Uma Opinião Crítica
Uma Opinião Crítica
A História da Obsolescência Planejada
Autor: Editoria: Site de Dicas[1]
29 de março de 2016
A curta história de como as indústrias deliberadamente encurtam a vida útil dos seus produtos para aumentar seus lucros.
"A descoberta de alguma coisa nova só é possível quando existe dúvida..."
A História da Obsolescência Planejada
Para as grandes corporações o lucro é apenas um objetivo secundário, uma vez que o primário é a manipulação e controle das mentes do seu cativo público alvo...

Um Conto Reflexivo: Ao arar a terra um agricultor achou um pote cheio de ouro e disse: "E eis a Riqueza sem uso, de um rico obtuso, que guardou para outro usar, mesmo sem concordar..."

Frase enfática de um gestor de negócios: “Se os indivíduos são bem trabalhados desde a infância, fica mais fácil conduzi-los como marionetes, depois de crescidos...”

“Não importa se o modelo ainda funciona e atende plenamente às necessidades do usuário, mas, precisamos criar na mente do consumidor o conceito de que é um modelo ultrapassado, obsoleto...”, Frase de um grande publicitário, explicando para o cliente sua ideia de abordagem para o lançamento do novo produto.

Há em nossos dias uma espécie de planejamento antecipado que determina o ciclo de vida útil de cada bem durável que adquirimos. E isso quer dizer que já saem da linha de montagem das fábricas com o dia do seu fim decretado, quando deverão ser substituídos por modelos iguais em utilidade, mas diferentes em estilo, quer dizer, aparência.

No entanto, longe do modelo anterior ter se tornado imprestável de fato, todo um condicionamento mental habilmente arquitetado se encarregará de convencer o indivíduo do contrário. Trata-se apenas da aplicação do princípio da obsolescência planejada, onde o objetivo por trás da campanha é enxertar na mente do comprador a ideia fixa de que ele precisa do novo modelo.

Talvez mesmo o grande sonho das indústrias de produção em massa, fosse um material capaz de ser programado para se autodestruir às vésperas do lançamento da campanha de promoção do modelo mais recente. Mas enquanto isso não é possível, a máquina de vendas, a cada nova temporada, torna-se ainda mais eficiente na sua estratégia de convencer o consumidor de que ele está desatualizado, o que quer dizer, forçá-lo a trocar seu velho acessório por um novo.

Se um produto funciona e se torna popular em consumo, está aberto o caminho para a temporada de atualizações sem fim, onde o novo se torna velho logo que o consumidor o tem em mãos. Eis a frase de um gerente de novos produtos, de uma grande indústria de bens de massa, e que sintetiza bem o que pensam sobre o consumo: “O estilo é capaz de destruir completamente o valor de um novo modelo, embora sua utilidade permaneça a mesma.”

Os meios propagadores do consumo em massa, não estão preocupados com o bem estar de quer que seja, mas antes disso, apenas em escoar suas bugigangas a qualquer custo. Lucro para eles é importante, mas ter o poder de dominação sobre seus consumidores tornou-se uma doutrina existencial. O que conta mesmo é o ato de brincar de conduzir seus pequenos animais que podem ser amestrados à vontade, cujos desejos eles controlam; cujos destinos estão em suas mãos.

E a despeito do bem estar social que argumentam promover às sociedades, não fossem os lucros obtidos com suas vendas, fechariam suas portas e toda sua suposta motivação altruísta seria deixada de lado.

É puro eufemismo e jogada de marketing quando alardeiam publicamente seu papel quase filantrópico para com os funcionários, assim como os propósitos sociais e humanitários que insinuam promover. E nos bastidores, cada vez mais automatizam seus parques industriais, demitindo empregados aos montes, deixando de lado a ideia de cruzada social na qual, diante da opinião pública, supostamente estão empenhados.

Conhecedores que são da natureza do homem sabem como criar novas necessidades, que poderão, ao longo do tempo, se transformar em outras tantas. A técnica é simples: depois de criado um hábito, o segredo é reforçá-lo todos os dias. É como um vício, que depois de condicionar o indivíduo, precisa ser reciclado periodicamente para que ele não desenvolva resistência.

