Uma Opinião Crítica
Uma Opinião Crítica
A Estratégia das Falsas Verdades
Autor: Editoria: Site de Dicas[1]
28 de março de 2016
A breve longa história das contradições e conflitos humanos, sua relação nada amigável com o planeta onde vive e com seus habitantes racionais e irracionais.
"O pior dos males não é o maior, mas aquele que é consentido..."
Os Novos Caminhos do Homem
Um condicionamento negativo, depois de adquirido, durante muitos anos será reforçado, reciclado, aperfeiçoado, mas, espontaneamente, jamais irá abrir mão de sua natureza original...

Um Conto Reflexivo: Um monge noviço, cansado de tão rígida disciplina e organização, perguntou ao seu mestre se não poderia relaxar uma vez ou outra e gastar o tempo com bobagens. E lhe responde o mestre: "O maior problema não é o excesso de disciplina, e sim a falta de objetivos concretos, com ou sem disciplina..."

Quando observamos o comportamento das sociedades à nossa volta, o que quer dizer, a mentalidade que rege as diversas nações desse mundo, logo fica claro que os indivíduos, a despeito das tradições às quais estão condicionados, se focam em objetivos comuns, tais como, seu bem estar somático ou sobrevivência e também o seu progresso material, ou sucesso pessoal.

Isso pode significar simplesmente ser um bom marido para alguns, ou um excelente catador de lixo para outros, ou ainda um notório homem público, ou mesmo um esguio e hábil gatuno. Para todos, individualmente, do ponto de vista pessoal, sair-se bem em qualquer desses empreendimentos, significará progresso.

Se a habilidade é ponto de distinção e confere ao seu detentor o status de mais capaz diante dos outros, logo a competição se torna o principal protocolo existencial dos primatas racionais, ou congêneres humanos. Se o “poder mais” significa ter mais, não há como negar a competição como uma regra social praticada por todos, em todas as classes, em todas as tradições, por todos os homens, sejam santos ou pecadores. Afinal de contas, do mesmo modo que a eleição de um santo tem no pecador sua métrica, a mesma regra vale para o seu inverso. E tudo isso depende de comparação, o mais uma vez caracteriza um permanente estado de competição, ou disputa.

Não podemos imaginar uma competição sem que não exista um perdedor e um vencedor; onde não existam os antagonistas, onde não exista um objetivo que deva ser alcançado ou conquistado e ao qual é atribuído algum valor. Conquistar quer dizer possuir, ter. E ter significa poder, o ser mais, pelo menos diante do perdedor, ou daquele que serve de gabarito para medir, aferir o grau, a repercussão desse sucesso ou feito.

E assim, fizemos da vida na terra uma imensa arena de competição, onde todos competem entre si, em busca de uma coisa que dê às suas vidas algum sentido e importância, já que aparentemente não se sabe que utilidade ela tem. Dar sentido à vida, é então, sentir-se importante, ou bondoso, ou mais ético, ou mais poderoso e hábil, mas sempre diante dos outros. E tudo isso implica em sentir-se útil diante de uma sociedade que preza, cultua e reforça, o ideal da conquista competitiva como princípio básico. Ter sucesso é o mesmo que ser bonito, ter poder, ser culto, rico, e todas essas coisas.

E tudo se transforma numa imensa arena de guerra, onde oponentes, adversários, quer dizer inimigos, se enfrentam pelo direito de chegar primeiro, de conseguir mais, de obter alguma coisa, vantagens, concretizar aspirações pessoais. É o desejo de ser bem sucedido a qualquer preço.

Mas segundo esse ponto de vista, ser bem sucedido não significa compartilhar com os demais. Tendo o antagonismo como princípio básico nesse processo, uma vez que o sucesso pessoal é uma métrica, uma medida comparativa que depende da relação com um oponente, a existência de um indivíduo não tão bem sucedido é fundamental, imprescindível para servir como gabarito, o que elimina a possibilidade de dividir em partes iguais.

Suponha um mundo habitado apenas por indivíduos bem sucedidos. Como poderíamos aferir o tamanho do seu status sem um modelo para servir de gabarito? Poderia esse modelo basear-se nele mesmo? Como poderíamos saber o que é doença se vivêssemos num mundo sem doentes?

Do ponto de vista do cosmos, aquela condição ainda não tocada pela mão do homem, significaria alguma coisa os problemas existenciais criados pela imensa e complexa malha dos conflitos humanos?

