Artigos para Autorreciclagem

A Estratégia das Falsas Verdades – O Poder Condicionador da Mídia

Uma breve história do robusto e bem construído poder persuasivo, desinformador e condicionador, que existe por trás das grandes corporações midiáticas...
A Estratégia das Falsas Verdades – O Poder Condicionador da Mídia

Em nosso tempo, o indivíduo que se recusa a seguir o bloco de “Maria vai com as Outras”, corre o risco de ser considerado um psicopata social...

Uma Psicopatologia Social dos novos tempos...

Um Conto Reflexivo: Depois de passar a noite sonhando que era possuidor de um grande tesouro, ao acordar, aquele pobre agricultor exclamou para si mesmo: "Como parece coisa tão boa a ilusão... Como parece coisa tão má a realidade..."

A Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, realizou uma pesquisa inédita com 3,3 mil mulheres adolescentes em dez países e os resultados surpreenderam muita gente. Desse grupo, 92% com idades entre 15 e 17 anos responderam que estavam insatisfeitas com sua atual aparência e que gostariam de mudar alguma coisa no corpo, senão com intervenções cirúrgicas, através da automutilação com o uso de piercings, tatuagens ou outros processos.

Afirmaram as entrevistadas que aquele tipo de insatisfação repercutia de forma dramática em seus comportamentos sociais, temperamentos, interrelacionamentos, e a maneira de se posicionar diante da vida. E aquilo afetava a autoestima dessas jovens de uma forma tão importante que o assunto logo chamou a atenção dos psicologistas e demais cientistas da psique que estavam de plantão, imaginando como as sociedades antigas conseguiam viver sem profissionais do seu calibre.

No entanto, não acreditamos que eles enxergaram esse fato como uma psicopatologia ou deformidade social dos novos tempos, e sim, talvez, apenas como um importante elemento clínico, ou um pacote de ideias possíveis de serem exploradas de modo a atrair mais clientes aos seus consultórios, e, por que não, como um convite formal à indústria farmacêutica para criação de novos fármacos.

Entretanto, o caso tratado na pesquisa não é um fato novo. Imagine se insatisfação com a autoimagem é coisa nova. Atravessa os tempos, se renova a cada modismo, a cada mudança de estação. Mas, se não é novidade, o que então chamou a atenção desses compiladores, gestores ou certificadores das psicopatologias sociais?

A novidade é que nunca se viu tanto jovem, especialmente do gênero feminino, contagiados por tamanha paranóia. Sem muito interesse de explorar a fundo tal questão, claramente um problema social, logo, os comitês encarregados de rotular manias, aqueles conclaves que existem apenas para transformar em patologias aquilo que não convém ser investigado, foram convocados para explicar o fenômeno. E foi o que fizeram.

Agora vejamos o que concluíram esses psicologistas ao término da tabulação dos dados desse estudo.

Na falta de uma solução para um problema, basta rotular o caso como doença social e a questão estará resolvida. Uma criança que se torna um viciado em vídeo game, logo se torna um caso médico, e uma nova patologia é às pressas protocolada, mas nunca com o propósito de resolver a questão. Quando não se tem a intenção de enfrentar e resolver um problema, basta que seja classificado como doença social e outros absurdos, e está pronta a solução.

E os pais alegam falta de tempo para dar atenção aos filhos, e paradoxalmente tempo para os amigos nunca falta. De um lado pais omissos e egoístas que usam o excesso de trabalho como fuga para os problemas domésticos, e do outro um jovem carente, viciado numa máquina que lhe faz companhia sem reclamar, sem nada lhe cobrar, que está sempre disponível, noite e dia.

É a vida moderna. Os pais precisam trabalhar, até para prover o sustento dessa criança, que é na verdade um menor abandonado, apesar de compartilhar do mesmo espaço físico com o casal. Trabalham os pais mais do que precisam, deixando seus filhos à tutela de um mundo patológico, um professor aplicado e competente, quando o assunto é a replicação de suas anomalias, psicoses, vícios e deformações.

A Força Condicionadora da Mídia...

Feita a pesquisa, perguntou-se às meninas, afinal de contas, qual era o problema delas, uma vez que jovens adolescentes com problemas, para eles, parecia uma coisa inconcebível. Jovens com problemas? Mas isso não é coisa de gente mais velha? Então, a primeira e extraordinária conclusão a que chegaram foi que, jovens saudáveis de famílias bem estruturadas e sem defeitos físicos, também tinham problemas pessoais.

Descobriu-se que as meninas, na maioria das vezes, desejavam, por razões estéticas, mudar alguma parte do seu corpo. Algumas o fariam para ceder às reinvidicações de amigos ou amigas, e por fim das mães. Sem querer pontuar o grau de culpabilidade ou o peso da influência de quem quer que seja nessa decisão, restava descobrir por que opiniões dessa natureza afetavam dramaticamente estas pobres vítimas, comprometendo mesmo, de forma significativa, seus relacionamentos interpessoais e saúde mental.

Constatou-se ainda que, diante do espelho, essas jovens já sabiam exatamente a razão de sua insatisfação. Mas, uma questão estava pendente. Qual a origem desse comportamento; de onde teria partido o comando indutor primário, a sugestão, a ordem hipnótica, a reprogramação mental para que adotassem essa postura?

