como as mentiras não contestadas, através da sistemática e perseverante repetição, em pouco tempo, acabam por se fixar como verdades. Chamamos a isso de o princípio da desinformação.

Desejando o educador ilustrar com exemplos práticos sua abordagem, poderia falar sobre os alimentos industrializados, de como os fabricantes enfatizam os benefícios dos seus produtos, ocultando deliberadamente os efeitos colaterais ou nocivos. Para isso os alunos deveriam aprender sobre os efeitos dos conservantes, aditivos, corantes, estabilizadores, realçadores de sabor. E de posse dessas informações, teriam mais argumentos para praticar o princípio da dúvida, agora com um aporte técnico consistente.

Ao final de cada questão dessa natureza, o objetivo não seria discutir quem está com a razão, mas deixar claro para todos, que até prova em contrário, nenhuma informação deverá interpretada como fato. Nesse caso, o mais importante da toda questão, seria a compreensão de que todas as coisas dessa natureza possuem dois lados, e não apenas aquele exibido publicamente na embalagem.

Os alunos também deveriam aprender como se inicia uma investigação por conta própria, e quais são as técnicas necessárias para a refutação consistente de uma questão. Outro ponto relevante seria aprender a respeito do processo digestório, aquela avaliação lúcida que ocorre antes que uma informação seja aceita indiscriminadamente com fato. E tudo deveria começar com o exame cuidadoso da qualidade da fonte disseminadora. Afinal de contas, sabemos como é prática cada vez mais comum, a veiculação de falsos laudos científicos com a intenção de construir uma imagem robusta para um novo produto, ideia, crença ou ideologia.

Capacitá-los para enxergar o óbvio, deveria ser o primeiro passo. Se alguém oferece para venda uma fórmula infalível para enriquecimento rápido, ou ainda a oferta de prêmios milionários, ou vantagens através de qualquer meio, mostre as evidências, com argumentos lógicos, axiomáticos, incontestáveis, de que aquilo pode ser um engodo, uma bem elaborada mentira.

A partir dos exemplos mais simples, poderão depois chegar às questões mais complexas. O princípio da dúvida só funciona se o educando for capaz de comprovar sua eficácia. Ciente de que poderá aprender a partir do meticuloso exame das coisas, de que a descoberta de muitas verdades depende apenas desse interesse, o caminho para a independência mental ou exercício da inteligência estará aberto.

E logo deixarão a alienação de lado, não mais terão seus cérebros lavados e adubados com os idiotismos da moda, com as posturas nosográficas e as manobras subliminares criadas para reprogramar a vontade dos incautos, dos inocentes por acomodação e tolos por instrução.

Uma Reflexão Final...

Mas, para que o educador tenha sucesso em sua nova empreitada, deve, em primeiro lugar, fazer seu dever de casa. E isso começa com a autoexperimentção desse tipo de postura em si mesmo. Nada supera a autovivência. Assim, comprovado o fato, não terá que convencer seus alunos ou filhos de coisa nenhuma. O autoexperimentador agora tem gabarito para se tornar uma cobaia viva, apto a demonstrar através de exemplos concretos, aquilo que ele próprio já constatou através da autoexperimentação.

E diante de fatos irrefutáveis, apenas os estúpidos ainda desejarão permanecer na ignorância. Mas convenhamos, esse educador sabe que seus esforços não serão direcionados para esse segundo grupo.

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