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Uma Guerra Silenciosa – O Paradoxo do Homem Imaturo

Um jovem dificilmente se detém para observar um idoso como um espelho de si mesmo; pelo menos não até o momento em que a imagem refletida naquele espelho seja a sua...
Uma Guerra Silenciosa – O Paradoxo do Homem Imaturo

Em nosso tempo, o indivíduo que se recusa a seguir o bloco de “Maria vai com as Outras”, corre o risco de ser considerado um psicopata social...

A Irracionalidade Racional...

Um Conto Reflexivo: Sem compreender porque se sentia desmotivado e sem interesse por mais nada, um homem procurou os conselhos de um sábio, em busca de explicações. E diz o Sábio: "Em primeiro lugar você deve descobrir porque a desmotivação o deixa angustiado. Feito isso, procure saber porque precisa de motivação para fazer alguma coisa..."

Nas relações humanas, salvo algumas exceções pontuais, o que parece predominar é o status da indiferença voluntária. Ocorre em todas as situações, mesmo no convívio entre pais e filhos, irmãos e irmãs, amigos, congregados e congregantes. Está tão presente na mesologia e comportamento humano que, na maioria das vezes, quando eventualmente é percebida, sequer é tratada como uma anomalia, deformidade comportamental, ou patologia social.

Por instinto, o homem é uma entidade social. Trata-se de um traço das suas memórias irracionais, onde a convivência grupal favorece a caça, a proteção contra os predadores e o acasalamento para fixação da sua genética nos herdeiros de sua linhagem. Se no irracional tudo ocorre de forma inconsciente, entre nós, todo esse processo acontece de forma pensada, menos dramática, embora não ainda de um modo sensato e equilibrado.

Entre os irracionais, os mais fracos são simplesmente deixados para trás, expulsos do convívio grupal pela indiferença. Mas não se trata de uma ação deliberadamente pensada, sob o jugo do senso de injustiça ou justiça, ou de um gesto de maldade. É uma regra da natureza, onde aqueles que, depois de crescidos não são capazes de conseguir seu próprio alimento e livrar-se dos predadores, não estão qualificados para dar o passo seguinte, que deveria ser o batismo das suas crias.

Sem racionalidade, o sentimento de comoção é preterido em favor da sobrevivência. O irracional é social por necessidade, mas individualista por natureza. Ele não pensa de forma lógica, logo seu cérebro prioriza apenas os atributos do seu instinto. O homem possui o dom de quebrar essa regra, mas não de remover de si os traços primitivos do animal irracional.

O Ego é uma entidade complexa, e embora sua natureza seja essencialmente virtual, é o responsável pela condução psicológica do corpo somático. É um aperfeiçoamento do cérebro irracional, ao qual foi misteriosamente incorporada a capacidade de pensar logicamente, até de forma complexa. Um atributo com tal qualidade, dentre todos os seres vivos, aparentemente, é uma exclusividade do animal homem.

Assim, meio animal irracional e agora incorporando traços de racionalidade, não só é capaz de pensar com coerência, como também de planejar seu futuro, ou mesmo questionar sobre os motivos de sua existência. E passados milhares de anos, progrediu de um convívio grupal semi-instintivo e sem organização, para outro racional e organizado, ao menos segundo seus padrões.

Se para um irracional a coisa inquestionável é uma ocorrência impossível de ser explorada, o mesmo não ocorre que o indivíduo dotado de racionalidade. Ele agora pensa de forma voluntária e pode – isso não quer dizer que irá fazê-lo – questionar por que sua espécie existe. Isso é improvável de acontecer entre seus irmãos irracionais, pelo menos até agora, segundo as últimas incursões científicas.

Mas ainda lhe custa entender que vive em um mundo, que não lhe pertence; não pertence a ninguém, mas que permite o inquilinato sem restrições aos seus hóspedes temporários. Sim, ele também ainda não se deu conta de que sua estadia aqui não será longa – pelo menos no atual estágio civilizatório –, e embora não saiba qual a sua verdadeira função nesse mundo, não se interessa em descobrir.

Uma Disputa Silenciosa...