Depois de compilados os questionários, os pesquisadores concluíram que o principal agente indutor foram as mães. No entanto, restava ainda investigar quem seria o elemento, a fonte condicionadora dessa genitora. Quando se compara alguém com outrem, há de existir um gabarito que sirva de referência, um modelo diante do qual a aferição se torne possível. Sem a medida comparativa o processo não existe.

Se diante do espelho a jovem, esteticamente, não se sente bem, uma métrica para usar como referência ela deve ter usado. Se o comparado não está contente consigo mesmo, essa métrica deve existir. Há comparação sem referência?

Como comparamos alguma coisa? Evidentemente, com um objeto que possa nos servir de modelo; isso nos parece bastante óbvio. E só podemos comparar nossa amiga ou filha com outra pessoa, nunca com uma coisa inexistente. Comparamos com um padrão de beleza ou a estética que o mercado de consumo popularizou, protocolou como ideal. E o que é esse mercado da estética senão a mesologia, o bioma onde estão centradas todas as fontes midiáticas, ou seja, jornais, revistas, televisão, cinema, internet, e tudo mais?

Quem precisa criar e promover ídolos, símbolos e ícones de beleza senão a mídia? Qual é o principal produto, a força motriz que impulsiona suas vendas senão o elemento humano? Inventar motivos existenciais para esse consumidor, elementos condicionantes, processos de alienação mental e induzir novas condutas, esse parece ser o principal papel da mídia. Dizer o que aquele indivíduo deve fazer, como deve se comportar, esta é e sempre será uma tarefa de sua competência, e do êxito dessa abordagem, vai depender seu próprio futuro como corporação bem sucedida.

Assim, quando uma mãe elogia a beleza de algum ícone público, diante de sua filha, entra em ação a régua da estética criada pela mídia. E a pobre vítima se olha no espelho e percebe que não possui os tais atributos tão celebrados pelos patrocinadores desse modelo que precisa ser copiado.

E estas qualidades que a outra esbanja, aquilo que essa mãe usou como padrão de medida, tudo isso ela terá criado por conta própria, ou está simplesmente ilustrando graficamente aquilo que lhe foi ensinado pela cartilha midiática? Quem terá sido o professor, o competente instrutor dessa ignorante progenitora?

Revistas, livros, jornais, internet, e principalmente televisão, onde as imagens ganham vida e glamour, são as fontes de toda paranóia do ser humano moderno, principalmente quando o assunto é padrão de estética para jovens, adultos, crianças, ou para qualquer coisa que esteja na mira do seu interesse comercial. Pouco importa para os meios de comunicação em massa se as pessoas comuns prezam pelos seus valores pessoais, uma vez que estes poderão ser mudados e refeitos a qualquer momento. E tudo isso depende apenas dos seus interesses corporativos.

O Princípio da Hipocrisia Disfarçada de Austeridade...

Finalmente, estes meios de comunicação fizeram uma pesquisa entre os brasileiros, tomando como foco exatamente este assunto. Como era de se esperar, todas as perguntas foram calculadas, dirigidas. Trata-se de uma técnica comum quando se deseja obter uma resposta conveniente e planejada, que afirme, sirva de meio promocional para seus interesses. E eis o resultado divulgado pelos especialistas responsáveis pela condução dessa pesquisa:

Perguntaram: "Quem condiciona, pressiona ou induz as adolescentes a adotarem tal postura? Ou seja, qual a força motriz que mais influencia e motiva, ou que foi capaz de induzir essas jovens a um nível de descontentamento tão dramático em relação a própria aparência?"

E eis o resultado da pesquisa patrocinada pelas corporações midiáticas:

E de acordo com a pesquisa patrocinada pela mídia, entre os entrevistados, a resposta foi a seguinte:

  • A influência das mães, 52%,

  • Das amigas, 49%,

  • Dos meninos, 15%,

  • E, espantosamente, da mídia, de apenas 7%.

Mas, convenientemente, esqueceram de perguntar quem influencia a todos. Mães, amigas, amigos, enfim, quem influencia a todos? Existirá outro meio senão a própria mídia? Quem cria todo esse circo? Quem divulga e reforça, dissemina, dia após dia, todos os estereótipos e os conceitos associados à promoção das imagens e autoimagens e padrões de estética corporal para o público?

Não podemos negar nossa insensatez e dramática estupidez, mas, negar o que os próprios olhos vêem é negar também o dom de pensar. Diante de uma situação onde aquilo que é evidente é ignorado apenas para defender seus interesses pessoais ou corporativos, devemos questionar qual a utilidade dos nossos olhos, ouvidos e bom senso. Se não temos mais competência para afirmar o que nossos olhos vêem, então estamos perdidos.

Negar um fato é distorcer o que é verdadeiro em benefício da mentira, da falsidade mais conveniente, e que apenas favorece aos interesses daqueles claramente interessados em enganar e desinformar seu público amestrado. Esse processo é também conhecido como Técnica da Desinformação, uma espécie de autohipnose coletiva, uma abordagem já largamente usada por governos totalitários ou instituições encarregadas de disseminar mentiras com se fossem verdades.

Trata-se do mesmo princípio já usado pelas instituições ideológicas ou doutrinárias para convencer seus simpatizantes de que, se existe um caminho capaz de conduzi-los a algum lugar digno, este, certamente, só poderá ser indicado por eles.

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