Uma Opinião Crítica
Uma Opinião Crítica
A Estratégia das Falsas Verdades
Autor: Editoria: Site de Dicas[1]
28 de março de 2016
Uma breve história do robusto e bem construído poder persuasivo, desinformador e condicionador, que existe por trás das grandes corporações midiáticas.
"O pior dos males não é o maior, mas aquele que é consentido..."
A Estratégia das Falsas Verdades
Um condicionamento negativo, depois de adquirido, durante muitos anos será reforçado, reciclado, aperfeiçoado, mas, espontaneamente, jamais irá abrir mão de sua natureza original...

Um Conto Reflexivo: Do alto de um monte, Dois andarilhos contemplam a planície abaixo, ao que um deles comenta: "De baixo não parece tão alto, entretanto, já do alto, minhas pernas, ao contrário dos meus olhos, dizem exatamente o contrário..."

A Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, realizou uma pesquisa inédita com 3,3 mil mulheres adolescentes em dez países e os resultados surpreenderam muita gente. Desse grupo, 92% com idades entre 15 e 17 anos responderam que estavam insatisfeitas com sua atual aparência e que gostariam de mudar alguma coisa no corpo, senão com intervenções plásticas, através da automutilação, com o uso de piercings, tatuagens ou outros processos.

Tratava-se de uma insatisfação que acabava por afetar o comportamento social, o temperamento, interrelacionamentos, e a maneira de se posicionar diante da vida. Afetava a autoestima de uma forma tão importante, que logo chamou a atenção dos psicologistas e demais cientistas da psique que estavam de plantão, imaginando como as sociedades antigas conseguiam viver sem profissionais do seu gabarito.

No entanto, não acreditamos que eles enxergaram esse fato como uma doença ou deformidade social, uma psicopatologia dos novos tempos, e sim, talvez, apenas como um importante elemento clínico, um novo pacote de ideias possíveis de ser exploradas, claro, para encher seus consultórios com os novos clientes. Talvez até, sugerir aos laboratórios farmacêuticos, a criação de novas drogas apenas para tratar dessas prováveis novas patologias, ainda não homologadas.

Entretanto, o caso tratado na pesquisa não é um fato novo. Imagine se insatisfação com a autoimagem é coisa nova. Atravessa os tempos, se renova a cada modismo, a cada mudança de estação. Mas, se não é novidade, o que então chamou a atenção desses senhores, os coletores, gestores, administradores, autenticadores das psicopatologias sociais?

A novidade é que nunca se viu tanto jovem, especialmente do gênero feminino, contagiados por tamanha paranóia. Sem muito interesse de explorar a fundo tal questão, claramente um problema social, logo, os comitês encarregados de rotular manias, aqueles conclaves que existem apenas para transformar em patologias aquilo que não convém ser investigado, foram convocados para explicar o fenômeno. E foi o que fizeram. Agora vejamos o resultado, a conclusão desses psicologistas, ao término da tabulação dos dados do estudo.

Na falta de uma solução para um problema, basta rotular como patologia social e a questão estará resolvida. Uma criança que se torna um viciado em vídeo game, logo se torna um caso médico, e uma nova patologia é às pressas protocolada, mas nunca com o propósito de resolver o problema. Quando não se tem a intenção de enfrentar e resolver um problema, basta que seja classificado como doença social e outros absurdos, e está pronta a solução.

Não seria mais simples dizer que aquele garoto sofre com a completa indiferença e ausência dos seus pais? Se os pais alegam falta de tempo para o filho, não seria mais coerente classificar essa falta de tempo motivada pelo vício ao trabalho como uma patologia? Mas isso já foi providenciado, já é tratado assim. De um lado pais omissos e egoístas viciados no excesso de trabalho, do outro um jovem carente, viciado numa máquina que lhe faz companhia sem reclamar, sem nada lhe cobrar, que está disponível para, conforme seja sua demanda, o acalentar noite e dia.

