Uma Opinião Crítica
Uma Opinião Crítica
Ponto de Saturação
Autor: Editoria: Site de Dicas[1]
27 de março de 2016
Há um limite, além do qual, os fabricantes não mais poderão atrair novos consumidores para seus produtos. O que farão em seguida é um desafio para eles e um problema para nós...
"O tamanho da angústia de cada um se mede pela quantidade de desejos não realizados..."
Ponto de Saturação
Quando acreditamos que um mundo melhor é aquele idealizado por nós, sem perceber, estamos admitindo que a terra é o centro do universo...

Frase de um estrategista de novos produtos: “Muitos dos supostos melhoramentos em produtos, que na verdade não passam de maquiagens, servem apenas como sugestões ou deixas para os redatores publicitários, quando se reúnem para a elaboração de novas campanhas...”

A ideia do novo pode ser o mais forte argumento por trás do processo de indução ao consumo. Para compreendermos porque isso funciona, primeiro precisamos observar em que se baseia seu modelo de eficiência.

Pouco depois de nascermos, quando já somos instruídos sobre as primeiras noções de mundo, o conceito de que as coisas são temporárias apresenta-se como nosso primeiro problema, e logo o desejo de estabilidade se fixa como nossa principal meta existencial.

Trata-se do desejo de perpetuação das coisas que nos agradam. E há uma evidente sensação de conforto e segurança quando pisamos em terreno conhecido. E assim, o princípio da acomodação torna-se a conquista mais preciosa desse mundo.

Por isso construímos nossas casas para durar mais que dez vidas inteiras. A ideia de que as coisas não são permanentes nos incomoda. Por isso renovamos nossos móveis, nossas roupas, nossas ideias e ideais; a pintura das nossas casas. Isso nos passa a ilusão de que as coisas não envelhecem.

E se a higiene e limpeza desempenham um importante e imprescindível papel quando o assunto é a qualidade de vida, o conceito de limpeza e higienização que a publicidade usa em suas abordagens, tem outro objetivo. Ali, limpeza significa estabilidade, uma negação ao natural estado de degradação e transformação que é o padrão de todas as coisas dentro da natureza. Procure por algo que está imune ao tempo, nunca muda ou se recicla, e decerto não encontrará.

Tudo que é criado obedece a uma lei cíclica, onde as coisas envelhecem – já que o tempo cronológico não pode ser contido – e se desgastam. Assim é inevitável que a estética do belo mude de forma; que o limpo, embora permaneça asseado, se desgaste.

A ideia do novo tem para nós um significado mais profundo que a simples noção de limpeza ou higiene, ou avanços em qualidade de vida. Ela representa a possibilidade concreta da perpetuação de uma coisa à qual nos apegamos. E manter aquilo sempre renovado, induz o ideal de que possamos nos perpetuar, estabilizar, ou viver mais tempo.

E quando nos focamos na aparência do estado de novo que as coisas possuem, enfatizamos nosso culto à eterna juventude. Em nossa vida diária, quando algo nos satura, nos enfastia, há sempre a possibilidade de nos desfazermos daquilo, de substituir por algo renovado. Nosso modelo de mundo cultua a troca do velho pelo novo. Não se trata do inservível pelo servível, mas do antiquado pelo recém nascido.

Por isso idolatramos a cosmética sempre jovial das aparências. Mas, para nosso desgosto, vivemos num mundo de coisas velhas, onde nada nunca é verdadeiramente novo. Novidade não é o novo, trata-se simplesmente do velho que ainda desconhecíamos.

A cosmética das coisas sempre joviais e renovadas, a todos fascina, uma vez que parece refletir um desejo profundo que existe dentro de cada indivíduo, onde ele poderia se renovar a cada nova estação, de renascer sem deixar marcas após cada desgosto ou desilusão; de se refazer depois de cada erro cometido.

Segundo essa lógica, torna-se fundamental eleger alguém que julgamos qualificado para nos guiar. Assim, a autoridade torna-se uma figura imprescindível, uma vez que apenas aquele conhecedor de todos os caminhos, supostamente, é o único capaz de nos conduzir em segurança em direção à estabilidade que tanto buscamos em nossos relacionamentos, sejam com pessoas, objetos ou ideias.

Ficamos fascinados com o estilo de vida dos famosos e ricos, e por isso cultuamos suas opiniões e preferências. Eles, com seu modo excêntrico de viver, passam para nós a ideia de que naquele mundo restrito onde vivem nenhum objetivo é impossível. É um bioma seguro que todos desejam. É como o hipocondríaco que ao resolver se tornar médico e praticamente residir dentro de um hospital, imagina que jamais ficará doente.

E eis porque funciona a ideia de renovação patrocinada pela indústria do consumo, indústria essa que alimentamos com nossos sonhos, dentre eles o de conquistar as coisas impossíveis.

Mas a conquista do impossível não é ideia nossa, é apenas mais uma estratégia criada pela máquina encarregada de induzir consumo ou condicionar cérebros. Trata-se de um conceito fascinante, pois nos tornaria psicologicamente diferenciados, apesar de que a mesma mensagem é transmitida e absorvida por todos.

E o momento máximo da indústria do consumo ocorre quando eles criam o conceito de saturação, e o que antes poderia significar um formidável desafio para seus vendedores, hoje é coisa simples de resolver. Basta para tanto espalhar a ideia de que os produtos nas mãos dos consumidores se tornaram obsoletos, ultrapassados, a ponto mesmo de fazê-los sentirem-se envergonhados pelo fato de possuírem um.

Desse modo, resolvem dois problemas com uma só abordagem criativa. O da saturação de mercado, e o outro, de manter sempre motivados os felizes compradores dos seus produtos, agora dispostos a sacrifícios, em troca do desejo de “reciclagem” através da prática consumista.

É o conceito do status reverso, ou da falta deste. E como a aparência exterior, na cabeça de cada indivíduo, ainda é o seu bem mais precioso, a estratégia funciona. A depreciação de uma posse, na mente do consumidor, significa a inferiorização do seu status social, ou sua própria decadência. É por isso que, em público, ninguém gostaria de ser visto portando um acessório eletrônico ultrapassado, ou um objeto de uso pessoal de qualidade inferior, ou comercialmente tornado velho.

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Editoria de Educação do Site de Dicas.
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Sobre o Autor:
[1] Alberto Silva Filho - albfilho@gmail.com
O autor é um dos organizadores e coordenadores do Site de Dicas.


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Os artigos aqui apresentados, além de refletir nossa opinião sobre os diversos assuntos da atualidade, são resultados de estudos antropológicos e sociais dos nossos pesquisadores, que ora compartilhamos como nosso público leitor.

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