Já ao nascer, mesmo sendo incapaz de pronunciar uma palavra sequer, é a criança um consumidor voraz que movimenta uma indústria bilionária em todas as partes do mundo. Os senhores das vendas investem pesado no lado emocional dos pais, e assim criam seus primeiros consumidores, mesmo sendo eles incapazes de decidir sobre o que deverão ou não comprar.

De olho na eterna insatisfação e angústia humana, da infinita necessidade de preenchimento para o seu grande vazio interior que não consegue explicar, logo a indústria do consumo viu ali uma oportunidade singular de ajudá-lo na solução do “problema”. “Se o homem não sabe o que fazer para se livrar da angústia existencial, e se ainda por cima desconhece seus objetivos de vida, se não consegue preencher o saco sem fundo que são suas carências, então, nós cuidaremos de tudo...”, é o argumento.

E vão mais além ao defender seus conceitos. “A indústria do consumo tem todas as respostas que eles procuram. Entretanto, como não sabem exatamente o que procuram, basta que lhes digamos o que é, e claro, irão aceitar isso de boa vontade, com o coração aberto. Nosso pensamento comum, nossa força motriz: "Nós lhes daremos o que procuram. Diremos como deverão viver e porque vivem; atenderemos todas suas necessidades, e caso não exista nenhuma, claro, nós as criaremos...”

Quando a indústria do entretenimento voltada para o público infantil criou centenas de filmes para promover seus produtos, um novo mercado passou a existir. A ideia de criar fantasias completas na forma de heróis em formato de desenho animado era grandiosa e fantástica, e se desse certo, teriam pela frente um mercado antes quase ignorado.

A abordagem era simples: Primeiro criariam as séries animadas, um tipo de mídia com grande apelo emocional sobre as crianças, e estas seriam distribuídas às estações de televisão de todo o mundo, a custos tão incrivelmente baixos, que seria quase impossível a recusa em tê-los na grade de programação, e o mais importante, não exibi-los. O argumento para a promoção de tais seriados era passar a ideia de que teriam um conteúdo educativo, edificante, de grande valor cognitivo e edificante para todas as crianças.

Mas havia um problema, uma vez que nas televisões mundo afora não existia a cultura atual dos programas infantis diários, com os apresentadores mambembes e todo o circo à sua volta, como hoje está consolidado. E isto era fundamental como pano de fundo, de veículo ou palco, para a exibição desses filmes. Afinal de contas, para que um gatinho amestrado caminhe até sua tigela de comida com os olhos fechados, precisa ser adequadamente condicionado.

E eles não apenas distribuíram os modelos de funcionamento de tais programas mundo afora, como também financiaram a maioria deles, tornando viável a exibição dos seus produtos. Desse modo puderam distribuir seus desenhos, suas vitrines animadas para promover uma indústria milionária que estava prestes a surgir.

Não estavam sozinhos, pois logo outros segmentos viram naquela iniciativa a oportunidade de criação de novos nichos de mercado, como o de produtos alimentícios, roupas e itens de consumo, acessórios que uma criança jamais imaginaria ser possível, um dia, possuir. Assim, a criança ganhou um status que antes, no mundo corporativo do consumo, pertencia apenas aos adultos.

Brinquedos, alimentos, roupas, publicações especiais, colônias de férias, pacotes de viagens, linhas especiais de cartões de crédito, poupança programada, fundos de investimentos para financiar estudos no futuro, aparelhos eletrônicos especialmente projetados para o público infantil, enfim, uma linha de produtos tão vasta como nunca se viu antes.

Criaram até um estilo de vida próprio para cada faixa etária infantil, determinando como deveriam se vestir, o que deveriam consumir, e tantos outros modelos de comportamento que deveriam adotar. E a intenção de tudo isso? Escoarem seus produtos, os novos e os velhos com cara de novos.

