Artigos para Autorreciclagem

A Síndrome do Culto às Coisas Inúteis

Há uma deliberada campanha midiática que tenta transformar as mais extravagantes bizarrices e absurdos em coisas naturais...
A Síndrome do Culto às Coisas Inúteis

Logo chegará um tempo onde os indivídios dotados de bom senso, equilíbrio e ética serão tratados pela sociedade patológica como excluídos, ou anomalias...

A Origem...

De um redator publicitário para outro: “Na verdade o povo não sabe o que quer... Lembre-se, nosso papel é exatamente informar isso para eles...”

Nos anos 50, ou antes, os produtos eram construídos para durar décadas, e ainda não se falava em movimento ecológico, ambientalismo ou na preservação dos recursos naturais. Em nossos dias, os produtos já saem das linhas de montagem com a data do seu fim decretado, mas sem nunca exceder cinco anos de vida, e o movimento ambientalista está em plena ascensão. Será que a sociedade está mesmo levando isso a sério?

Se no passado os faraós acreditavam na possibilidade de encaixotar seus tesouros acumulados ao longo da vida e levar consigo para usufruir ao longo da morte, apesar dos indícios de que nenhum deles obteve êxito, ainda hoje, entre os milionários ou mais abastados, esse pensamento parece persistir, embora ligeiramente adaptado aos novos tempos.

Agora, ao invés de tentar o transporte extrafísico das riquezas materiais, proeza que ninguém até hoje conseguiu, tiveram a ideia de criar organizações filantrópicas – altruístas só no contrato social – com seus próprios nomes estampados nas fachadas, um salvo conduto ou carta de crédito capaz de ser resgatada após a vida.

Mas a prosperidade terrena não se limita a ter os cofres cheios de dinheiro, ou uma posição social diferenciada; algo mais ainda é necessário.

Por isso a ostentação é tão importante. Ocorre que na impossibilidade de demonstrar publicamente o status do seu valor ou poder através da simples presença, o sujeito precisa de alguma ajuda. E para suprir essa lacuna e melhorar a força presencial, alguns protocolos e símbolos foram criados. Afinal de contas, um título de nobreza precisa ser revertido em benefícios diferenciados; vantagens que coloquem o seu titular no degrau de cima da escala social.

A Origem do Homem Mercadoria...

Trata-se da aplicação do princípio do homem mercadoria. Sim, agora os homens são classificados socialmente, não pelo seu valor como uma entidade viva, e sim pela sua capacidade em gerar renda. Seu valor é determinado pelo mercado a partir do seu potencial em ganhar dinheiro, acumular riquezas ou poder.

E todo adestramento humano se concentrou em torno disso. De um lado o homem mercadoria tentando conseguir uma posição de destaque na vitrine, e do outro todo um sistema de distrações para entreter os espectadores, que enquanto idolatram seus ícones, aguardam sua vez de pular para dentro do reino das mil e uma noites.

E para esse público, considerado a mercadoria de segunda linha, criou-se toda uma estrutura social onde a possibilidade de ascender foi estabelecida como prioridade existencial. Agora o homem não vive senão para ascender socialmente, mesmo sem saber o motivo, mesmo que não exista esse motivo.

De olho na manutenção desse Status Quo, a nova mentalidade resolveu investir na doutrinação dos jovens cada vez mais cedo. Por isso o ataque maciço à revogação dos bons costumes, postura ética e do conhecimento útil. Ao mesmo tempo o culto e a pratica às coisas inúteis, vícios e comportamentos bizarros ganharam uma extraordinária visibilidade e rápida aceitação popular. Trata-se do mesmo princípio já usado para convencer o indivíduo de que os alimentos transgênicos são saudáveis, e depois fazê-lo acreditar que o efeito colateral a partir da ingestão regular é apenas produto da sua imaginação.

Os melhores profissionais especializados na desconstrução da educação foram convocados com o nobre propósito de elaborar a nova pedagogia que seria aplicada em todas as sociedades modernas. E assim surgiram as escolas que não ensinam, e os educadores – embora não sejam todos – que deseducam.

Aproveitando o vácuo intelectual deixado em aberto, os meios de comunicação resolveram aderir ao sistema de imbecilização coletiva criando seu próprio e singular modelo cognitivo midiático. Foram bem assessoradas, afinal de contas, receberam ajuda de um segmento já acostumado a remodelar cérebros, a competente escola publicitária.

O Condicionamento destruidor do Bom Senso...

Encontrar meios para criar indivíduos dependentes de coisas inúteis e alérgicos ao princípio da dúvida é uma pauta que sempre fez parte dessa nova pedagogia. E para mantê-los entretidos e alheios à realidade, nada como a criação e disseminação dos objetivos impossíveis de serem alcançados. Trata-se de uma garantia contra insurgências, o que colocaria em risco um estado de coisas onde o caos social é cultuado como uma divindade suprema.

E desde então o conteúdo de cada cérebro foi aos poucos removido e depois substituído por uma versão mais receptiva; mais submissa aos novos costumes, ideias, ideologias e doutrinas. E uma das cláusulas mais valorizadas nessa renovada ordem cerebral foi a adoção de novos comportamentos absurdos e cada vez mais patológicos.

No atual modelo de mente coletiva o maior problema é o tempo. Ocorre que ele, o tempo, se tornou um gargalo, especialmente quando há um cérebro ocioso por trás de cada indivíduo hospedeiro. Privado da capacidade de pensar por conta própria ou de planejar a própria vida, esse indivíduo se tornou dependente das atrações ou passatempos; das atividades que cuidam de mantê-lo subjugado ao mundo dos sonhos enquanto a vida passa.

E sua vida inteira se tornou uma jornada a lugar nenhum. Assim, mantê-lo asfixiado por uma espessa nuvem de coisas inúteis é crucial para o sucesso dessa nova pedagogia. No entanto, nos bastidores, há um efeito colateral importante, cujo principal sintoma é a rápida saturação. E logo o indivíduo se enfastia de não fazer nada, o que pode proporcionar o surgimento do temível tempo ocioso.

Assim, a máquina social corre contra o tempo. Criar novas e inúteis atrações para manter essa legião ocupada é fundamental. Tomados pelo tédio poderiam despertar para uma realidade capaz de conduzi-los à lucidez. Desse modo, a oferta de renovadas distrações e objetivos inalcançáveis, nesse momento, ainda é a mais eficaz solução, e uma prioridade acima de todas as outras.

Com o advento das superproduções, as bobagens patrocinadas ganharam cada vez mais visibilidade e requinte, e assim, por absoluta falta de tempo, a possibilidade desse público cativo resgatar sua antiga capacidade de pensar voluntariamente fica mais distante. Com isso o mecanismo social ganha um precioso tempo, o suficiente para esperar pela próxima geração, quando seus substitutos, certamente, pensarão em algo novo.

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