Dicas para Autorreciclagem

O Que as Crianças Deveriam Aprender

Um lenhador, certa feita, comprou um machado com cabo de ferro por se dizer defensor do meio ambiente, quer dizer, das árvores...
Sem cair na tentação de questionar por que o tradicional modelo educacional não funciona, ou o que as escolas deveriam ensinar aos nossos filhos... no papel de pais ou responsáveis, afinal de contas, o que nós podemos ensinar a eles?
O Que as Crianças Deveriam Aprender

Um animal irracional é domesticado pela indução do medo e promessa de recompensas... Será que nós, como animais racionais, também precisamos adotar na íntegra esse mesmo modelo cognitivo como regente para nossas vidas?

Uma vida de Faz de Contas...

Observe o mundo artificial que criamos para nossas crianças. Ali, naquele mundo de faz de contas, os personagens nunca são de verdade, e mesmo os objetos comuns são modificados e ganham uma aparência bizarra. E a essa desconstrução da realidade damos o conveniente nome de modelo cognitivo criativo.

O mesmo ocorre quando introduzimos em suas vidas as fantasias, os reinos mágicos e os mundos encantados, criados para entretê-las. E aparentemente o que esperamos obter a partir dessa abordagem deveria ser uma qualificação cognitiva diferenciada, um molde que deveria funcionar como uma espécie de chave capaz de incitar e potencializar suas sinapses criativas. Mas, a despeito do que preconizam os teóricos da educação, parece que a medida não tem funcionado ao longo de incontáveis gerações.

Para uma bem estruturada e sólida indústria, a mesma que é responsável pela criação e manutenção de tais fantasias com seus espetaculares e bizarros mundos, há uma conseqüência, e esta conhecemos bem: chama-se lucro. Pelo menos para eles a empreitada é um projeto bem sucedido. Mas, para eles, o que menos importa é a qualidade da educação colocada à disposição dos nossos filhos. Por isso há nas sombras uma espetacular máquina publicitária a tentar nos convencer de que todo esse aparato ou circo mágico, além de necessário, é o caminho mais inteligente na trilha da pré-qualificação infantil.

Diversão é uma coisa, trata-se de uma atividade lúdica com objetivos cognitivos claros, e isso, para o desenvolvimento salutar da psique infantil é imprescindível. Mas, para criar um ambiente alegre, divertido, cativante, e ao mesmo tempo com potencial cognitivo de valor não precisamos nos ausentar do mundo real. Não se edifica uma realidade, nem se pré-qualifica um cérebro que deverá estar apto a resolver problemas concretos usando como alicerce uma concepção surreal.

Ocorre que, para uma criança, não existe fantasia, ou um mundo de faz de contas capaz de acomodar o impossível; existe apenas a realidade, e, para ela, tudo aquilo é real. Seus olhos ainda não estão aptos a ler e interpretar com a mesma precisão dos adultos. Seu cérebro é incapaz de traduzir o que vê sem nunca ter experimentado.

No entanto, fica a mensagem de que nossos problemas reais serão solucionados por heróis mágicos dotados de força infinita; ou ainda por objetos místicos que transformam pedra ou ouro, sempre que evocados. Fica plantada a semente do sujeito que espera crescer, mas que não se vê como responsável pelo seu destino, nem como capaz de mudar o mundo através do esforço voluntário, por meio de atos conscientes.

A Técnica da Omissão por Ignorância...

Na maioria das vezes, dentro da realidade de cada lar, independente de mesologia, uma criança e mesmo um jovem pré-adolescente ou mais velho, tende a desconhecer os problemas familiares e adultos, e o mais absurdo, estranham até as nuances da própria fisiologia. Ocorre que entre os pais predomina um mito de que esse jovem é incapaz de compreender e assimilar as variantes que já fazem parte do cotidiano adulto. Paradoxalmente, esses mesmos pais glorificam a formidável capacidade e potencial intelectual desses jovens quando o assunto são as novas e complexas tecnologias, com as quais se relacionam com invejável desenvoltura.

Onde está o erro? Ora, se os jovens são capazes de assimilar tecnologias complexas, por que não estariam aptos a compreender coisas infinitamente mais simples como são os problemas estruturais e corriqueiros que rondam o ambiente familiar? Precisamos entender uma coisa: o fato de expor para eles um problema não significa que haverá transferência, delegação ou o peso de responsabilidades. O ato de compartilhar serviria apenas como informação, para cientificá-los de que eles, os problemas, existem; que representam, até esse momento, uma parte indissociável e importante do viver humano.

Mas, talvez o problema maior seja a postura autoritária e inflexível dos teóricos educacionais, cujas abordagens encarceradas no tempo nunca são convertidas em resultados práticos. São eles que nos dizem o que fazer; no que pensar; como pensar. Controlam nossos sonhos e desejos como se fossemos autômatos sofisticados movidos pela corda dos seus caprichos, devaneios e paranóias. E apenas seguimos o roteiro, passivos, obedientes, submissos, receosos de questionar o porquê de tanto absurdo; se curvando sem contestar mesmo diante da absoluta ausência de resultados profícuos e de toda tragédia que desfila diante dos nossos olhos.

O condicionado que conduz ao Medo...

De perder é nosso maior receio; seja um status, uma ideologia, uma crença; seja o que for. Apoiamo-nos na autoridade de uma tradição, e esse ideario ou fantasia seguramos firme como muletas na esperança de que também possamos usar como rédeas para controlar nossos filhos, ou conduzir nossos relacionamentos. Se o mesmo argumento que nos move tem a força necessária para nos subjugar, então, por que também não usar esse sistema doutrinário para amestrar, por exemplo, nossos filhos?

Formar crianças livres e felizes não é nossa meta, e na verdade não temos nenhuma meta. O ato de ser bem sucedido, em nossa pauta existencial, se limita a ter uma profissão rentável e uma qualidade de vida suportável. É essa proposta que nos coloca na linha; eis o resumo do que temos como objetivo final para nosso existir. E é assim que passaremos essa vida, sempre à espera daquela transformação mágica que virá de fora para dentro; que além de remediar todos os problemas conhecidos, será capaz de suprir até as carências que desconhecíamos ter.

No entanto, esse dia nunca parece chegar. Por isso trabalhamos com afinco, resignados, confiantes nas promessas dos nossos respeitáveis guias, ora no papel de ministros religiosos, políticos, gurus doutrinários, autoridades cujo discurso não se deve contestar. Suas palavras nos confortam; nos acalentam. Dizem o que queremos ouvir, e parecem saber exatamente do que precisamos; conhecem como ninguém o caminho capaz de nos conduzir a um estado de paz permanente.

E há sempre a esperança de dias melhores. E como cegos seguindo um cão guia, preferimos nos encolher na acomodação, na crença de que tais autoridades, embora, paradoxalmente, sejam os mesmos autores de toda confusão no mundo, estejam zelando para que esse advento maravilhoso um dia se torne realidade. E como não poderia deixar de ser, a exemplo dos contos de fadas, tudo deverá acontecer como num passe de mágica, quando uma espécie de herói mitológico virá anunciar a boa nova. Eis a fantasia que até esse momento temos a oferecer como herança existencial para nossos filhos.