Uma Opinião Crítica
Uma Opinião Crítica
A Propaganda e as Crianças
Autor: Editoria: Site de Dicas[1]
28 de março de 2016
Uma breve história de como surgiu a próspera indústria encarregada de criar os hábitos de consumo direcionados especialmente para o público infanto juvenil.
"O pior dos males não é o maior, mas aquele que é consentido..."
A Propaganda e as Crianças
"Se bem trabalhados desde a infância, fica mais fácil conduzí-los quando adultos...", frase de um agente de publicidade sobre a importância do condicionamento infantil.

Um Conto Reflexivo: Conhecedor da sabedoria do seu mestre, questiona o aprendiz como chegar à tal condição, ao que lhe responde o mestre: "Aprenda ao questionar, questione ao aprender, questione se aprendeu, aprenda com o que aprendeu...”

Nas décadas de 50 e 60, nos Estados Unidos da América do Norte, nação notória por ser capaz de propagar de forma eficaz seus costumes e manias dentro do chamado hemisfério ocidental, as grandes associações de vendedores, que sempre trabalharam em conjunto com a indústria da publicidade, se reuniram num grande evento privado para comemorar o estrondoso índice de natalidade, o maior dos últimos anos verificado naquele país.

Era a época do pós-guerra, e a nação americana que tentava se afirmar como maior potência mundial motivada pelo êxito na campanha bélica, claro, incentivava seus jovens casais a procriar como nunca. Isso consolidaria sua presença na terra como uma nação de muitos, uma potência do tamanho da sua população. E nunca antes os casais daquela nação tiveram tantos filhos. Afinal de contas, o ato da procriação era considerado um dos mais relevantes gestos patrióticos.

Nessa época, a indústria da publicidade, isso não é fato novo, desenvolveu suas mais inovadoras e criativas técnicas para a promoção de bens duráveis. Valia de tudo para a incitação ao consumo, inicialmente, apenas dentro dos Estados Unidos da América.

E a despeito de existir o resto do mundo, suas ações se voltavam para o consumo interno, uma vez que a população, a nação, concentrava todos os seus esforços em busca de afirmação, da homologação do seu nome como uma espécie de guardião ou anjo da guarda, encarregado que seria de intermediar e erradicar as injustiças do mundo.

A razão de ser? Simples, acabara de se consagrar como coordenadora e uma das principais forças, responsável direta pela execração do “inimigo da humanidade” na segunda Guerra Mundial. Assim, protocolar de vez seu posto de Grande Potência, como uma espécie de agência reguladora de costumes sociais e políticos para o resto do mundo, era fundamental.

E para demonstrar que seus métodos estavam certos, nada como exibir para o resto do mundo sua vitrine de virtudes e métodos que funcionavam. A ideia era simples: se funciona e parece bom para nós, também o será para todo resto.

Por isso mesmo as campanhas maciças promovendo o consumismo interno evocavam especialmente o patriotismo. E as grandes agências publicitárias viam ali a oportunidade de ouro para vender qualquer coisa. Afinal, era um apelo nacional. E não se tratava do hábito de “simplesmente comprar”, mas de um gesto nacionalista. “Comprem, comprem sem parar e ajudem a nação a prosperar!”, era o apelo na ocasião. Depois vieram as campanhas incentivando cada cidadão a possuir duas unidades de cada coisa, de bens duráveis, bens de uso pessoal, e até mesmo casas e automóveis.

No embalo de construir uma mentalidade inteiramente voltada para o consumo dos bens produzidos pela indústria local, de olho no futuro, incentivava-se agora o aumento da natalidade. “De que serve uma grande nação sem uma grande população?”, era a pergunta que jogavam para os jovens casais. O governo, dando lastro a tudo isso, incentivava o aumento da natalidade, inclusive usando argumentos religiosos, já que aquela grande nação deveria ser a responsável pela propagação de suas virtudes, inclusive de sua pedagogia religiosa, mundo afora.

“Tenham filhos, tenham filhos aos montes e ajude nossa nação a se tornar ainda maior.” E foi o que aconteceu.

E nos bastidores do mundo das vendas, todos comemoravam tal advento, afinal de contas, os consumidores do futuro estavam sendo produzidos aos montes, como se fossem brinquedos eletrônicos, ávidos por consumir pilhas. E um mundo de possibilidades ainda não exploradas pela máquina de vendas se abria, a exemplo de uma fabulosa arca do tesouro, cujo conteúdo deveria pertencer a quem conseguisse chegar à frente.