Necessidades básicas são eventualidades comuns à todos. Não se escolhe sentir ou não uma dor, fome, frio, ou mesmo a angústia de uma frustração. Tais processos são sensações ou sentimentos involuntários, e não exclusivos de grupos étnicos ou classes sociais.

O egocentrismo é outro desses atributos involuntários. Trata-se da prerrogativa que psicologicamente nos coloca no primeiro lugar da fila das prioridades, deixando todos os demais em segundo plano. Por isso a maioria se sente bem quando é agraciada por um elogio, ou compensada com um singular agrado meritório.

Sentir-se maior que os outros é quase uma obsessão para Ego, e, inicialmente, não há nada que possamos fazer para evitar que isso aconteça. Por isso, se dependesse de nossa vontade, a qualidade de nossas habilidades, nosso modo de vestir, preferências, modo de andar, crenças e tudo mais, deveriam servir de gabarito para determinar a conduta do resto da humanidade.

E um dos quesitos mais importantes é a questão do status social, onde aquele que supostamente pode mais, não é capaz de prescindir da existência daqueles que podem menos, até como uma forma de medir, atestar e autenticar sua posição. Mas, quais são os critérios usados para conferir o status de mais para uns, e o de menos para outros?

Dinheiro e poder são os ingredientes principais, embora existam outros. E como nem sempre a condição financeira que confere status social diferenciado ao seu portador é explícita, protocolos especiais para dividir a sociedade em territórios bem demarcados, precisaram ser criados. Por isso, roupas e acessórios de grife, ou outros itens que possam ser exibidos publicamente, fazem parte dessa simbologia segregadora. Afinal de contas, de que serve um título de nobreza que não pode se reverter em benefício ou distinção para seu detentor?

E como no consciente coletivo dinheiro e poder significa sucesso, os indivíduos dotados com tais atributos, logo são transformados em ícones, modelos dignos de imitação, fascínio ou idolatria.

Mas, o pior de tudo é o caso da indiferença social, cuja manifestação é consentida e praticada por todos, até mesmo entre aqueles socialmente descartados. A indiferença possui muitos aspectos, características tão comuns que são invisíveis aos nossos olhos e pensamento crítico. Está presente também no preconceito racial, intelectual, estética corporal, status profissional, e assim por diante.

E como não poderia deixar de ser, mais uma vez, nosso Ego é o juiz dos nossos atos, campo esse onde o interesse pessoal traça todas as nossas rotas. É a questão do sentimento de vantagem a coordenar todas as nossas ações. Por isso ele questiona sempre: “Isso, de alguma forma é uma coisa vantajosa para mim?”

Será que Há Vida Fora da Caixa?...

Desse modo, não nos interessa cuidar de nossos idosos, afinal de contas, isso não nos trará nenhuma vantagem financeira; nem irá agregar um pedigree digno de valor à nossa imagem pública. Ao invés disso, é a certeza de muitos contratempos, impedindo nosso lazer e a plena liberdade nas nossas horas de folga, mesmo que esse ócio seja gasto assistindo apenas bobagens na televisão, dedilhando mensagens fúteis e nosográficas nas redes sociais, ou ainda futricando com os amigos.

Pelo mesmo motivo, os garis, varredores de ruas e equivalentes em ofício, são entidades invisíveis aos nossos olhos. E, pela mesma razão, os doutores e similares, senhores de muito tempo consagrados pelo status da categoria profissional da qual fazem parte, nos evocam verdadeiras entidades divinas que acabaram de descer dos céus, para, além de dar um passeio na terra, nos permitir um sagrado momento de reverência, idolatria ou veneração.

Talvez seja por isso que um milionário, indiferente a qualquer espelho que não reflita sua própria imagem, desfila com seu automóvel extravagante em meio aos mendigos ou miseráveis, e considera isso um gesto racional, digno de seu status, singular inteligência, ou mesmo como um justo e meritório regalo dos deuses.

E mais tarde, irá patrocinar suntuosas e dispendiosas recepções em homenagem ao seu sucesso, talvez até como uma espécie de ritual para solenizar a miséria que ajudou a criar, mas que de forma impassível, se nega a enxergar.

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