Uma Opinião Crítica
Uma Opinião Crítica
A Síndrome do Culto às Coisas Inúteis
Autor: Editoria: Site de Dicas[1]
27 de março de 2016
Há uma deliberada campanha midiática que tenta transformar as mais extravagantes bizarrices e absurdos em coisas naturais...
"A felicidade que se compra em prateleiras de lojas nunca excede uma estação..."
A Síndrome do Culto às Coisas Inúteis
Logo chegará um tempo onde os indivídios dotados de bom senso, equilíbrio e ética serão tratados pela sociedade patológica como excluídos, ou anomalias...

De um redator publicitário para outro: “Na verdade o povo não sabe o que quer, afinal de contas, informar isso para eles é o nosso papel...”

Nos anos 50, ou antes, os produtos eram construídos para durar décadas e ainda não se falava em movimento ecológico. Em nossos dias, os produtos já saem das linhas de montagem com a data do seu fim decretado, mas sem nunca exceder cinco anos de vida, e o movimento ecológico está em plena ascensão. E você ainda acredita que eles estão falando sério?

Se no passado os faraós acreditavam que poderiam encaixotar toda fortuna acumulada ao longo da vida e levar consigo para usufruir ao longo da morte, apesar dos aparentes indícios de que nenhum deles obteve êxito, ainda hoje, entre milionários ou mais abastados, esse pensamento parece persistir, embora adaptado aos novos tempos.

Agora, ao invés de tentar o transporte extrafísico das riquezas materiais, proeza que ninguém até hoje conseguiu, tiveram a ideia de criar organizações filantrópicas – altruístas só no contrato social – com seus próprios nomes estampados nas fachadas, algo semelhante a uma carta de crédito para ser recebida após a vida.

Mas a prosperidade terrena não se limita a ter os cofres cheios de dinheiro ou posição social diferenciada, é preciso algo mais.

Por isso a ostentação é tão importante. Ocorre que na impossibilidade de demonstrar publicamente o status do seu valor social através da simples presença, o sujeito precisa de alguma ajuda. E para suprir essa lacuna, alguns protocolos e símbolos foram criados. Afinal de contas, de que serve um título de nobreza que não possa se reverter em benefícios diferenciados, vantagens que coloquem o seu detentor no degrau de cima da escala social?

Trata-se da aplicação do princípio do homem mercadoria. Sim, agora os homens são classificados socialmente, não pelo seu valor como uma entidade viva, e sim pela sua capacidade em gerar renda. Seu valor é determinado pelo mercado a partir do seu potencial em ganhar dinheiro, ou acumular riquezas.

Foi assim que nasceu a condição da medalha e pódio. E todo adestramento humano se concentrou em torno disso. De um lado o homem mercadoria tentando conseguir uma posição de destaque na vitrine, e do outro todo um sistema de distrações para entreter os espectadores, que enquanto idolatram seus ícones, aguardam sua vez de pular para dentro do reino das mil e uma noites.

E para esse público, considerado a mercadoria de segunda linha, foi criada toda uma estrutura social onde a possibilidade de ascender foi estabelecida como motivo existencial. Agora o homem não vive senão para ascender socialmente, mesmo sem saber o motivo, mesmo que não exista esse motivo.

E para que isso se tornasse uma coisa factível, foi preciso convencer os jovens de que o conhecimento inútil tem grande valor. Trata-se do mesmo princípio usado para convencer uma barata a consumir naftalina como se fosse uma iguaria fina, e depois fazê-la acreditar que o efeito colateral a partir de ingestão é apenas produto da sua imaginação.

Por isso contrataram os melhores profissionais especializados na desconstrução da educação para elaborar a nova pedagogia que seria aplicada em todas as sociedades modernas. E assim surgiram as escolas que não ensinam, e os educadores – embora não sejam todos – que deseducam.

Aproveitando o vácuo intelectual deixado em aberto, os meios de comunicação resolveram aderir ao sistema de imbecilização coletiva criando seu próprio e singular modelo cognitivo midiático. Foram bem assessoradas, afinal de contas, receberam ajuda de um segmento já acostumado a remodelar cérebros, a escola publicitária.

A regra geral, o objetivo central, era dramaticamente simples: Encontrar meios para criar indivíduos dependentes de coisas inúteis, e o mais importante, alérgicos aos pensamentos racionais e profícuos. Assim, ficaria mais simples conduzi-los pelas rédeas, a exemplo de animais amestrados completamente dependentes dos seus donos.

E como se consegue tal proeza? Simples, prometendo um reino ou condição social que supostamente é o motivo existencial de todos, embora seja impossível de se alcançar. Feitas as promessas, eles apresentam suas soluções mágicas para ajudar na empreitada, e tudo isso, em troca de dinheiro, muito dinheiro.

Mas é preciso algo mais. E um dos quesitos necessários é a substituição do conteúdo de cada cérebro por outro, onde o novo cidadão se sinta mais à vontade diante do processo de submissão aos novos costumes, ideias, ideologias e doutrinas, inclusive os absurdos.

E nesse novo modelo o maior problema é o tempo. Ocorre que ele, o tempo, se tornou um problema, especialmente quando há um cérebro ocioso por trás de cada indivíduo hospedeiro. Privado da capacidade de pensar por conta própria, ele se tornou dependente das atrações, ou passatempos, que cuidam de mantê-lo entretido enquanto a vida passa.

Sendo incapaz de planejar a própria vida, vive sob demanda da atração do dia. E sua vida inteira se tornou uma jornada a lugar nenhum. Assim, mantê-lo ocupado com coisas inúteis é crucial para o sucesso dessa nova pedagogia. E o maior efeito colateral é a rápida saturação, isto é, ele logo se enfastia de não fazer nada, o que pode proporcionar o surgimento do temível tempo ocioso.

Assim, oferecer-lhe muitas opções de distrações é a mais eficaz solução, e o mais importante, sempre cercado por tantas bobagens, jamais poderá resgatar sua antiga capacidade de pensar individualmente, talvez por falta de tempo.

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Sobre o Autor:
[1] Alberto Silva Filho - albfilho@gmail.com
O autor é um dos organizadores e coordenadores do Site de Dicas.


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Os artigos aqui apresentados, além de refletir nossa opinião sobre os diversos assuntos da atualidade, são resultados de estudos antropológicos e sociais dos nossos pesquisadores, que ora compartilhamos como nosso público leitor.

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