Atualmente há uma transformação evidente nas formas de consumo, e o tempo de duração de cada produto que chega ao mercado, tem o firme propósito de preparar o caminho para o seu sucessor. Já chega às prateleiras das lojas com o dia do seu fim decretado. Isso não significa o fim de sua utilidade, mas a data a partir da qual seus possuidores deverão ser alertados para a necessidade de troca.

É uma abordagem psicológica, e mesmo que o objeto esteja em perfeitas condições de uso, psicologicamente, a máquina de vendas irá se encarregar de torná-lo indesejado na mente do consumidor, decretando sumariamente sua obsolescência, seu funeral. É uma decisão planejada, e um produto abrirá caminho para os muitos modelos que virão no seu lastro.

A cor da moda, se antes era uma exclusividade da indústria do vestuário feminino, há muito tempo seu domínio se estendeu às outras áreas. Os objetos mudam de cor de acordo com as estações do ano. E quando meia dúzia de consultores, os principais acionistas por trás dessa gigantesca indústria de criar novas manias de consumo se reúnem para decidir o que é ou não estético no modo de vida das pessoas, ali também já fica acertado quanto tempo essa nova tendência, ideia ou comportamento programado, deverá permanecer em atividade, ou reverberando, na mente do público.

Desse ponto em diante, os criadores de tendências e reprogramadores do consciente e inconsciente coletivo, deverão entrar em cena com suas abordagens “mágicas”, cuidando de deixar o caminho aberto para os novos lançamentos.

Mas um produto não precisa ser de fato novo para tornar outro obsoleto, e de fato a maioria não é. Basta a inclusão de um pequeno detalhe no design, uma mudança dos padrões de cores ou no nome. Pode ser também a inclusão de um item desnecessário, e depois a máquina de marketing irá se encarregar de convencer seus cativos que de fato se tornarão infelizes, caso insistam em continuar com o modelo antigo.

A euforia coletiva parece ser o caminho mais curto para a rápida disseminação de uma ideia, que é a força motriz para que os novos produtos, chegando ao mercado, ganhem a preferência do público. Eles promovem uma ideia, ou um conceito abstrato em forma de produto, com tamanha eficiência, que o infeliz consumidor adquire alguma coisa totalmente convencido de que aquela “benção” ou símbolo, em forma de produto, irá transformar sua vida.

As abordagens promocionais são claras e celebram a ideia de que, além do produto, que já deixaram claro ser um investimento, você está levando para casa uma vantagem. E há uma intenção deliberada de incutir na mente do indivíduo, que sua identificação com aquele item, ideia ou nome comercial, é uma espécie de chave, estilo, ou símbolo mágico, capaz de torná-lo importante, superior, diferenciado em meio aos demais.

No entanto, o maior trunfo dessa máquina de convencer pessoas a comprar, está em criar novos hábitos antes inexistentes. E, depois de criada a dependência, abre-se o caminho para futuras e sempre constantes atualizações. Assim, o consumidor não compra apenas um produto, e ele também é convencido de que está levando para casa muito mais que um simples objeto ou utilitário. É a estratégia do condicionamento mental, através da indução de uma calculada postura psicológica, que acaba por se tornar um importante valor agregado ao produto.

E a compra de um bem para uso diário é convenientemente, eufemisticamente, rotulada de investimento, ou uma conquista social, um símbolo de status, algo capaz de assegurar ao seu feliz possuidor vantagens que extrapolam o senso comum, que vão muito além daquelas que já parecem óbvias.

Fim do Texto
Editoria de Educação do Site de Dicas.
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Sobre o Autor:
[1] Alberto Silva Filho - albfilho@gmail.com
O autor é um dos organizadores e coordenadores do Site de Dicas.


Observação: O autor não possui Website ou página pessoal na Internet.

Bibliografia sugerida:
A Estratégia do Desperdício, Vance Packard, Ibrasa, são Paulo, 1965. O título original americano é "The Waste Makers", e foi publicado originariamente em 1960.

Os artigos aqui apresentados, além de refletir nossa opinião sobre os diversos assuntos da atualidade, são resultados de estudos antropológicos e sociais dos nossos pesquisadores, que ora compartilhamos como nosso público leitor.

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