É a vida moderna. Os pais precisam trabalhar, até para prover o sustento dessa criança, que é na verdade um menor abandonado, apesar de compartilhar do mesmo espaço físico com o casal. Trabalham os pais mais do que precisam, deixando seus filhos à tutela do mundo patológico, que é um professor aplicado e competente, e que logo dará de presente ao imaturo jovem aquilo que tem para dar, ou seja, suas anomalias e psicoses, seus vícios e deformações.

Feita a pesquisa, perguntou-se às meninas, afinal de contas, qual era o problema delas, uma vez que, jovens adolescentes com problemas, para eles, parecia uma coisa inconcebível. Jovens com problemas? Mas isso não é coisa de gente mais velha? Então, a primeira e extraordinária conclusão a que chegaram foi que, jovens saudáveis e sem defeitos físicos também tinham problemas pessoais.

Descobriu-se que as meninas, na maioria das vezes, desejavam, por razões estéticas, mudar alguma parte do seu corpo. Algumas o fariam para ceder às reinvidicações dos amigos, ou das amigas, e por fim das mães. Sem querer pontuar o grau de culpabilidade, ou o peso da influência de quem quer que seja, restava descobrir por que opiniões dessa natureza afetavam de forma tão importante e dramática estas pobres vítimas, comprometendo mesmo, significativamente, seus relacionamentos interpessoais e saúde mental.

Conduzida a pesquisa, constatou-se que, diante do espelho, já sabiam exatamente o lhes causava mais incômodo, aquilo que desejariam mudar, e isso era, quase tudo. E havia uma questão no ar. Qual teria sido a origem desse comportamento, de onde teria partido o comando indutor primário, a sugestão, a ordem hipnótica, a lavagem mental para que se comportassem dessa forma?

Supondo que o agente indutor fosse suas mães – aliás, esse foi o que atestou a pesquisa –, depois de compilados os questionários, no entanto, restava ainda investigar quem seria o elemento, a fonte condicionadora dessa genitora. Quando se compara alguém com outrem, há de existir um gabarito que sirva de referência, uma medida, uma amostra; um modelo diante do qual a aferição possa ser processada. Sem a medida comparativa o processo não existe.

Se diante do espelho, a jovem, esteticamente, não se sente bem, uma métrica para usar como referência ela deve ter usado. Se o comparado não está contente consigo mesmo, esse gabarito avaliador deve existir. Há comparação sem referência?

A Estratégia das Falsas Verdades
Um condicionamento negativo, depois de adquirido, durante muitos anos será reforçado, reciclado, aperfeiçoado, mas, espontaneamente, jamais irá abrir mão de sua natureza original...

Como comparamos alguma coisa? Evidentemente, com um objeto que possa nos servir de modelo, isso nos parece bastante óbvio. E só podemos comparar nossa amiga ou filha com outra pessoa, nunca com uma coisa inexistente. Comparamos com um padrão de beleza, ou estética que o mercado de consumo popularizou, protocolou como ideal. E o que é esse mercado da estética senão a mesologia, o bioma onde estão centradas todas as fontes midiáticas, ou seja, jornais, revistas, televisão, cinema, internet, e tudo mais?

Quem precisa criar e promover ídolos, símbolos e ícones de beleza senão a mídia? Qual é o principal produto, a força motriz, que impulsiona suas vendas senão o elemento humano? Inventar motivos existenciais para esse consumidor, elementos condicionantes, processos de alienação mental e induzir novas condutas, esse parece ser o principal papel da mídia. Dizer o que aquele indivíduo deve fazer, como deve se comportar, esta é e sempre será uma tarefa de sua competência, e do êxito dessa abordagem, vai depender seu próprio futuro corporativo.