Pensavam os vendedores: “Atualmente, nossas vendas, direcionadas apenas aos adultos, chegam num limite crítico, perigoso, pois quase não conseguimos mais convencê-los a comprar nossos produtos. Mas, agora que podemos usar as crianças para convencê-los, um novo e quase infinito mercado de possibilidades está diante de nós, prontinho para ser explorado. E com uma vantagem: este público nós podemos construir, modelar, condicionar à nossa vontade. Podemos pela primeira vez, criar indivíduos controláveis, ainda aos pés do berço...”

E nascia assim um mercado de consumo infantil. E a máquina publicitária se concentraria em criar naquelas crianças, uma forma de pensamento direcionado, controlado e planejado. Um condicionamento de acordo as expectativas comerciais da indústria, inteiramente focado no consumo de seus produtos, e para isso valia qualquer coisa. Consolidavam-se de vez, as técnicas de alto impacto para o condicionamento em massa.

E uma ciência chamada Neurolinguística, uma técnica capaz de reprogramar mentalmente quem quer que seja através de palavras habilmente selecionadas e mensagens subliminares, ganhou força e foi aperfeiçoada.

Para os vendedores desse novo tempo, aquele mercado emergente, o infantil, era fabuloso, uma vez que poderia ser imediatamente usado. Já possuíam as técnicas, e todo trabalho agora era apenas convencer os pais a consumirem mais produtos para seus pequenos. E mais tarde, gradualmente, esse promissor mercado, poderia ser “talhado” de acordo com os interesses da sempre faminta máquina de vendas.

A despeito do grandioso mercado infanto-juvenil que se vislumbrava, os vendedores foram lembrados de que um dia, todas aquelas crianças se tornariam jovens. Um dia iriam se casar, e então se tornariam verdadeiros gastadores, desde que fossem convenientemente “educados”, domesticados, orientados, para esse fim. E diziam as campanhas internas de vendas, alertando os publicitários a levarem em conta esse imenso público em suas campanhas: “Agarrem-nos enquanto estão na idade de agarrar. Programe-os enquanto estão na idade de ser programados!”

Orientações dentro das grandes corporações e agências publicitárias, alertava os redatores, de que o jovem, após passar de uma faixa de consumo para outra, isto é, quando deixavam a fase do bebê ou criança pequena e adentravam na faixa dos sete aos doze anos, estavam na idade ideal para adquirir novos hábitos, e com uma vantagem importante: se a mensagem introduzida em seus cérebros novinhos e inocentes fosse bem trabalhada, poderia servir para toda vida.

Assim nascia a fabulosa e ainda hoje próspera indústria de fabricar desejos para as crianças e jovens, para depois, obviamente, suprir com seus produtos. “A criança de hoje é bem esclarecida; é como um adulto, já sabe exatamente o que quer. Sabe o que deseja para se realizar, para ser feliz!”, diziam com exagerado eufemismo nos bastidores, e depois nas campanhas que estimulavam essa “independência”, como uma espécie de incentivo, onde os emancipados poderiam exercer à vontade o seu “Livre arbítrio”.

“Vamos controlar suas vontades, seus desejos, seus comportamentos e personalidades, tomando cuidado de direcioná-las, claro, para o consumo. E esse consumo deverá crescer cada vez mais. Não são nossos clientes, são acima de tudo, nossos parceiros. E ao final de toda essa lavagem cerebral, irão dormir e sonhar com esse ideal de felicidade, que logo fará parte de seus inconscientes, hoje e pelo resto da vida.” E foi o que de fato aconteceu.

E os grupos mais jovens, antes ignorados pela máquina de vendas, aos poucos, sufocados pela maciça e milionária campanha publicitária que se seguiu, foram inteiramente “domesticados” para assimilar os novos e mais variados desejos.

Desse modo, nascia uma sólida, e cada vez mais eficaz máquina de criar novos consumidores e comportamentos. E ainda havia um grande e positivo efeito: Bem “trabalhados”, esses novos consumidores, se tornarão competentes multiplicadores voluntários do conceito entre seus descendentes, ou mais próximos.

Rádio, televisão, livros, programas infantis, peças teatrais, cultos religiosos, contos infantis, tudo foi criado, transformado ou adaptado, para “conscientizar” esses jovens da sua nova posição, função, missão existencial diante desse novo mundo; uma postura voltada para o consumo, convenientemente disfarçada de patriotismo. Era como se aquilo, de repente, por uma determinação divina, se tornasse a chave mestra capaz de abrir a porta da definitiva felicidade.

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Sobre o Autor:
[1] Alberto Silva Filho - albfilho@gmail.com
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