Para os inflexíveis ciclos regidos pela misteriosa mecânica da natureza, que se cumprem segundo seu próprio ritmo, à revelia de qualquer outra coisa, teria algum significado os nossos problemas existenciais? Os dias e as noites deixarão de cumprir seus ciclos apenas porque o homem não consegue realizar seus desejos mundanos? Então, para quem o homem vive senão para si mesmo?

Quem se preocupa então com o planeta, se a ostentação de um diferencial pessoal, de uma autoafirmação, sempre diante de outros indivíduos é tudo que importa? Temos preocupação com o planeta ou conosco? Se não fosse conosco estaríamos então contrariando nosso instinto básico de preservação. Biologicamente, sobreviver é para o animal irracional tudo que importa, e não a preservação do seu entorno, e nós somos animais, a despeito do diferenciado dom do pensamento voluntário, algumas vezes racional.

A aparente preocupação ambiental, na verdade, não significa respeito à natureza ou aos demais animais, e sim medo de que os recursos se esgotem, o que colocaria em risco nossa própria sobrevivência.

O futuro para o homem, diante de sua atual postura, não parece importante, uma vez que ele já sabe que não estará presente para conferir. Talvez seus filhos, ou descendentes destes. Mas quem se importa com uma coisa cujo desfecho não se consegue vislumbrar imediatamente, ou de um contexto do qual o mesmo não fará parte?

Assim, a preocupação com os desdobramentos de nossas ações em relação ao futuro do planeta é apenas um eufemismo. Isso não tem significado prático algum, uma vez que ele tem plena consciência de que aquele mundo situado dezenas de anos à sua frente, não lhe pertence, portanto, em nada irá interferir no seu atual modo de vida.

Trata-se tão somente de um problema para os indivíduos que farão parte daquela realidade, e isso evidentemente não o inclui. Também não o preocupa o fato de que seus filhos ou descendentes destes lá estarão. Fosse real essa preocupação, pensaria muitas vezes antes de gerar descendentes nesse mundo hostil criado por ele mesmo, e ainda considerar esse evento um ato de amor. Se deixar como presente para seus herdeiros um mundo com tamanha feiúra é um ato de amor, isso talvez explique porque sua insanidade é tratada com tanta naturalidade.

Quando um homem torna-se mais importante que outro homem, destruir é para ele a razão do seu existir. Se ele existe para se servir de tudo que é capaz de tocar, uma vez que todas as suas obras se destinam apenas à consolidação do seu status autosatisfação, o que é importante para esse homem senão ele próprio?

Por que ele sofre, por que ele agride, por que ele chora, por que ele odeia, por que ele reza e apela à divindade, não é em comiseração a si mesmo? E todos não fazem a mesma coisa? E sua aclamada bondade, ele pratica a troco que? Será que ele teria a mesma postura altruísta se, como resultado de suas “boas ações”, nenhum mérito futuro estivesse em sua pauta de créditos?

Preocupado que está apenas com o seu bem estar, onde o respeito pelo próximo lhe assegura mais benefícios que malefícios, onde cuidar bem de sua esposa ou marido significa apenas a obtenção de satisfação pessoal, uma vez um ou outro lhe serve com seus favores, o homem fez do seu mundo um lugar para servi-lo, e não para ser cuidado.

Satisfação pessoal é seu objetivo único. O coletivo, quando ocorre, é uma consequência absolutamente involuntária. Preocupação com o futuro, preservação do meio ambiente, quando acontece, quase sempre se limita ao entorno de sua casa. Vantagem em tudo que faz é o que objetiva. Doa para receber, senão na terra, nos céus, e a isso chama de bondade, ou boa ação.

Como podemos mudar essa postura patológica, até agora responsável pela gestão desse estado caótico onde vivemos? Será que devemos, de forma passiva, aguardar por uma intervenção divina, aquela utópica condição convenientemente idealizada para nos servir em troca de esmolas, penitências, rituais infantis ou fidelidade hipócrita, ou ao contrário, descartar tudo isso e tentar uma nova abordagem?

Supondo que uma deformação só é capaz de criar ainda mais deformação, não seria mais inteligente jogar no lixo essa cartilha que, durante todo esse tempo tem nos servido de guia, e começar a escrever uma nova versão? E a velha serviria apenas como referencial para todos os erros que não mais iríamos cometer.

Fim do Texto
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Sobre o Autor:
[1] Alberto Silva Filho - albfilho@gmail.com
O autor é um dos organizadores e coordenadores do Site de Dicas.


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