Assim, quando uma mãe elogia a beleza de algum ícone público, diante de sua filha, entra em ação a régua da estética criada pela mídia. E a pobre vítima se olha no espelho e percebe que não possui os tais atributos tão celebrados pelos patrocinadores desse modelo que precisa ser copiado.

E estas qualidades que a outra esbanja, aquilo que essa mãe usou como padrão de medida, tudo isso ela terá criado por conta própria, ou está simplesmente ilustrando graficamente aquilo que lhe foi ensinado pela cartilha midiática? Quem terá sido o professor, o competente instrutor, dessa progenitora?

Revistas, livros, jornais, internet, e principalmente televisão, onde as imagens ganham vida e glamour, são as fontes de toda paranóia do ser humano moderno, principalmente quando o assunto é padrão de estética para jovens e adultos, ou crianças, ou para qualquer coisa que esteja na mira do seu interesse comercial. Não importa para eles, para os meios de comunicação em massa, se as pessoas comuns prezam pelos seus valores pessoais, uma vez que estes podem ser mudados e refeitos a qualquer momento. E tudo isso depende apenas dos seus interesses corporativos.

Finalmente, estes meios de comunicação, fizeram uma pesquisa entre os brasileiros, tomando como foco exatamente este assunto. Como era de se esperar, perguntas dirigidas, controladas, técnicas que são usadas quando se deseja obter uma resposta conveniente e planejada, que afirme, sirva de meio promocional para seus interesses. E eis o resultado divulgado pelos especialistas responsáveis pela condução da pesquisa:

E Perguntaram: "Quem influencia as adolescentes? Isto é, quem condiciona, pressiona ou induz as adolescentes a adotarem tal postura? Ou seja, qual a força motriz que mais influencia, motiva, enfim, que foi capaz de induzir essas jovens a um nível de descontentamento tão significativo contra a própria aparência?"

E de acordo com a pesquisa patrocinada pela mídia, entre os entrevistados, a resposta foi a seguinte:

  • A influência das mães, 52%,

  • Das amigas, 49%,

  • Dos meninos, 15%,

  • E incompreensivelmente, estranhamente, da mídia, de apenas 7%.

Entretanto, estranhamente, esqueceram de perguntar quem influencia a todos. Quem influencia as mães, as amigas, os amigos, enfim, a todos? Existirá outro meio senão a própria mídia? Quem cria tudo isso? Quem divulga e reforça, dissemina, dia após dia, todos os estereótipos, os conceitos associados à promoção das imagens e autoimagens para o público?

Que ainda somos insensatos, isso não podemos negar, mas fechar os olhos para tamanho absurdo é negar o próprio dom de pensar. Diante de uma situação onde aquilo que é evidente é ignorado apenas para defender seus interesses pessoais ou corporativos, devemos questionar qual a utilidade dos nossos olhos, ouvidos, do bom senso, e se aquilo que podemos claramente perceber, é igual ao que querem nos fazer ver e crer.

Negar um fato é distorcer o que é verdadeiro em benefício da mentira, da falsidade que é mais conveniente, que apenas favorece aos interesses daqueles claramente interessados em enganar e desinformar seu público amestrado. Esse processo é também conhecido como técnica da desinformação, uma espécie de autohipnose coletiva, abordagem usada por governos totalitários, ou instituições encarregadas de disseminar mentiras com se fossem fatos.

Trata-se do mesmo princípio já usado pelas instituições ideológicas ou doutrinárias para convencer seus simpatizantes de que, se existe um caminho capaz de conduzi-los a algum lugar digno, este, certamente, só poderá ser indicado por eles.

Fim do Texto
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Sobre o Autor:
[1] Alberto Silva Filho - albfilho@gmail.com
O autor é um dos organizadores e coordenadores do Site de Dicas.


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Os artigos aqui apresentados, além de refletir nossa opinião sobre os diversos assuntos da atualidade, são resultados de estudos antropológicos e sociais dos nossos pesquisadores, que ora compartilhamos como nosso público leitor.

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